Gleide Andrade criticou duramente a aprovação da reforma da Previdência Municipal de Divinópolis e classificou o processo como um exemplo de como não se deve fazer política. A manifestação ocorreu após a Câmara aprovar o projeto do Diviprev por 11 votos a 5, em sessão marcada por tensão, protestos de servidores e forte desgaste entre o funcionalismo, a Prefeitura e parte do Legislativo.
No conteúdo Gleide afirmou que “escandaloso é o mínimo que se pode dizer sobre a aprovação da reforma da Previdência em Divinópolis votada ontem”. Para ela, a condução da proposta mostrou “exatamente o oposto de como se deve conduzir um processo de tamanha responsabilidade”.
Crítica direta ao Executivo
Gleide Andrade atribuiu ao Poder Executivo a responsabilidade pelo que classificou como atropelo no debate. Segundo ela, o projeto foi aprovado “a toque de caixa” e atinge diretamente o futuro de milhares de servidores ativos, aposentados e pensionistas.
A reforma do Diviprev foi aprovada pela Câmara de Divinópolis por 11 votos a 5 e seguiu para sanção em meio à continuidade da greve dos servidores municipais. O texto mexe em regras previdenciárias e se tornou o principal foco de conflito político da semana.
Na avaliação de Gleide, uma proposta com esse impacto deveria ter sido discutida com mais tempo, transparência e escuta. “Como se esses servidores não tivessem vida, família e, sobretudo, uma dedicação ao bem do serviço público na cidade”, afirmou.
Vitor Costa é citado como destaque da oposição
A fala também elogiou os vereadores que votaram contra o projeto. Gleide Andrade afirmou que esses parlamentares tiveram coragem de se posicionar contra o Executivo e fez menção especial ao vereador Vitor Costa.
Segundo ela, Vitor “lutou e liderou até o fim”, além de apresentar emendas para tentar reduzir danos aos trabalhadores. As propostas, no entanto, foram rejeitadas pela maioria dos vereadores.
O posicionamento se conecta ao ambiente de forte divisão política na Câmara. Após a votação, o vereador Vitor Costa também passou a criticar publicamente a condução da reforma e apontou desgaste entre o grupo político de Gleidson Azevedo e a atual gestão municipal, comandada por Janete Aparecida. A fala dele sobre a crise política foi registrada em matéria do Divinews sobre rompimento entre Gleidson e Janete.
O silêncio sobre Gleidson
Apesar da contundência da crítica, Gleide Andrade não mencionou nominalmente o ex-prefeito Gleidson Azevedo. A ausência chama atenção porque a situação atual do Diviprev não começou apenas com a votação do novo projeto. Ela também se conecta a decisões anteriores tomadas pelo Município, inclusive durante a gestão de Gleidson.
Esse ponto não diminui a crítica feita por Gleide à atual condução política da reforma. No entanto, amplia o debate. Ao responsabilizar o Executivo de forma ampla, mas sem citar o ex-prefeito, a manifestação deixa fora do centro da cobrança um personagem que também participou da construção do cenário previdenciário enfrentado hoje por servidores, aposentados e pensionistas.
Em dezembro de 2024, Gleidson Azevedo sancionou mudança no Plano de Custeio Suplementar do Diviprev que elevou a dívida da Prefeitura com o instituto em R$ 475,1 milhões. A alteração foi criticada pelo Dieese como “casuísta” e “irresponsável”, segundo a publicação.
Diviprev tem histórico que antecede Janete
A crise previdenciária em Divinópolis, portanto, não pode ser analisada apenas pelo episódio mais recente. A aprovação do PLC 008/2026 abriu um novo capítulo, mas o desequilíbrio do Diviprev, a forma de custeio e as escolhas políticas anteriores formam uma sequência de decisões que atravessa gestões.
