“Desproclamador” da República: documentos expõem rede de Vorcaro que alcança Banco Central, policiais, política, igreja, mídia e futebol

Análise de 721 páginas da Operação Compliance Zero, que o Divinews teve acesso, cruzada com documentos tornados públicos posteriormente, mostra diferentes níveis de relação entre o ex-controlador do Master e servidores, policiais, empresários, políticos, religiosos, comunicadores e estruturas esportivas.

Publicado por: Geraldo Passos

Análise das 721 páginas de documentos ligados ao caso Banco Master revela que a dimensão da rede construída em torno de Daniel Vorcaro ultrapassou muito o sistema financeiro. A Polícia Federal descreve um núcleo com operadores financeiros, servidores do Banco Central, um policial federal aposentado, pessoas responsáveis por levantamentos sigilosos, ações de intimidação e estruturas destinadas a controlar reputação nas redes. Documentos tornados públicos posteriormente ampliaram o mapa. Eles mostram conexões de Vorcaro e de pessoas próximas a ele com integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, uma igreja evangélica, o mercado de comunicação, uma casa de apostas e o futebol brasileiro. Entretanto, cada conexão possui natureza distinta. Em alguns casos, a PF atribui atuação criminosa. Em outros, existem investigações ainda abertas. Há também contratos, encontros, patrocínios e relações comerciais que, isoladamente, não representam ilegalidade.

A representação apresentada pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal talvez seja uma das peças mais abrangentes já produzidas sobre o caso Master. Os investigadores pediram a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, de seu cunhado Fabiano Campos Zettel, de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Felipe Mourão ou “Sicário”, e do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Para a PF, esse grupo ocupava posições centrais em uma estrutura que combinava dinheiro, influência estatal, acesso a informações e capacidade operacional para enfrentar adversários.

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Na conclusão da peça, a PF resume a atuação investigada em quatro frentes. A primeira seria a influência sobre funcionários do Banco Central. A segunda envolveria a obtenção irregular de dados sigilosos. A terceira seria formada por ações de coerção e intimidação contra adversários. Finalmente, a quarta buscaria manipular informações, publicações e redes sociais.

Banco Central aparece no coração da investigação

Uma das descobertas mais sensíveis está justamente dentro da instituição encarregada de fiscalizar os bancos. A PF atribui aos então dirigentes do Departamento de Supervisão Bancária Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana uma proximidade incompatível com a função fiscalizadora.

Segundo os investigadores, Paulo Sérgio teria atuado como consultor informal de Vorcaro. Ele orientava reuniões, discutia estratégias e revisava documentos. Belline, por sua vez, também teria revisado minutas, antecipado informações e participado de encontros privados. Vorcaro, Belline e Paulo Sérgio chegaram a formar um grupo de WhatsApp chamado “Master”.

A PF também encontrou indícios de vantagens materiais. Documentos investigados apresentam contratos que seriam fictícios, pagamentos indiretos, uma operação imobiliária e viagens. No caso de Belline, o relatório registra até organização de viagem para Paris. Segundo a PF, os pagamentos utilizavam empresas e intermediários para dificultar a associação direta com Vorcaro.

Esse circuito coloca dois outros personagens em posição importante. Fabiano Zettel aparece como operador financeiro. Leonardo Palhares surge ligado à Varajo Consultores, empresa usada em documentos que a PF considera simulados. Ana Claudia Queiroz de Paiva também aparece no fluxo empresarial que sustentava pagamentos.

R$ 1 milhão por mês e uma estrutura chamada “A Turma”

Se o núcleo financeiro chama atenção pelo acesso ao Banco Central, outro segmento surpreende pela estrutura operacional. A PF afirma que Felipe Mourão recebia aproximadamente R$ 1 milhão por mês para coordenar diferentes grupos que trabalhavam para Vorcaro.

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Um deles era chamado “A Turma”. A própria contabilidade descrita em conversas indicava pagamento de R$ 400 mil mensais para seis integrantes. O policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva aparece como principal interlocutor da estrutura.

A PF encontrou mensagens sobre consultas, monitoramentos, localização de pessoas e acesso a procedimentos sigilosos. Em alguns episódios, Mourão recebia dados provenientes de sistemas do MPF, Senasp e Polícia Federal. O relatório também descreve utilização de canais destinados a autoridades para tentar retirar perfis das redes sociais.

O documento não permite, contudo, identificar de maneira segura todos os seis integrantes da “Turma”. Além de Roseno, os outros nomes não aparecem individualizados com grau suficiente de certeza. A mesma cautela vale para outro grupo, chamado “Os Meninos”, associado a ações digitais.

“Ir pra cima”: investigação encontrou alvos de intimidação

Os relatórios reproduzem episódios em que pessoas consideradas adversárias de Vorcaro viraram alvo de levantamentos.

