Uma investigação publicada pelo Intercept Brasil na última quinta-feira (10), assinada pelos jornalistas Eduardo Goulart e Vinícius Madureira, revelou que a campanha de Flávio Roscoe (PL) ao Governo de Minas recebeu R$ 900 mil de Carlos Geo Quick, ex-controlador do antigo Banco Neon. Quick se tornou réu na Justiça Federal em 2025 após denúncia do Ministério Público Federal por crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Entre as acusações, o MPF aponta gestão fraudulenta por meio de operações de crédito que considera fictícias. A reportagem do Intercept também procurou a campanha de Roscoe e publicou o contraditório apresentado pela assessoria do candidato, que defendeu a legalidade e a transparência da doação.
Segundo o levantamento dos jornalistas Eduardo Goulart e Vinícius Madureira, do Intercept Brasil, o Quick transferiu os R$ 900 mil em duas parcelas durante agosto. Primeiro, repassou R$ 380 mil. Depois, destinou outros R$ 520 mil. Conforme os dados eleitorais citados pelo Intercept, até 9 de setembro essa quantia figurava como a 21ª maior doação individual de pessoa física registrada no país nas eleições de 2026. Além disso, dados atuais derivados da prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral confirmam as duas transferências, feitas nos dias 20 e 26 de agosto.
Dentro da campanha de Roscoe, Quick ocupa posição relevante entre os financiadores. Os dados da prestação parcial mostram que ele aparece como o maior doador pessoa física individual, com R$ 900 mil. Considerando também os repasses partidários, contudo, os diretórios nacional e estadual do PL aparecem acima dele na lista geral de recursos recebidos pela candidatura.
Intercept investigou histórico do principal doador pessoa física
A reportagem do Intercept não se limitou a identificar a entrada do dinheiro na campanha. Além disso, os jornalistas investigaram o histórico do empresário responsável pela contribuição e encontraram um processo criminal relacionado à atuação de Quick no sistema financeiro.
Segundo o Intercept, Carlos Geo Quick controlou o antigo Banco Neon, anteriormente denominado Banco Pottencial. Que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição em maio de 2018. Posteriormente, em março de 2025, o Ministério Público Federal apresentou denúncia contra Quick e outros envolvidos. No fim de abril daquele ano, a Justiça Federal em Belo Horizonte aceitou a acusação. Com isso, Quick passou à condição de réu.
A condição de réu significa que a Justiça aceitou analisar formalmente as acusações apresentadas pelo MPF. Entretanto, isso não equivale a condenação, e o processo precisa percorrer suas etapas até uma eventual decisão definitiva.
Segundo a investigação jornalística, Quick e seus sócios também comandavam a Pottencial Assessoria e Consultoria, conhecida como PAC. O MPF sustenta que o grupo usava essa empresa para captar dinheiro sem autorização adequada do Banco Central. Empresas entregavam recursos à PAC na expectativa de obter rendimento. Contudo, quando buscavam resgatar o dinheiro, surgia a estrutura que se tornou objeto da acusação criminal.
MPF aponta empréstimos fictícios para transformar investidores em devedores
De acordo com a apuração publicada pelo Intercept, o Ministério Público Federal afirma que os controladores não simplesmente devolviam determinados valores solicitados pelos investidores. Em vez disso, o grupo teria registrado no banco operações de crédito equivalentes ao dinheiro que os clientes buscavam recuperar.
Assim, conforme a tese apresentada pelo MPF e relatada pelo Intercept, a empresa que tentava recuperar seus próprios recursos passava a aparecer nos registros bancários como tomadora de um empréstimo. Além disso, o banco contabilizava juros relativos a essas operações. Para os investigadores, esse mecanismo criava receitas artificiais e contribuía para apresentar uma situação patrimonial diferente da realidade.
Documentos fiscais de anos anteriores também mostram a presença de Quick na estrutura societária do antigo Banco Pottencial e de empresas do mesmo grupo. Portanto, a relação empresarial descrita pela investigação não nasceu apenas da atual reportagem. Registros administrativos antigos já identificavam Carlos Geo Quick entre os controladores e administradores do conglomerado.
Campanha de Roscoe apresentou contraditório ao Intercept
Ao publicar a investigação, o Intercept Brasil ouviu a assessoria de Flávio Roscoe e incorporou a resposta da campanha à matéria. A reportagem dos dois jornalistas não apresentou apenas as informações sobre o doador e o processo judicial.
Segundo a nota enviada ao Intercept, a campanha afirmou que a contribuição ocorreu de maneira “legal, transparente e devidamente declarada”. Além disso, a assessoria sustentou que a relação entre Roscoe e Carlos Geo Quick decorre exclusivamente do convívio dos dois no ambiente empresarial de Minas Gerais.
A equipe de Roscoe acrescentou que pretende financiar a campanha com doações privadas regularmente declaradas e afirmou que não utiliza recursos públicos ou do Fundo Partidário. Em outra manifestação recente à imprensa, a campanha já havia defendido que recursos recebidos por intermédio do PL também tiveram origem em doações privadas e não no Fundo Eleitoral.
Não há indicação na reportagem do site e tão pouco do Divinews de que a doação de Quick a Roscoe seja ilegal. O ponto revelado pela investigação está na identidade e no histórico judicial do principal financiador pessoa física do candidato: um empresário que responde a processo criminal por fatos relacionados à administração de uma instituição financeira.
Defesa de Quick também respondeu
O Intercept também procurou a defesa de Carlos Geo Quick. Os advogados afirmaram que o empresário não mantém relação comercial com Flávio Roscoe e explicou que ele decidiu contribuir financeiramente porque acredita nas propostas do candidato e o considera um bom nome para governar Minas Gerais.
Por outro lado, ao receber questionamentos específicos sobre as acusações apresentadas pelo Ministério Público Federal, a defesa informou ao Intercept que Quick não se manifestaria sobre esse assunto.
De um lado está a doação eleitoral, registrada na prestação de contas. De outro está o processo criminal contra o doador, que trata de fatos ligados à antiga atuação no sistema financeiro. Até o momento, a reportagem do Intercept, que está sendo reproduzida pelo Divinews, não apresentou elementos que associem Roscoe às supostas fraudes atribuídas pelo MPF a Quick.
R$ 900 mil aparecem em meio à disputa pelo Governo de Minas
A revelação ganhou dimensão política porque Roscoe disputa o Governo de Minas pelo PL e tenta ampliar sua presença eleitoral no estado. Um dia antes da publicação da reportagem, em 9 de setembro, ele participou de agenda em Juiz de Fora ao lado do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e do deputado federal Nikolas Ferreira.
Além disso, o volume da contribuição chama atenção dentro das contas eleitorais. Enquanto outros empresários também fizeram aportes expressivos à candidatura, nenhum doador pessoa física havia ultrapassado os R$ 900 mil destinados por Quick nos dados consultados no Divulgacand.
Por isso, a investigação de Eduardo Goulart e Vinícius Madureira, publicada originalmente pelo Intercept Brasil em 10 de setembro, acrescenta um novo elemento ao acompanhamento do financiamento eleitoral em Minas. O fato central não está apenas no valor transferido, mas também no histórico judicial do empresário que realizou a maior contribuição individual de pessoa física à candidatura de Roscoe.
Ao mesmo tempo, o contraditório publicado pelo próprio Intercept registra a posição da campanha: Roscoe sustenta que recebeu recursos dentro das normas eleitorais, que declarou a contribuição regularmente e que sua relação com Quick se limita ao convívio empresarial.
Nota publicada pelo Intercept nesta mesma matéria