A mudança feita em 2024 permitiu que Gleidson deixasse de pagar R$ 64,5 milhões em aportes nos anos de 2025 e 2026. Ao mesmo tempo, o prazo para equacionamento do déficit atuarial foi ampliado de 2050 para 2058, o que fez a dívida projetada saltar de R$ 3,5 bilhões para R$ 4 bilhões.
Dessa forma, quando a crítica política mira apenas a atual gestão, parte da memória administrativa fica fora do debate. A Prefeitura de Janete Aparecida conduziu a reforma aprovada agora, mas a situação do instituto também foi afetada por medidas anteriores, inclusive aquelas tomadas no governo Gleidson.
Ultimato da Prefeitura também é criticado
Gleide Andrade também condenou a notificação extrajudicial enviada pela Prefeitura ao SINTRAM e ao SINTEMD, que deu prazo de 24 horas para o encerramento da greve e retorno integral dos servidores às atividades.
A Prefeitura sustentou que, com a aprovação do projeto, a greve teria perdido o objeto. O Município também informou que poderia acionar a Justiça para pedir declaração de ilegalidade do movimento, com multa diária e outras medidas cabíveis. A medida foi registrada em matéria do Divinews sobre a notificação aos sindicatos.
Para Gleide, a atitude da Prefeitura foi autoritária. “Gente, o debate não vai se encerrar no grito. É preciso dizer ao Poder Executivo que o direito de greve é um direito constitucional e esse direito não se tira no peito”, afirmou.
Direito de greve e cobrança por diálogo
A manifestação de Gleide Andrade também defende o direito de greve dos servidores municipais. Ela afirmou que a crise não será resolvida por imposição, mas por diálogo, escuta e negociação.
“Não é assim que vai resolver os problemas. A luta em defesa dos servidores continua e o melhor caminho vai ser sempre o caminho do diálogo, o caminho da escuta e não o caminho da imposição. Ganhar no grito? Aqui não”, declarou.
A greve dos servidores foi aprovada pelas categorias antes da votação do projeto e teve como uma das principais reivindicações a retirada ou rediscussão do PLC 008/2026.
Atritos antigos com servidores também pesam na memória
O histórico entre Gleidson Azevedo e servidores municipais também registrou momentos de tensão pública. Em 2021, o Estado de Minas publicou reportagem sobre um bate-boca entre o então prefeito e um sindicalista durante manifestação na porta da Prefeitura. Na ocasião, a frase atribuída a Gleidson foi: “Vai trabalhar, vagabundo”.
Esse episódio não é o centro da fala de Gleide, mas ajuda a mostrar que a relação entre poder público e funcionalismo em Divinópolis já vinha marcada por conflitos antes da gestão atual. Por isso, qualquer análise sobre o Diviprev e o tratamento dado aos servidores precisa considerar um quadro mais amplo, que não começou nem terminou na votação desta semana.
Crítica forte, mas memória incompleta
A crítica de Gleide Andrade tem peso político e encontra eco entre servidores que se sentiram atingidos pela aprovação da reforma. Ela aponta falta de escuta, imposição do Executivo, rejeição de emendas e tentativa de encerrar a greve por pressão administrativa.
Ainda assim, ao não mencionar Gleidson Azevedo, a manifestação deixa uma lacuna relevante. O ex-prefeito não aparece como parte da responsabilização, embora sua gestão tenha sancionado mudanças no custeio do Diviprev que, segundo reportagem baseada em análise técnica, ampliaram significativamente a dívida do Município com o instituto.
A discussão sobre a Previdência Municipal exige olhar completo. A atual gestão responde pela reforma aprovada agora. A Câmara responde pelos votos dados em plenário. Os vereadores que rejeitaram emendas também entram na conta política. Mas os gestores anteriores, especialmente aqueles que tomaram decisões com impacto financeiro sobre o Diviprev, também precisam ser lembrados.
No fim, a pergunta que fica é simples: se a defesa dos servidores é o centro do debate, a cobrança deve alcançar apenas o governo do momento ou todos os que ajudaram a construir a crise?






