A democracia brasileira tem um rosto que, muitas vezes, passa despercebido. Ele é feminino. As mulheres representam a maior parcela do eleitorado do país, comparecem às urnas em grande número, participam das decisões políticas e exercem papel fundamental na construção da democracia. Entretanto, quando o assunto deixa de ser votar e passa a ser ocupar uma cadeira no Legislativo ou assumir cargos de comando no Executivo, a realidade ainda revela um cenário marcado pela desigualdade de representação.
Embora a presença feminina na política tenha avançado nas últimas décadas, os números mostram que esse crescimento ainda acontece em ritmo inferior ao da participação das mulheres como eleitoras. O resultado é um contraste que chama a atenção: elas ajudam a escolher prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores e presidentes, mas continuam sendo minoria entre aqueles que ocupam esses cargos.
O tema voltou ao centro do debate nacional na sexta-feira (3), quando reportagens exibidas por veículos de comunicação reacenderam a discussão sobre a participação feminina na política e os obstáculos enfrentados por milhares de brasileiras que decidem disputar espaços de poder.
Mais do que uma discussão sobre estatísticas, o assunto envolve representatividade, diversidade de ideias e fortalecimento da própria democracia.
Uma maioria nas urnas, mas uma minoria nos espaços de decisão
As mulheres representam a maior parte do eleitorado brasileiro e mantêm participação expressiva nas eleições. Apesar disso, essa presença ainda não se reflete na composição dos parlamentos e dos governos.
Especialistas em ciência política afirmam que uma democracia se fortalece quando seus espaços de decisão refletem a diversidade da população. Afinal, diferentes experiências de vida contribuem para a formulação de políticas públicas mais abrangentes e capazes de atender às necessidades de toda a sociedade.
Ao longo dos anos, o Brasil registrou avanços importantes, como a criação de cotas para candidaturas femininas e regras voltadas ao incentivo da participação das mulheres nas disputas eleitorais. Mesmo assim, desafios estruturais continuam limitando o crescimento da representatividade.
Barreiras surgem antes mesmo do período eleitoral
Os desafios enfrentados pelas mulheres começam muito antes das campanhas.
Em muitos casos, eles aparecem dentro da própria família, no ambiente profissional e até entre pessoas próximas.
Ainda hoje, mulheres interessadas em ingressar na política costumam ouvir questionamentos sobre como irão conciliar a vida pública com a maternidade, os cuidados com a família ou a administração da casa. Perguntas semelhantes raramente são direcionadas aos homens.
Além da dupla ou até tripla jornada de trabalho, muitas brasileiras precisam dividir seu tempo entre profissão, filhos, estudos, responsabilidades domésticas e atividades políticas.
Especialistas apontam que esse conjunto de fatores reduz o tempo disponível para a construção de carreiras políticas e acaba dificultando o acesso a cargos eletivos.
Violência política de gênero ainda preocupa
Outro desafio que ganhou destaque nos últimos anos é a violência política de gênero.
Ela não se resume às agressões físicas ou ameaças explícitas. Em muitos casos, manifesta-se por meio de ataques nas redes sociais, comentários ofensivos sobre aparência, interrupções durante discursos, tentativas de desqualificar a capacidade intelectual das mulheres e campanhas de desinformação.
Há ainda relatos frequentes de intimidação, constrangimentos e tentativas de silenciamento de mulheres que ocupam cargos públicos ou disputam eleições.
Para enfrentar esse problema, o Brasil passou a reconhecer legalmente a violência política de gênero, criando instrumentos para combater práticas que buscam impedir ou dificultar a participação feminina na vida pública.
Mulheres transformaram a história da política brasileira
Apesar das dificuldades, inúmeras mulheres deixaram marcas importantes na história política do Brasil.
Entre elas está Carlota Pereira de Queirós, primeira deputada federal eleita no país, que abriu caminho para futuras gerações.
Décadas depois, lideranças como Benedita da Silva, Luiza Erundina, Marina Silva, Dilma Rousseff — primeira mulher eleita presidente da República — e Simone Tebet ampliaram o protagonismo feminino em diferentes áreas da administração pública e do Congresso Nacional.
