Ana Elisa (PT) faz autocrítica à esquerda, ataca Bolsonaro, o bolsonarismo e Nikolas Ferreira, mas admite que a direita acerta nas redes sociais

Candidata a deputada federal pelo PT reconheceu erros do próprio campo político, criticou a elitização de determinados discursos da esquerda, disse que a direita se comunica melhor nas redes e defendeu diálogo até com adversários ideológicos; ao mesmo tempo, manteve críticas duras ao bolsonarismo.

Publicado por: Redação

Candidata a deputada federal pelo PT, com base domiciliar em Divinópolis, digital influencer com viés político, e 1.8 milhão de seguidores, reconheceu erros do próprio campo político, criticou a elitização de determinados discursos da esquerda, disse que a direita se comunica melhor nas redes e defendeu diálogo até com adversários ideológicos; ao mesmo tempo, manteve críticas duras ao bolsonarismo – Aos 21 anos, e conhecida justamente pelos embates que trava com a direita nas redes sociais, Ana Elisa adotou um tom menos previsível durante entrevista ao Palanque Político Eleitoral Divinews, na noite desta terça-feira (18). Ao longo da conversa, a influenciadora fez uma autocrítica aberta ao próprio campo político, afirmou que “nós de esquerda em algum momento nos perdemos”, criticou o que considera uma elitização de determinados discursos progressistas e reconheceu que a direita possui vantagem em uma área que domina sua própria trajetória: a comunicação digital. O reconhecimento, no entanto, não significou aproximação ideológica. Na mesma entrevista, Ana Elisa fez críticas contundentes a Jair Bolsonaro, ao bolsonarismo e ao deputado Nikolas Ferreira, a quem chamou de “mentiroso” 

Um dos momentos mais marcantes ocorreu quando Ana Elisa foi questionada sobre a resistência que sua idade pode provocar entre eleitores mais velhos. Em vez de restringir a resposta à própria juventude, ela levou a discussão para dentro da esquerda e disse enxergar um processo de elitização em determinados discursos.

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“Eu acho que nós de esquerda em algum momento nos perdemos e eu falo isso com a maior clareza. Porque a gente começou a elitizar algumas coisas.”

A candidata argumentou que associar capacidade para ocupar cargos públicos exclusivamente à formação acadêmica pode reproduzir uma lógica que, segundo ela, contradiz princípios historicamente defendidos pela própria esquerda. “Quando a gente caracteriza cargo público à graduação, a gente começa a elitizar e começa a cair na nossa própria hipocrisia”, afirmou. Para Ana Elisa, representantes precisam compreender temas como fome, saúde pública, transporte, cultura e lazer, independentemente de possuírem formação universitária completa.

Foi além e advertiu que esse tipo de discurso pode, inclusive, ser utilizado politicamente pelos adversários. “Nós na verdade somos contra, teoricamente, mas estamos com esse discurso elitista. E isso é muito perigoso, porque é uma coisa que a direita pode utilizar contra nós também”, disse.

Frases contundentes de Ana Elisa

“Eu acho que nós de esquerda em algum momento nos perdemos.”

“Quando a gente caracteriza cargo público à graduação, a gente começa a elitizar e começa a cair na nossa própria hipocrisia.”

“A esquerda erra em quê?”
“Comunicação digital.”

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“Direita, certa em algumas coisas ou não?”
“Sim. Comunicação digital.”

Sobre Cleitinho Azevedo: “Hoje eu diria que surpreendente.”

“É muito triste nós termos que falar que a esquerda que está levantando essa pauta, “fim da escala 6×1”, que é uma pauta humanitária, é uma pauta cidadã, não é uma pauta de esquerda.”

Direita leva vantagem na comunicação, admite candidata

O reconhecimento mais direto de um acerto da direita apareceu no pingue-pongue. Questionada sobre onde a esquerda erra, Ana Elisa respondeu sem hesitação: “Comunicação digital.” Na sequência, ao ser perguntada se a direita estaria certa em alguma coisa, respondeu “sim” e voltou exatamente ao mesmo ponto: “comunicação digital”.

A declaração ganha peso porque Ana Elisa construiu sua projeção política justamente nas redes sociais. Durante a entrevista, ela afirmou possuir cerca de 1,8 milhão de seguidores, embora reconheça que essa audiência não significa automaticamente votos. Segundo a candidata, São Paulo representa atualmente sua maior base de seguidores, enquanto Minas Gerais aparece na segunda posição.

No encerramento, voltou ao tema e afirmou que a extrema direita tem vantagem nas plataformas digitais. Para ela, a esquerda não pode mais se limitar à disputa eleitoral tradicional e precisa disputar também a formação de opinião nas redes. “A gente precisa ganhar nas redes sociais também”, declarou.

Cleitinho é definido como “surpreendente”

Outro momento que fugiu de uma divisão automática entre esquerda e direita ocorreu quando Ana Elisa foi provocada a definir o senador Cleitinho Azevedo. A resposta escolhida foi “surpreendente”. Ao justificar, a candidata afirmou que algumas posições do senador contrariam aquilo que ela própria esperaria de um político identificado com a direita. Usou como exemplo a escala 6×1.