Luis Felipe Woyceichoski, que trabalhou em embarcação ligada ao banqueiro, teve documentos encaminhados a Mourão. Segundo o relatório, Vorcaro determinou levantamento completo e disse que seria necessário “ir pra cima”. Mourão afirmou que a “Turma” poderia se deslocar até o Rio de Janeiro.

Leandro Garcia da Silva, ex-chefe de cozinha, também aparece nesse contexto. A PF considerou que, nesses dois casos, os expedientes intimidatórios ultrapassaram a mera especulação. Entretanto, o próprio relatório ressalva que não encontrou comprovação de que agressões físicas planejadas tenham sido executadas.

Outros nomes aparecem em ações de monitoramento. Vladimir Timmerman teve dados cadastrais levantados depois de uma publicação considerada prejudicial. Luiz Guilherme Atalla Camasmie registrou boletim de ocorrência sobre invasão e queda de perfis. A PF atribui essa ação digital à estrutura coordenada por Mourão.

Dinheiro também alcançaria sites, jornalistas e influenciadores

A frente informacional forma outro capítulo da investigação.

A Polícia Federal afirma que o jornalista Diego Escosteguy recebia recursos de Vorcaro para publicações alinhadas aos interesses do banqueiro. Em uma conversa, os investigadores relacionam o jornalista a valor de R$ 2 milhões.

O Diário do Centro do Mundo também aparece. Segundo a investigação, existia pagamento de R$ 50 mil mensais dentro de uma estratégia para reduzir matérias negativas ao Master e produzir conteúdos contra adversários.

Após a liquidação do banco, outra estrutura teria sido montada. O chamado Projeto DV buscaria influenciadores para questionar a atuação do Banco Central e construir uma narrativa favorável a Vorcaro. A agência Mithi, de Thiago Miranda, e a UNLTD, representada por André Salvador, aparecem na apuração. O vereador Rony Gabriel relatou ter sido abordado e informado sobre a identidade do cliente somente depois de assinar acordo de confidencialidade.

Rony não é apontado como integrante da estrutura. Ele aparece como pessoa procurada.

Cunhado de Vorcaro liga investigação a uma igreja da Lagoinha

Fabiano Zettel ocupa uma posição singular. Além de cunhado de Vorcaro e operador financeiro apontado pela PF, ele consta nos documentos como presidente da Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte.

Relatório do Coaf divulgado posteriormente acrescentou uma nova dimensão. A conta da igreja movimentou R$ 57,1 milhões em operações consideradas atípicas entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025. O faturamento anual presumido era de aproximadamente R$ 950 mil. Zettel realizou lançamentos que somaram R$ 19,2 milhões. Henrique Vorcaro e Felipe Mourão também aparecem como depositantes.

A Lagoinha Global, comandada por André Valadão, informou que as igrejas locais possuem autonomia financeira e afirmou desconhecer a dimensão das movimentações. O material analisado não atribui a Valadão participação no esquema investigado.

Zettel também havia adquirido visibilidade política antes do escândalo. Ele foi o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022, com R$ 3 milhões e R$ 2 milhões, respectivamente. Essas doações eram declaradas e, sozinhas, não representam ilegalidade.

Futebol entra na teia por dois caminhos

As 721 páginas anexadas não tratam diretamente da Pixbet ou do Atlético-MG. Porém, documentos policiais divulgados posteriormente abriram outro eixo.

Mensagens obtidas pela PF indicariam que Vorcaro seria o verdadeiro controlador da casa de apostas Pixbet, embora a empresa fosse formalmente atribuída a Ernildo Júnior. A suspeita aparece em diálogos que envolvem Marilson Roseno.

A Pixbet estampou sua marca em camisas e propriedades comerciais de clubes como Flamengo, Corinthians e Cruzeiro. Até o momento, não há elemento que autorize imputar irregularidade a esses clubes somente porque receberam patrocínio.

No Atlético-MG, a relação foi societária. Vorcaro investiu cerca de R$ 300 milhões e adquiriu aproximadamente 20,2% da SAF atleticana. Com a crise do Master, deixou o conselho. Posteriormente, sua participação foi diluída por novos aportes.

Portanto, a ramificação do futebol não significa que clubes tenham integrado as irregularidades. Ela mostra, contudo, até onde chegou a expansão patrimonial e comercial relacionada ao banqueiro.

Da Faria Lima ao Planalto

A teia também alcançou o centro do poder político.

Em dezembro de 2024, Vorcaro entrou no Palácio do Planalto para uma reunião com o presidente Lula. Guido Mantega havia solicitado o encontro. Rui Costa, Alexandre Silveira e Gabriel Galípolo também participaram. Naquele momento, a investigação formal sobre as carteiras vendidas ao BRB ainda não havia começado.

Lula posteriormente declarou que informou ao banqueiro que não haveria interferência política e que caberia ao Banco Central realizar análise técnica.

Mantega, entretanto, mantinha relação profissional com o Master. Sua consultoria recebeu cerca de R$ 14 milhões. Henrique Meirelles recebeu R$ 18,5 milhões por consultoria. O banco também declarou pagamentos a escritórios ligados ao ex-presidente Michel Temer e à família do ex-ministro Ricardo Lewandowski.

