Ícone da fotografia e do fotojornalismo brasileiro, Sebastião Salgado morre aos 81 anos

Mineiro de Aimorés, profissional deixa importante legado humanitário; seu falecimento foi em decorrência de complicações da malária, contraída por ele nos anos 90.

Publicado por: Redação

Mineiro de Aimorés, o fotógrafo Sebastião Salgado faleceu aos 81 anos, nesta sexta (23), em Paris, capital da França, onde vivia atualmente. Sebastião sofria de problemas crônicos de saúde, decorrentes de uma malária adquirida nos anos 1990. Fontes próximas relataram que os medicamentos contra a doença deixaram de fazer efeito nos últimos anos. Na época da infecção, na Indonésia, Salgado não recebeu o tratamento adequado e isso lhe deixou sequelas permanentes. Essas complicações, de acordo com amigos e familiares, foram determinantes para o agravamento de seu estado de saúde e hoje, o falecimento.

Trajetória do mineiro

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Sebastião Salgado nasceu em Aimorés, Minas Gerais, em 1944, e formou-se em Economia pela USP. Exilado na França durante a ditadura militar, descobriu a fotografia nos anos 1970 enquanto trabalhava na Organização Internacional do Café. Retornando a Paris em 1973, passou a atuar como fotojornalista. Em 1979 ingressou na cooperativa Magnum Photos, lançando as séries Outras Américas (1986) – retrato poético de camponeses latino-americanos – e Workers/Trabalhadores (1987–1992), que documentou operários em condições extremas pelo mundo. Em 1986 fotografou refugiados no Sahel africano para a Médicos sem Fronteiras; o resultado foi o livro Sahel L’Homme en Détresse.

Salgado capturou a força e a solidariedade dos trabalhadores em imagens emblemáticas. Uma foto marcante da série Trabalhadores mostra operários rurais brasileiros empunhando foices em protesto – símbolo das lutas por melhores condições de vida. Seu livro Workers é uma “arqueologia da era industrial”, retratando homens e mulheres sobrecarregados e mal pagos, responsáveis pela grande máquina econômica mundial. Entre suas séries mais conhecidas destacam-se:

Serra Pelada (1986) – Documentação em preto e branco do maior garimpo de ouro a céu aberto, no Pará. Salgado retratou os “trabalhadores em condições extenuantes” nas escarpas do garimpo, aumentando a consciência internacional sobre seu sofrimento.

Trabalhadores (1986–1992) – Série de fôlego global sobre operários em minas, fábricas e plantações. O projeto revelou os bastidores humanos da industrialização, focando nos que “transformam o mundo com construções” enquanto lidam com condições primitivas de trabalho.

Êxodos (1993–2000) – Coleção de cerca de 300 fotos que narrou o drama dos deslocados pelo mundo. Salgado fotografou refugiados de guerras e fome – de refugiados hutus em Ruanda a imigrantes subsaarianos cruzando o Mediterrâneo – mostrando o “rosto humano” dos migrantes forçados a deixar suas terras.

Gênesis (2004–2011) – Última grande série, dedicada a paisagens e povos intactos pelo homem. Em centenas de fotos de animais, florestas e tribos ancestrais, Salgado buscou mostrar como a natureza “reina em majestade silenciosa” e alertar para a necessidade de preservação ambiental.

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Repercussão nacional e homenagens

A morte de Salgado provocou comoção no Brasil e no exterior. O Instituto Terra – ONG fundada por ele e sua esposa Lélia Salgado – emitiu nota oficial ressaltando que Salgado semeou “esperança onde havia devastação” e destacou sua visão transformadora do jornalismo fotográfico. O jornal Folha de S.Paulo, veículo onde Salgado publicou séries históricas de imagens, lamentou a perda. Seu diretor de redação, Sérgio Dávila, afirmou que “Sebastião Salgado foi o maior e mais importante fotógrafo brasileiro” e que “a perda é mundial”.

Veículos como o Terra ecoaram que Salgado, com sua estética em preto e branco singular, “incitava à reflexão sobre a condição humana e a urgência da preservação ambiental”. Fotografias de Salgado estão em destaque em museus e exposições globais – como a retrospectiva atual no centro cultural Les Franciscaines (França) – o que fez com que o anúncio de seu falecimento fosse repercutido em importantes meios internacionais. Instituições culturais, fotógrafos renomados e organizações ambientais prestaram homenagens, lembrando que sua obra ajudou a documentar crises humanitárias e a inspirar políticas de preservação.

Declarações 

“Sebastião foi muito mais do que um dos maiores fotógrafos de nosso tempo. Ao lado de Lélia, semeou esperança onde havia devastação e mostrou que a restauração ambiental é um gesto de amor à humanidade” – nota do Instituto Terra.

“Salgado foi o maior e mais importante fotógrafo brasileiro, além de colaborador habitual da Folha. A perda é mundial” – Sérgio Dávila, Folha de S.Paulo.

Legado 

Salgado deixou um legado duradouro na fotografia social e documental. A crítica especializada o considera “um dos mais importantes documentaristas visuais de nosso tempo”. Suas imagens fortes, focadas em injustiças sociais, migrações e degradação ambiental, renderam-lhe o rótulo de cronista visual da condição humana. Além das lentes, Salgado foi um ativista: cofundou o Instituto Terra para reflorestar a Mata Atlântica e serviu como Embaixador da Boa Vontade da UNICEF, ampliando o alcance de suas causas humanitárias.

Ao todo ele produziu meio milhão de imagens, que continuam a inspirar fotógrafos e difundir debates sobre direitos humanos e meio ambiente. Morre assim um artista cujo trabalho transcende a fotografia, conservando sua obra como testemunho da história humana e modelo de engajamento social.

ALGUMAS FOTOS DE SEBASTIÃO SALGADO

 

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