“Tudo que a gente espera dele é o contrário. A gente espera assim: ‘Ah, não vai defender aquela escala seis por um’. Defende. Então, acho que ele é surpreendente”, afirmou. Ana Elisa concluiu dizendo que Cleitinho seria alguém que mantém a população “na expectativa”.

A observação, entretanto, não significou uma mudança de campo político. Em outros momentos da entrevista, a candidata reafirmou sua identidade de esquerda e sua proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem classificou como seu padrinho político e um dos grandes estadistas da história brasileira.

Crítica à esquerda não significou trégua ao bolsonarismo

Se houve autocrítica e reconhecimento pontual de eficiência da direita, Ana Elisa manteve uma linha bastante dura quando o assunto foi Jair Bolsonaro e o bolsonarismo. No pingue-pongue, classificou Bolsonaro e principalmente o movimento político associado ao ex-presidente em termos extremamente negativos, chegando a afirmar que o bolsonarismo seria “a externalização do pior” existente no ser humano. Ao ser questionada sobre Nikolas Ferreira, respondeu apenas: “Mentiroso.”

A entrevista expôs uma distinção importante no posicionamento da candidata: Ana Elisa reconhece eficiência política da direita em determinadas ferramentas, especialmente nas redes sociais, sem demonstrar aproximação com o bolsonarismo ou abandonar sua identidade progressista.

Diálogo com a direita no Congresso

Ana Elisa também foi questionada sobre como conciliaria os enfrentamentos protagonizados nas redes sociais com a realidade de uma Câmara dos Deputados composta por parlamentares de diferentes correntes ideológicas. “Eu sempre estive aberta ao debate político com a direita”, respondeu.

Segundo ela, a crítica faz parte da democracia, mas a atuação parlamentar exigirá diálogo e negociação. A candidata admitiu que um eventual mandato demandaria conversas até mesmo com pessoas com quem possui profundas divergências políticas. “Dentro de todo e qualquer processo democrático, é feito acordos, é feito conversas. A gente precisa fazer, muitas das vezes, conversas com pessoas desagradáveis. Mas que a gente precisa fazer de fato para que o bem maior seja preservado”, afirmou.

Ana Elisa citou o debate sobre o fim da escala 6×1 e voltou a criticar a maneira como pautas sociais acabam apropriadas por campos ideológicos. Para ela, a redução da jornada não deveria ser tratada como bandeira exclusiva da esquerda, mas como questão social mais ampla.

Primeira bandeira: cobrança maior das mineradoras

Ao sair do campo ideológico e ser questionada sobre uma proposta concreta para eventual mandato, Ana Elisa apontou a relação entre mineração e compensação financeira para Minas Gerais. A candidata disse que pretende defender mecanismos que ampliem o retorno econômico da atividade mineral ao Estado, argumentando que as mineradoras exploram riquezas mineiras em grande escala sem, em sua avaliação, produzir compensação proporcional para a população.

“A primeira coisa que eu quero fazer é de fato a questão da compensação das mineradoras”, declarou. Segundo Ana Elisa, parte dos recursos poderia ajudar a financiar políticas públicas e devolver à população benefícios derivados da exploração mineral realizada no território mineiro.

Redes sociais, fake news e divergência dentro da própria esquerda

Outra manifestação de independência ocorreu na discussão sobre regulação das plataformas digitais. Ana Elisa afirmou que segue, em suas palavras, “um pouco na contramão” de posições atribuídas a setores da esquerda que defendem medidas mais duras contra determinadas plataformas. “Eu não sou a favor”, declarou ao falar da possibilidade de derrubar redes sociais. Para ela, o caminho deve ser fiscalização, responsabilização pela disseminação de informações falsas e proteção de crianças e adolescentes, sem transformar regulação em censura.

Nesse ponto, novamente a candidata procurou estabelecer uma fronteira entre sua identidade política e uma adesão automática a todas as posições associadas ao seu campo ideológico.

21 anos, 1,8 milhão de seguidores e primeira disputa eleitoral

Ana Elisa chega à primeira eleição aos 21 anos. Na entrevista, contou que sua formação política começou ainda dentro de casa, especialmente pela influência da mãe, professora concursada e sindicalizada, e pela convivência com movimentos de professores e organizações sociais. A candidata reconheceu não possuir experiência anterior em mandato eletivo e afirmou que pretende compensar essa ausência por meio de equipe técnica, diálogo com movimentos sociais e escuta da sociedade civil.

“Eu não sei tudo e nem todo mundo sabe tudo, independentemente da idade”, declarou. Segundo ela, reconhecer as próprias limitações é parte necessária da construção de um eventual mandato. Ao final da entrevista, Ana Elisa afirmou que pretende apresentar nas próximas semanas uma plenária virtual com o conjunto de propostas de sua candidatura

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