Jogo duplo do PL em Minas expõe candidato sem voto e mira mesmo é o cargo de vice

Enquanto Cleitinho aparece sondado para voos nacionais e lidera pesquisas para o governo mineiro, o PL filia Flávio Roscoe, nome sem teste nas urnas, e reforça a suspeita de que prepara uma estratégia de vice, não de cabeça de chapa

Publicado por: Geraldo Passos

A política mineira entrou de vez na fase dos movimentos que dizem mais do que os discursos. De um lado, o nome de Cleitinho Azevedo circula nos bastidores como peça cobiçada para voos mais altos, inclusive em conversas ligadas ao tabuleiro presidencial. De outro, o PL decidiu filiar Flávio Roscoe, presidente da Fiemg, e tratá-lo como ativo eleitoral para 2026. Separados, os fatos já chamam atenção. Juntos, expõem algo maior: o partido parece estar montando uma estratégia de pressão, barganha e ocupação de espaço, e não exatamente uma candidatura competitiva e natural ao governo de Minas.

Segundo fonte do Divinews, Cleitinho teria dito que se sente honrado só pelo fato de o nome dele estar sendo lembrado para composições nacionais, mas que, se o convite vier a se consumar, a tendência seria não aceitar. Ainda conforme esse relato, o projeto inicial do senador continua sendo Minas Gerais. A avaliação atribuída a Cleitinho é de que ele não quer decepcionar o eleitorado mineiro, justamente porque as pesquisas o colocam em posição de destaque na corrida ao Palácio Tiradentes. Esse dado ajuda a entender por que o senador segue sendo observado simultaneamente por mais de um campo político.

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Os levantamentos já divulgados em março apontam Cleitinho liderando a disputa pelo governo de Minas em diferentes cenários estimulados. Uma pesquisa Real Time Big Data mostrou o senador à frente com 38% em um cenário com Rodrigo Pacheco, Alexandre Kalil, Matheus Simões, Gabriel Azevedo e Flávio Roscoe, que apareceu com 3%. Outra leitura, do instituto F5, também colocou Cleitinho na dianteira em todos os cenários testados. Em resumo, quando se olha para a fotografia do voto hoje, o nome competitivo, conhecido e popular é o dele, não o de Roscoe.

É justamente por isso que a filiação de Flávio Roscoe ao PL levanta mais perguntas do que respostas. O presidente da Fiemg entrou no partido com a bênção de Valdemar Costa Neto e de Domingos Sávio, presidente do diretório mineiro. O gesto foi público, calculado e tratado como movimento com objetivo eleitoral. Só que Roscoe, apesar do trânsito no meio empresarial e institucional, é um nome praticamente desconhecido do grande público mineiro. Não foi testado nas urnas. Não construiu base popular. E, quando apareceu em pesquisa, ficou muito, mas muito atrás de Cleitinho. Então a pergunta é inevitável: o PL realmente acredita que Flávio Bolsonaro teria palanque forte no segundo maior colégio eleitoral do país com um nome sem densidade eleitoral comprovada?

A estranheza aumenta quando se junta esse movimento ao outro bastidor que envolve Cleitinho. O senador apareceu em coluna política como possível nome a ser testado pelo PL para vice de Flávio Bolsonaro, ao lado de Romeu Zema, Augusto Cury e Tereza Cristina. Ou seja, enquanto um nome forte, popular e já competitivo em Minas entra no radar da chapa nacional, o partido filia em paralelo um empresário sem voto testado para o jogo estadual. Isso parece menos improviso e mais engenharia.

E aí entra a leitura mais crua da política. Ao que tudo indica, o PL não está necessariamente preparando Flávio Roscoe para ser cabeça de chapa de nada. Até porque, com o grau de desconhecimento popular que cerca seu nome, lançar Roscoe para governador como aposta principal seria um salto de altíssimo risco. O movimento parece apontar para outra direção: criar um nome partidário, dar musculatura de negociação a ele e empurrá-lo para composição futura, de preferência como vice em uma chapa viável da direita, seja com o próprio Cleitinho, seja com Mateus Simões. Em política, é assim que frequentemente funciona. O partido lança ou infla um nome de “cabeça” para, mais adiante, negociar a vice com mais força.

Essa leitura ganha ainda mais peso porque o PL, hoje, não tem um nome natural e incontestável para o governo de Minas dentro da própria legenda. Por isso, precisa fabricar valor de mercado. Roscoe pode estar sendo preparado menos para vencer uma eleição majoritária sozinho e mais para sentar à mesa com algum ativo partidário na mão. Em outras palavras, o empresário pode ser menos um projeto de poder direto e mais uma peça de encaixe para qualquer chapa de direita que se mostre competitiva.

Se essa interpretação estiver correta, o recado para Cleitinho é duplo. Primeiro, ele continua valorizado, tanto pelo desempenho nas pesquisas quanto pela lembrança em articulações nacionais. Segundo, esse capital não lhe garante apoio automático do PL. O partido quer sentar forte na mesa, e para isso precisa mostrar que tem alternativas. Roscoe, nesse cenário, seria menos uma candidatura real e mais uma carta de negociação.

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No fundo, a pergunta central permanece de pé: se o PL quer mesmo ajudar Flávio Bolsonaro a ter um palanque robusto em Minas, por que investir em um nome sem voto testado, em vez de abraçar de imediato o senador que lidera as pesquisas? A resposta mais plausível talvez esteja justamente no cálculo partidário. O objetivo não parece ser resolver logo a equação, mas manter o controle do jogo, elevar o preço das alianças e chegar à fase decisiva podendo negociar espaço, vice e influência.

No fim, a junção dos dois movimentos deixa o cenário mais claro. Cleitinho é cortejado porque tem voto. Roscoe é filiado porque pode virar ativo de composição. E o PL, no meio disso tudo, parece jogar com duas mãos ao mesmo tempo: uma segura a popularidade de quem já lidera Minas, a outra fabrica uma alternativa própria para não entrar na disputa apenas como coadjuvante. Em política, raramente isso é improviso. Geralmente, já é estratégia.

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