A construção da candidatura do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) ao Governo de Minas transformou-se, em poucos dias, em um dos episódios mais emblemáticos da sucessão estadual. Entre sucessivos adiamentos, o luto pela morte do irmão Matheus Azevedo, uma nota oficial que colocou sua pré-candidatura em xeque e uma reaproximação com a direção nacional do partido, o cenário político mineiro passou por uma reviravolta que ainda aguarda um desfecho definitivo, que o presidente Euclydes Pettersen em entrevista à Veja, sinalizou como positivo para o divinopolitano.
A indefinição em torno da candidatura de Cleitinho começou ainda durante a Copa do Mundo. Inicialmente, o senador afirmou que anunciaria sua decisão somente após o encerramento da competição. Mesmo com a eliminação da Seleção Brasileira antes da final, manteve o compromisso de aguardar o término do torneio. Encerrada a Copa, em 19 de julho, uma nova data foi estabelecida: o dia 5 de agosto, prazo final das convenções partidárias e limite previsto no calendário eleitoral para definição das candidaturas.
Nesse intervalo, entretanto, um fato mudou completamente o ambiente político. A família Azevedo enfrentou a morte de Matheus Azevedo, irmão caçula do senador, vítima de leucemia. O episódio levou Cleitinho a se afastar das atividades políticas e a não comparecer à convenção estadual do Republicanos, realizada em 25 de julho, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
O discurso de compreensão na convenção
Na própria convenção, o presidente estadual do Republicanos, deputado federal Euclydes Pettersen, demonstrou total compreensão em relação à ausência do senador. Em discurso aos convencionais, Pettersen afirmou que entendia o momento vivido pela família e relembrou a perda do próprio pai para explicar o comportamento de Cleitinho.
“O Cleitinho está vivendo um momento de luto, não é fácil. (…) Eu entendo perfeitamente o momento que a família está vivendo. (…) O que ele decidir será decidido e vai ser acatado aqui por este partido, pelo diretório, sem pressão, sem nada. Respeitamos não só ele, mas toda a família.”
Naquele momento, a mensagem transmitida ao partido e aos aliados era de que o Republicanos aguardaria a decisão pessoal do senador, respeitando o período de luto.
Nota que mudou completamente o cenário
Quatro dias depois, porém, o cenário mudou radicalmente. Na manhã de 29 de julho, as executivas estadual e nacional do Republicanos divulgaram uma nota oficial afirmando que Cleitinho jamais havia assumido formalmente a candidatura ao Governo de Minas e sustentando que os sucessivos adiamentos inviabilizaram a construção do projeto político. Isso ocorreu após o senador ter divulgado um vídeo, que se tornou pano de fundo para o descontentamento dos dirigentes da legenda.
O documento afirmou que o partido aguardou durante meses uma definição do senador, ofereceu condições políticas para a disputa e atraiu partidos aliados, mas concluiu que “uma candidatura exige, antes de tudo, a decisão firme de quem pretende disputá-la” e que esse compromisso “nunca aconteceu”.
Na prática, a manifestação foi interpretada como um recuo da legenda em relação ao projeto liderado por Cleitinho, colocando sua candidatura em situação de incerteza.
Reação de Cleitinho
Horas depois da divulgação da nota, Cleitinho convocou uma entrevista coletiva em Divinópolis.
Ao lado do ex-prefeito de Patos de Minas, Luís Eduardo Falcão, escolhido por ele como companheiro de chapa, o senador declarou publicamente que era candidato ao Governo de Minas e reafirmou que jamais havia desistido da disputa. Entretanto, embora tivesse manifestado sua vontade política, sua candidatura permanecia dependente da homologação do Republicanos, já que, juridicamente, apenas o partido pode oficializar seu nome perante a Justiça Eleitoral.
Reunião termina sem definição
Na quinta-feira (30 de julho), Cleitinho e Falcão viajaram para uma reunião com o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira. O encontro durou mais de cinco horas.
Segundo informações repassadas por fontes próximas às negociações, nenhuma definição foi alcançada ao término da reunião, mantendo o impasse entre o senador e a direção nacional da legenda.
Novo encontro e mudança de discurso
Na sequência das articulações, nesta sexta-feira (31) Cleitinho voltou a reunir-se, desta vez em Divinópolis, com o presidente estadual do Republicanos, Euclydes Pettersen. Horas depois, em entrevista concedida à revista Veja, Pettersen sinalizou uma mudança significativa de postura em relação à nota divulgada anteriormente.
O dirigente afirmou que a candidatura de Cleitinho não estava descartada e explicou que o partido buscava reconstruir um entendimento interno com a Executiva Nacional. Ao comentar o momento vivido pelo senador, voltou a associar os adiamentos ao período de luto enfrentado pela família.
Segundo Pettersen, o Republicanos procura agora encontrar um caminho que permita conciliar a intenção de Cleitinho de disputar o Governo de Minas com os interesses de outros projetos políticos que permaneceram em compasso de espera durante os últimos meses.
Na mesma entrevista, o presidente estadual ressaltou que nomes como Marcelo Aro e o próprio PL haviam estruturado alternativas caso Cleitinho não confirmasse sua candidatura, razão pela qual o partido tenta construir uma solução que preserve também esses projetos políticos.
O relógio continua correndo
A sucessão de acontecimentos demonstra como o cenário político mineiro sofreu alterações em poucos dias. Entre o discurso de apoio irrestrito feito durante a convenção estadual, a divulgação de uma nota oficial praticamente retirando Cleitinho da disputa e a retomada das negociações com a Executiva Nacional, o Republicanos passou a buscar um novo entendimento para uma candidatura que continua dependendo de uma decisão interna da legenda.
Com o prazo das convenções se aproximando do fim, as conversas permanecem abertas e o desfecho do impasse deverá definir não apenas o futuro político de Cleitinho Azevedo, mas também o desenho das alianças da direita na eleição para o Governo de Minas.






