Divinópolis: Audiência do Diviprev termina em gritos contra prefeita Janete e servidores mantêm greve para sexta-feira

Prefeita não anunciou retirada do projeto durante audiência na Câmara; servidores recusaram ouvir Agnaldo Lages e mantiveram greve para sexta-feira

Publicado por: Geraldo Passos

O Divinews transmitiu ao vivo a Audiência pública realizada na noite desta terça-feira (26), na Câmara Municipal de Divinópolis, que teve como foco o  projeto de mudanças no Diviprev. O ambiente foi  de tensão, protestos e ruptura entre servidores e Prefeitura. Mesmo diante da pressão da categoria, a prefeita Janete Aparecida não anunciou a retirada do projeto enviado ao Legislativo. Com isso, os servidores mantiveram a orientação de iniciar greve na sexta-feira, caso o texto continue tramitando.

A sessão mostrou uma Câmara tomada por servidores públicos municipais, aposentados, pensionistas, representantes sindicais, vereadores e integrantes do Executivo. A audiência tinha como objetivo discutir a proposta de reestruturação da Previdência dos servidores, mas, na prática, transformou-se em um grande ato público contra o projeto.

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Durante quase toda a noite, as palavras de ordem foram direcionadas à prefeita Janete Aparecida. Servidores gritaram pela retirada do projeto, cobraram respeito, denunciaram perdas previdenciárias e rejeitaram a tentativa de votação em prazo curto.

O ex-prefeito Gleidson Azevedo, embora tenha governado Divinópolis por quase 6 anos, período em que o déficit do Diviprev atravessou sua gestão, foi raramente citado nos protestos. Esse ponto chamou atenção, especialmente porque Janete foi vice-prefeita durante esse mesmo período, e nomes centrais da área financeira e previdenciária permaneceram na estrutura administrativa.

Projeto não foi retirado e tensão aumentou

A audiência confirmou aquilo que os servidores já temiam: o projeto não foi retirado.

Ao longo das falas, representantes da categoria insistiram que a proposta precisa sair da Câmara para ser reconstruída com participação dos sindicatos, servidores, Legislativo e Executivo.

O pedido se repetiu de forma insistente. Em vários momentos, o plenário gritou “retira”, em cobrança direta à prefeita.

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A recusa da categoria em aceitar apenas explicações técnicas ficou evidente no fim da audiência. Quando Janete tentou abrir espaço para o superintendente do Diviprev, Agnaldo Lages, explicar a diferença entre os valores atuariais apresentados, os servidores reagiram com gritos de “auditoria” e “fora”.

Na prática, a categoria deixou claro que não queria mais apresentação. Queria retirada do projeto.

Darly Salvador faz mea culpa diante dos servidores

Uma das falas foi Darly Salvador, militante sindical conhecido por sua trajetória no movimento dos servidores.

Em fala marcada por constrangimento e indignação, ele pediu perdão aos servidores e reconheceu que confiou em um projeto apresentado no passado, sem saber o mal que teria causado à categoria. Também afirmou que as prestações de contas mostravam o Diviprev em boa condição e que não haveria razão para misturar orçamento do instituto com o orçamento da Prefeitura.

A fala teve peso simbólico porque remete ao episódio da redução da alíquota patronal da Prefeitura no Diviprev, de 28% para 14%, decisão tomada em período anterior e que hoje voltou ao centro da crise.

O mea culpa de Darly reforçou uma leitura que vem ganhando força: o problema atual não nasceu apenas no governo Janete, mas também não se encerra na gestão anterior. A crise carrega decisões acumuladas, omissões, disputas técnicas e escolhas políticas feitas ao longo dos anos.

Servidores atacam projeto e cobram vereadores

Servidoras e servidores se revezaram no microfone.

Uma das falas apontou que o projeto seria injusto, parcial e ofensivo às conquistas obtidas ao longo da carreira pública. A servidora citou anuênios, triênios, progressões, adicionais de formação, abono de permanência e outras conquistas legais que, segundo ela, seriam desconsideradas ou atingidas pela proposta.

Outra servidora classificou a proposta como “maquiavélica” e pediu aos vereadores que não joguem uma “pá de cal” na aposentadoria dos servidores.

