Uma referência feita pelo ministro Alexandre de Moraes a “uma jornalista”, durante o tenso julgamento desta terça-feira (15) no Supremo Tribunal Federal, provocou repercussão nas redes sociais e passou a ser associada à jornalista Malu Gaspar, de O Globo. Moraes não pronunciou o nome da repórter naquele momento. A associação surgiu porque documentos da investigação sobre vazamentos de informações sigilosas do Caso Master citam Malu nominalmente e apontam o perito criminal federal João Cláudio Nabas como suspeito de ter acessado e compartilhado material extraído do celular de Daniel Vorcaro.
O episódio ocorreu em meio ao forte embate entre Alexandre de Moraes e André Mendonça durante a análise, pelo STF, de desdobramentos relacionados ao Banco Master. Moraes acusou o colega de manter sob sua relatoria informações envolvendo sua esposa e outros dados que, segundo ele, poderiam ter sido utilizados em vazamentos para a imprensa. Mendonça rebateu as acusações e questionou a legalidade de relatórios utilizados contra ele.
O nome de Malu aparece nos documentos
Embora Moraes não tenha identificado a jornalista mencionada na sessão, documentos relacionados à Petição 15.625 ajudam a explicar por que o nome de Malu Gaspar rapidamente passou a circular nas interpretações sobre a fala.
Segundo a representação da Polícia Federal e decisão proferida por André Mendonça em maio, o perito criminal federal João Cláudio Nabas teve acesso ao laudo produzido a partir do celular de Daniel Vorcaro. A apuração registra que ele acessou o material em 1º de dezembro de 2025 e, três dias depois, criou dois arquivos identificados como “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf”.
De acordo com os mesmos documentos, Nabas encaminhou os arquivos no dia seguinte à delegada Janaína Palazzo e teria sugerido que ela conversasse com Malu Gaspar, afirmando ser fonte da jornalista havia anos. A Polícia Federal também apontou que reportagem publicada posteriormente por O Globo apresentava conteúdo coincidente com material existente no arquivo denominado “Moraes.pdf”.
Esses elementos levaram a Polícia Federal a investigar a possibilidade de vazamento de informações protegidas por sigilo.
Isso, entretanto, não significa que Malu Gaspar tenha cometido qualquer ilegalidade, nem que tenha sido ela a jornalista especificamente mencionada por Moraes no plenário. A investigação autorizada por André Mendonça teve como alvo a conduta do agente público suspeito de fornecer informações sigilosas. O próprio STF esclareceu, quando a operação foi realizada, que a apuração não tinha jornalistas ou veículos de comunicação como alvo.
Perito foi afastado por decisão de Mendonça
Em 18 de maio, André Mendonça acolheu representação da Polícia Federal e parecer da Procuradoria-Geral da República e determinou o afastamento de João Cláudio Nabas da função de perito criminal federal. Também foram autorizadas busca e apreensão e medidas relacionadas ao acesso a dados telemáticos.
As auditorias internas citadas no processo apontaram acessos do perito aos arquivos e registraram ainda a exclusão do documento “Moraes.pdf” do armazenamento institucional. Segundo a apuração, a exclusão ocorreu horas antes da publicação de outra reportagem sobre supostas conversas envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.
O conjunto dessas informações passou a integrar a crise institucional envolvendo o Caso Master, os vazamentos de material da investigação e a relação entre integrantes da Polícia Federal, imprensa e gabinetes do Supremo.
Moraes e Mendonça elevaram o tom
Durante a sessão de terça-feira, Moraes e Mendonça protagonizaram uma das discussões mais duras registradas publicamente entre integrantes da Corte nos últimos meses.
Moraes sustentou que documentos produzidos pela Polícia Federal e depoimentos de investigadores confirmariam a regularidade das informações utilizadas por ele. Mendonça, por outro lado, afirmou que também teria sido alvo de monitoramento e criticou aquilo que classificou como coleta seletiva de dados.
O pano de fundo da discussão é uma disputa sobre como foram produzidos e compartilhados relatórios relacionados ao Caso Master e sobre eventuais vazamentos para a imprensa.
Associação não significa identificação
Os documentos efetivamente mencionam Malu Gaspar no contexto da investigação envolvendo João Cláudio Nabas. Isso é fato documental. Também é fato que Moraes fez referência a uma jornalista durante o contexto do embate.
O que não está demonstrado, até o momento, é que Moraes estivesse se referindo especificamente a Malu Gaspar ao fazer aquela menção. Portanto, a associação feita nas redes deve ser apresentada como associação e não como identificação confirmada.
A investigação sobre o suposto vazamento também não transforma a atuação jornalística de Malu Gaspar em objeto criminal. Em maio, quando a operação contra o perito foi realizada, o Supremo afirmou expressamente que a medida estava direcionada à conduta do servidor público e não à jornalista ou ao veículo de comunicação.