Outras lideranças também ocupam posições de destaque na política brasileira, como Damares Alves, Tereza Cristina, Soraya Thronicke, Tabata Amaral e Erika Hilton. Apesar de defenderem ideias distintas e pertencerem a correntes políticas diferentes, todas contribuíram para ampliar a presença das mulheres no debate público e inspirar novas gerações.
No cenário internacional, nomes como Angela Merkel, ex-chanceler da Alemanha, Jacinda Ardern, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, e Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, demonstraram que a liderança feminina pode conduzir governos em diferentes contextos econômicos e sociais.
Minas Gerais e Divinópolis acompanham o avanço da participação feminina
Em Minas Gerais, a presença das mulheres na política também cresce gradualmente. Embora a igualdade de representação ainda esteja distante, cada vez mais lideranças femininas ocupam cargos estratégicos nos poderes Executivo e Legislativo.
Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a deputada estadual Lohanna França representa a região Centro-Oeste e atua em pautas relacionadas ao desenvolvimento regional, educação, saúde e direitos sociais.
Em Divinópolis, o protagonismo feminino pode ser observado em diferentes espaços da vida pública. À frente do Poder Executivo, a prefeita Janete Aparecida integra o grupo de mulheres que conquistaram espaço na administração municipal, exercendo uma função historicamente ocupada por homens.
No Legislativo, a vereadora Kell Silva participa da elaboração de projetos, da fiscalização das ações do Executivo e das discussões sobre políticas públicas voltadas ao município. Também integra a Câmara Municipal a vereadora Ana Paula do Quintino, que contribui para os debates legislativos e para a construção de políticas públicas em diferentes áreas de interesse da população.
Outra divinopolitana que alcançou projeção nacional é Gleide Andrade. Filósofa e dirigente partidária, ela integra a Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) e exerce a função de secretária nacional de Planejamento e Finanças da legenda. Sua atuação demonstra que mulheres da região também vêm conquistando espaço em instâncias nacionais de articulação política.
Independentemente das diferentes correntes partidárias ou ideológicas, esses exemplos mostram que a presença feminina na política mineira e divinopolitana continua avançando. Embora os desafios ainda existam, cada nova liderança contribui para ampliar a representatividade feminina e fortalecer a democracia por meio da diversidade de experiências e perspectivas.
Mais mulheres na política significam uma democracia mais representativa
Especialistas destacam que ampliar a participação feminina não significa reduzir o espaço dos homens. O objetivo é garantir que os órgãos de decisão reflitam melhor a composição da sociedade brasileira.
Quando mulheres participam da elaboração de políticas públicas, experiências diferentes passam a integrar o debate. Temas como saúde, educação, assistência social, segurança, mobilidade urbana, empreendedorismo, infância, envelhecimento e combate à violência ganham novas perspectivas, enriquecendo a construção das decisões coletivas.
Além disso, a presença feminina inspira novas gerações. Meninas e jovens passam a enxergar que também podem disputar eleições, ocupar cargos públicos e contribuir diretamente para a construção do futuro de suas comunidades.
Uma democracia mais forte depende da diversidade
A história demonstra que a democracia evolui quando amplia oportunidades e reduz barreiras.
As mulheres já provaram sua capacidade nas universidades, nas empresas, no empreendedorismo, na administração pública, na ciência e em inúmeras outras áreas da sociedade. Ainda assim, muitas continuam enfrentando obstáculos que nem sempre aparecem nas estatísticas.
Mais do que aumentar o número de mulheres eleitas, fortalecer a participação feminina significa ampliar o diálogo, diversificar ideias e construir políticas públicas mais conectadas com a realidade da população.
Enquanto houver barreiras que dificultem o acesso das mulheres aos espaços de decisão, o debate continuará necessário. Afinal, uma democracia forte não depende apenas da participação da maioria nas urnas, mas também da diversidade de vozes presentes nos locais onde as decisões são tomadas.