O tom geral foi de indignação. Os servidores não trataram o projeto como uma simples adequação previdenciária. Para a categoria, trata-se de uma mudança profunda, capaz de alterar expectativa de aposentadoria, renda futura, contribuição de aposentados e segurança jurídica de quem dedicou décadas ao serviço público.

Categoria reclama de prazo curto e falta de debate

A falta de tempo para análise foi uma das queixas mais repetidas.

Servidores afirmaram que o projeto foi apresentado com pouco prazo, por meio de tela ou envio digital, sem discussão suficiente e sem possibilidade real de leitura detalhada. Uma servidora relatou que representantes sindicais não conseguiram folhear o texto fisicamente durante apresentação no Executivo, o que reforçou a percepção de atropelo.

Outro ponto que incendiou a audiência foi a informação de que vereadores teriam até meia-noite do dia seguinte para apresentar emendas. O vereador Vitor Costa afirmou ter recebido, durante a audiência, notificação do sistema da Câmara sobre acordo de líderes limitando esse prazo.

Para os servidores, esse calendário esvaziaria a própria audiência. Se a categoria estava ali para ser ouvida, mas o prazo para emendas já estava praticamente fechado, a escuta pareceria apenas formalidade.

Vitor Costa, Kell Silva e Wesley Jarbas se manifestaram

Entre os vereadores, apenas Vitor Costa, Kell Silva e Wesley Jarbas se manifestaram de forma mais visível no contexto da audiência.

Vitor Costa classificou a situação como lamentável e criticou o prazo curto para emendas, afirmando que a medida dificulta ainda mais o diálogo. Para ele, os servidores pediram tempo, mas não haveria prazo suficiente nem para apresentar mudanças ao projeto.

Kell Silva reforçou pedido de retirada do projeto e afirmou que a proposta precisa ser reconstruída com sindicatos e servidores. A vereadora voltou a defender que a discussão envolva a categoria desde o início, e não apenas em uma audiência pública convocada quando o texto já está na Câmara.

Wesley Jarbas também pediu à prefeita que retirasse o projeto. O vereador afirmou que existem pontos a serem ajustados e que o governo deveria dar um passo atrás para avançar com mais diálogo. Porém, há que se observar que tal vereador foi aliadíssimo do ex-prefeito Gleidson Azevedo, e neste momento, já vislumbrando 2028, fingiu-se de oposição à Prefeitura, e aliado dos servidores, fato esse que não acontecia anteriormente.

Os demais vereadores não tiveram manifestação destacada no material analisado. A ausência da vereadora Ana do Quintino também foi notada durante a audiência, no momento em que nomes de lideranças da Câmara foram mencionados em meio à discussão sobre prazo de emendas.

Janete se emociona ao ter passado humilde relembrado

Um dos momentos mais delicados ocorreu quando uma servidora relembrou o passado humilde de Janete Aparecida.

A prefeita ouviu referências ao período em que teria trabalhado como empregada doméstica, babá, na educação, com crianças e em atividades de cuidado. Nesse momento, Janete se emocionou e quase foi às lágrimas.

A cena revelou uma dimensão humana em meio à crise política. Janete, que enfrenta o maior desgaste desde que assumiu o Executivo, viu sua história pessoal ser usada como apelo para que compreendesse a realidade dos servidores que atuam na ponta.

A servidora pediu respeito, afirmou que o Diviprev pertence aos servidores e cobrou a retirada definitiva do projeto.

Servidores recusam ouvir Agnaldo Lages

Ao fim dos pronunciamentos, Janete tentou encaminhar uma explicação técnica com o superintendente do Diviprev, Agnaldo Lages.

A prefeita afirmou que não faria a apresentação completa do cálculo atuarial, mas pediu que Agnaldo explicasse brevemente por que o saldo teria saltado de aproximadamente R$ 1,7 bilhão para mais de R$ 2 bilhões.

Os servidores reagiram com protestos.

Gritaram “auditoria”, “fora” e recusaram ouvir a explicação naquele momento. Também houve gritos direcionados à prefeita, como “retira o projeto”.

