Lula foi ao povo em Divinópolis; já parte dos deputados preferiu gravitar ao redor do presidente e esqueceu os eleitores

Em Divinópolis, Lula demonstrou conexão popular durante a inauguração do Hospital Universitário, enquanto parte da comitiva parlamentar e da estrutura de segurança deixou a impressão de distanciamento, soberba e falta de leitura política

Publicado por: Geraldo Passos

Há momentos, e não é para qualquer um, tem que ter um olhar mais aguçado e apurado para enxergar além do que se está a olho nú,  além do óbvio.  Não por falta de elementos, mas pelo excesso deles  que está escancarado. A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Divinópolis, durante a inauguração do Hospital Universitário da UFSJ, produziu uma daquelas cenas em que se torna difícil concluir, com precisão, o que se passa na cabeça de certos políticos, principalmente os que precisam de votos para se eleger ou se reeleger.

Seria desligamento? Apatia? Falta de discernimento? Amadorismo? Ou apenas aquele velho pouco caso político-eleitoral que aparece quando parlamentares acreditam que basta estar perto do presidente para herdar sua popularidade, seu carisma e sua leitura de povo? Ou ficam tão enebriados que só enxergam Lula e não os prospects eleitores?

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Não se pode afirmar com certeza. Mas uma coisa ficou evidente: enquanto Lula foi para a galera, para os braços do povo, fez contato, tocou na pele, tirou selfie, deixando a segurança em pânico, grande parte de sua comitiva parlamentar passou ao largo do público.

O contraste foi gritante.

O presidente, mesmo sob forte aparato de segurança, mesmo com agenda apertada, mesmo após atraso e desgaste físico, demonstrou aquilo que explica por que ele é Lula. Ele fareja o povo. Ele entende o aceno, o grito, o olhar, a mão estendida, a expectativa de quem ficou horas esperando apenas para vê-lo passar. Lula compreende a cena política antes mesmo que a cena esteja montada.

Já alguns dos políticos que o acompanhavam pareciam viver outra realidade, estavam no mundo da lua. Agarraram-se ao entorno presidencial como se o simples fato de aparecer ao lado de Lula, no mesmo espaço, na mesma foto ou no mesmo palco, fosse suficiente para transferir votos, legitimidade e reconhecimento popular. Não é.

“Indelicadamente” não podemos deixar de citar alguns nomes. Entre os parlamentares presentes estavam nomes como Rogério Correia, Reginaldo Lopes, Macaé Evaristo, Cristiano Silveira, entre outros. Alguns concederam uma ou outra rápida entrevista. Mas, no conjunto da cena, a percepção de parte da imprensa local foi de distância, frieza e pouca disposição para dialogar com quem estava ali trabalhando e registrando um momento histórico para Divinópolis, a imprensa, principalmene a local.

E aqui está o ponto.

Parte desses atores políticos parece existir apenas por gravidade. Não gravidade no sentido de peso histórico, densidade eleitoral ou liderança popular. Mas gravidade física mesmo: orbitam Lula. Ficam ao redor dele. Aproximam-se do núcleo quente do poder e acreditam que isso basta. O problema é que a política real não funciona assim.

Lula não se tornou presidente por ficar escondido atrás de alguém. Lula construiu sua própria linguagem. Criou sua presença. Aprendeu a decifrar o povo. Acertou, errou, caiu, voltou, mas sempre soube onde estava a energia da rua. Em Divinópolis, isso ficou novamente claro. Enquanto alguns pareciam preocupados em garantir lugar na sombra do presidente, Lula buscava contato, aceno, povo, imagem, calor humano e narrativa.

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Não é à toa que ele é o presidente

A visita de Lula a Divinópolis foi incontestavelmente importante. A inauguração do Hospital Universitário da UFSJ em Divinópolis marcou a entrega de uma estrutura estratégica para a saúde pública, para a formação profissional e para o atendimento regional pelo SUS. A própria comunicação oficial do Governo Federal destacou que o HU-UFSJ beneficiará mais de 1,3 milhão de habitantes de 54 municípios e que o evento também incluiu anúncio de obras viárias para o Centro-Oeste de Minas.

O Governo Federal também apresentou a unidade como o primeiro hospital 100% SUS do Centro-Oeste mineiro, vinculado à Rede HU Brasil, com papel voltado à assistência, ao ensino e à pesquisa. Esse dado por si só bastaria para fazer da agenda um marco institucional.

Além disso, o Ministério da Saúde informou investimentos de R$ 476 milhões para ampliar o atendimento especializado e reforçar a rede SUS em Minas Gerais, dentro de um pacote que incluiu o novo Hospital Universitário em Divinópolis, hospital oncológico 100% SUS, cirurgia robótica e ações de transporte de pacientes. Ou seja: havia entrega, havia agenda, havia conteúdo, havia história e havia povo.

O que faltou, em parte da comitiva, foi leitura política

E leitura política não se aprende apenas em gabinete. Não se aprende apenas em reunião de partido. Não se aprende apenas repetindo discurso pronto sobre democracia, SUS, educação pública e povo trabalhador. Leitura política se revela quando o político desce do palanque invisível que carrega dentro de si e consegue olhar para quem está fora da cerca.