Esses pagamentos demonstram a extensão das relações profissionais do banco, mas não autorizam, isoladamente, classificar os contratados como participantes de irregularidades.

Congresso: de contratos a investigações criminais

No Legislativo, os casos possuem pesos diferentes.

O senador Ciro Nogueira aparece entre os vínculos mais sensíveis. A PF afirma que uma proposta apresentada por ele para ampliar a garantia do FGC havia sido produzida por assessores do próprio Master. O texto buscava elevar a proteção de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por investidor, medida especialmente importante para o modelo de captação do banco.

A investigação também aponta pagamentos mensais em benefício de Ciro, inicialmente de R$ 300 mil e posteriormente de R$ 500 mil. O senador nega qualquer conduta ilícita.

Hugo Motta aparece em mensagens nas quais pede a Vorcaro a liberação de empréstimo para empresa da cunhada. A operação foi de pelo menos R$ 22 milhões. A PF também encontrou registros de hospedagem do deputado em Lisboa custeada por Vorcaro.

Jaques Wagner tornou-se alvo de diligências posteriores. A investigação apura pagamentos associados a empresa de sua nora e um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões.

Davi Alcolumbre aparece de maneira indireta. Mensagem de Vorcaro menciona reunião na residência oficial do Senado, mas não nomeia o senador. Um antigo tesoureiro de campanha de Alcolumbre comandou a previdência do Amapá, que investiu quase R$ 400 milhões em títulos do Master.

Nikolas Ferreira aparece em outro grau. Áudios confirmados mostram o deputado pedindo ajuda de Vorcaro para uma questão envolvendo um conhecido. Não há, nos documentos consultados, evidência de pagamento ao parlamentar.

Dark Horse abriu uma nova frente

A relação de Vorcaro com o Congresso ganhou mais um capítulo por meio da produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro está sob investigação por sua atuação na captação de recursos. Documentos apontam negociações milionárias diretamente com Vorcaro. Eduardo Bolsonaro aparece ligado à administração de recursos enviados aos Estados Unidos.

Mário Frias surge em outra vertente. A PF investiga R$ 2 milhões em emendas destinadas a organização relacionada à produtora do filme. Os investigadores encontraram indícios de problemas na execução de projetos financiados por essas verbas.

Esse braço ainda possui conexões com emendas apresentadas por outros parlamentares, entre eles Carla Zambelli, Alexandre Ramagem, Marcos Pollon e Bia Kicis. Nesse caso, contudo, o elo é com entidades ligadas à produtora do filme, e não necessariamente diretamente com Vorcaro.

Alexandre de Moraes e a tentativa de alcançar o topo das instituições

Uma das partes que mais pressionou o Supremo surgiu após a análise das mensagens de Vorcaro.

Documentos da PF indicam múltiplos encontros e comunicações entre o banqueiro e Alexandre de Moraes. Fábio Faria teria intermediado a aproximação. Ao mesmo tempo, o Master celebrou contrato milionário com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

Em mensagens analisadas pela Polícia Federal, Vorcaro tenta acionar interlocutores para tratar de Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e do procurador-geral Paulo Gonet. Em outra passagem, pergunta se deveria sair do país.

A própria documentação, contudo, não comprova em todos os episódios que os pedidos feitos pelo banqueiro tenham resultado em providências concretas. Essa diferença separa tentativa de influência de favorecimento efetivamente demonstrado.

A rede não é uma lista única de culpados

A principal conclusão da análise não está apenas na quantidade de nomes.

Está no fato de que Daniel Vorcaro construiu relações em ambientes muito diferentes: mercado financeiro, Banco Central, política, advocacia, comunicação, religião, futebol e estruturas de segurança.

Algumas dessas relações, segundo a PF, integravam diretamente uma engrenagem criminosa. Outras são investigadas por corrupção, fraude ou lavagem. Há ainda relações comerciais, políticas ou institucionais que não apresentam, até agora, comprovação de ilegalidade.

Misturar todas elas seria reduzir a precisão de uma investigação que se tornou complexa justamente porque alcançou mundos diferentes.

O núcleo mais grave descrito nas 721 páginas permanece claro. A PF aponta Vorcaro como centro de um sistema que teria utilizado operadores financeiros, servidores públicos, policiais e especialistas em tecnologia para proteger negócios, obter informação privilegiada, pressionar adversários e controlar narrativas.

As ramificações descobertas posteriormente mostram outra dimensão: o poder de acesso construído pelo banqueiro.

Ele chegou ao gabinete presidencial, ao Congresso, a dirigentes públicos, ao entorno do Supremo, a consultores de diferentes governos, à estrutura de uma igreja, a grandes clubes de futebol e ao mercado de mídia.

É essa combinação entre dinheiro, proximidade institucional e capacidade operacional que transforma o caso Banco Master em algo muito maior que a liquidação de uma instituição financeira.

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