A recusa mostrou que a categoria já não confia no processo como está colocado. Para os servidores, o problema não seria apenas falta de explicação. Seria falta de tempo, confiança, abertura real e participação na construção do texto.

Gleidson quase não foi citado nos protestos

Um dos pontos políticos mais relevantes da audiência foi a concentração quase exclusiva dos protestos contra Janete.

Gleidson Azevedo, ex-prefeito por quase 6 anos e pré-candidato a deputado federal, raramente apareceu como alvo direto das palavras de ordem. Isso chama atenção porque o Diviprev atravessou sua gestão, e a própria Janete foi vice-prefeita durante esse período.

Também pesa o fato de que o secretário de Fazenda e o superintendente do Diviprev são nomes que permaneceram na estrutura administrativa.

A pergunta política fica evidente: por que a revolta explodiu com tanta força apenas agora, quando Janete passou a assinar como prefeita, se parte relevante do problema foi construída ou administrada no ciclo anterior?

Essa pergunta não absolve Janete.

A prefeita é responsável pelo projeto que enviou à Câmara, pela decisão de não retirá-lo até o momento e pela condução política da crise. Mas também não permite apagar a herança administrativa de Gleidson nem a permanência de personagens centrais da gestão anterior.

Prefeita poupa Gleidson

Outro detalhe relevante é que a própria Janete não fez ataques diretos a Gleidson.

Mesmo pressionada, hostilizada e cobrada pela categoria, a prefeita evitou atribuir responsabilidade nominal ao ex-prefeito pelo quadro atual do Diviprev.

Essa postura pode ser lida como tentativa de preservar acordos políticos internos, mas também aumenta seu isolamento. Ao poupar o antecessor, Janete absorve sozinha o desgaste de uma crise que não nasceu apenas em sua curta gestão como prefeita.

Essa é uma das contradições centrais da noite.

Os servidores miraram Janete. Gleidson quase não entrou nos gritos. E Janete também não o colocou no centro da responsabilidade.

Greve está mantida para sexta-feira

Ao final da audiência, representantes sindicais reafirmaram que a greve está mantida para sexta-feira, caso o projeto não seja retirado.

A orientação divulgada foi para que servidores acompanhem as informações oficiais do Sintram e do Sintem. Também foi informado que o comando de greve se reunirá para definir os encaminhamentos.

A proposta inicial é que, na sexta-feira, pela manhã, os servidores se concentrem na porta da Prefeitura Municipal, a partir das 7h.

O clima ao fim da audiência era de revolta. Servidores deixaram a Câmara irritados, gritando palavras de ordem e demonstrando insatisfação com a manutenção do projeto.

Audiência expôs ruptura de confiança

Mais do que discutir tecnicamente o Diviprev, a audiência mostrou uma ruptura de confiança entre servidores e governo.

A categoria não aceitou apenas ouvir justificativas. Exigiu retirada do projeto.

Não aceitou explicação de Agnaldo. Pediu auditoria.

Não aceitou prazo curto para emendas. Denunciou atropelo.

Não aceitou que a reforma avance sem participação real. Aprovou greve.

Janete saiu da audiência ainda mais pressionada. A Câmara ficou sob cobrança. E os servidores saíram convencidos de que a mobilização precisa aumentar.

O Diviprev virou crise política total

O projeto do Diviprev deixou de ser uma pauta técnica.

Virou crise política, sindical, administrativa e eleitoral.

A audiência pública desta terça-feira mostrou que a Prefeitura perdeu a narrativa diante dos servidores. Mostrou também que a Câmara será cobrada por cada movimento. E revelou uma contradição incômoda: a revolta mira Janete quase sozinha, enquanto Gleidson, que comandou a Prefeitura durante quase 6 anos e manteve influência sobre a estrutura herdada, segue muito menos exposto nos protestos.

O desfecho agora depende de uma decisão política.

Se Janete retirar o projeto, abre caminho para uma nova negociação. Se insistir na tramitação, enfrentará greve a partir de sexta-feira.

A audiência terminou sem conciliação.

E o Diviprev entrou, definitivamente, no centro da maior crise do governo Janete.

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