Alguns não olharam

Membros da imprensa, entre eles o próprio Divinews, reclamaram do distanciamento de parlamentares que, em tese, deveriam entender o valor de falar com a mídia regional. Não se tratava de buscar bajulação, nem de forçar entrevista. Tratava-se de reconhecer que a imprensa local é quem acompanha a cidade quando os holofotes nacionais vão embora.

É a imprensa local que cobre a obra parada, a promessa quebrada, a fila do SUS, a ambulância que falta, a escola com problema, a estrada ruim, a audiência pública esvaziada, a dor da família, a cobrança da comunidade. Mas, no dia em que o presidente chega, alguns políticos tratam essa mesma imprensa como cenário. Depois reclamam que não conseguem chegar ao povo.

O episódio mais simbólico talvez tenha ocorrido fora do microfone oficial. O Divinews ouviu de um representante da UEMG que uma pessoa ligada à poetisa Adélia Prado queria entregar um livro dela ao presidente Lula. A segurança barrou. O caso, se observado apenas como protocolo, pode parecer pequeno. Mas politicamente foi um erro daqueles que revelam uma cegueira assustadora.

Adélia Prado não é uma escritora qualquer em Divinópolis. É uma das maiores referências culturais da cidade, poeta reconhecida nacionalmente, vencedora do Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e apontada pela própria ABL como uma das maiores poetisas vivas do Brasil.

Receber um livro de Adélia Prado, em Divinópolis, seria mais do que um gesto literário. Seria um ato simbólico de inteligência política. Seria Lula, em solo divinopolitano, recebendo a cidade pela palavra de sua maior poeta. Seria cultura, memória, afeto, território e comunicação política em uma imagem só.

Mas a segurança miope não ouviu

E quando a segurança não ouve, quando o cerimonial não percebe, quando a equipe precursora atua como se todo gesto espontâneo fosse ameaça e toda aproximação fosse problema, a política perde. O presidente perde. A cidade perde. A narrativa perde.

É claro que segurança presidencial é assunto sério. Ninguém minimiza protocolo, risco, controle de acesso ou responsabilidade institucional. Mas há uma diferença enorme entre segurança e truculência. Entre organização e insensibilidade. Entre proteção e ignorância política.

Em Divinópolis, a desorganização do cerimonial e a postura quase truculenta de parte da equipe precursora de segurança chamaram atenção. A sensação, para muitos que acompanharam a agenda de perto, foi de um aparato pouco treinado para lidar com a simbologia local, com a imprensa regional e com gestos que poderiam fortalecer o próprio presidente.

Pareciam viver no mundo da lua

E o mais curioso é que Lula, no meio de tudo isso, fez o oposto. Enquanto estruturas ao redor dificultavam, ele simplificava. Enquanto a engrenagem institucional criava barreiras, ele tentava produzir contato. Enquanto auxiliares e parlamentares pareciam satisfeitos em circular no cercadinho do poder, Lula buscava a galera. Essa é a diferença entre liderança e satélite.

Liderança sente o ambiente. Satélite apenas gira

A soberba do PT quando está no poder é um capítulo à parte. Não de todos, obviamente. Há quadros sérios, militantes comprometidos, gestores qualificados e lideranças com história. Mas existe uma camada de poder que, quando se aproxima do Palácio, parece esquecer a rua, a base, a imprensa local e o eleitor concreto.

É uma soberba espantosa

Não se sabe o que será do PT quando Lula não estiver mais no centro da cena. A pergunta é incômoda, mas inevitável. Porque, se depender da postura vista em parte da comitiva, o partido terá dificuldade para produzir outro líder com a mesma capacidade de comunicação popular, intuição política e conexão emocional.

Líder como Lula não aparece toda hora. Isso é consenso até entre adversários. O problema é que muitos dos que vivem ao seu redor parecem não aprender com ele. Apenas se beneficiam de sua presença.

Em Divinópolis, a cena foi pedagógica

Lula chegou para entregar um hospital, anunciar investimentos, falar ao povo, acenar para militantes, ouvir demandas e até sinalizar compromisso com a ampliação da universidade federal caso a Prefeitura viabilize a área necessária. O presidente compreendeu que aquele ato não era apenas burocrático. Era histórico, afetivo, regional e eleitoral. Parte dos seus acompanhantes, não.

E quando políticos passam ao largo do público em uma agenda desse tamanho, eles mandam uma mensagem. Talvez sem perceber, dizem que o povo é plateia, não interlocutor. Que a imprensa regional é detalhe, não ponte. Que o presidente basta, não o território. Que a foto importa mais que o diálogo.

Nada mais equivocado

A política que sobrevive é a política que escuta. A política que cresce é a política que respeita o chão onde pisa. A política que permanece é a política que entende que nenhum líder, por maior que seja, transfere automaticamente grandeza para quem apenas aparece ao seu lado.

Lula saiu de Divinópolis maior do que chegou, porque fez o que sabe fazer: foi ao povo.

Alguns dos que o cercavam saíram exatamente como entraram: pequenos diante da cena, presos ao próprio cálculo, dependentes da sombra presidencial e distantes daquilo que dizem representar.

O Hospital Universitário fica como conquista histórica para Divinópolis e região.

A visita de Lula fica como marco político.

E a postura de parte da comitiva fica como alerta: quem gravita demais ao redor do sol corre o risco de nunca aprender a produzir luz própria.

 

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