A saída anunciada por Santiago Peña não encerrou a turbulência política no Paraguai. O Congresso não concluiu a formalização da renúncia, enquanto o presidente enfrenta um julgamento de impeachment no Senado e três investigações criminais relacionadas ao colapso do Ueno Bank, instituição que mantinha milhões de clientes e administrava centenas de milhões de dólares em recursos públicos.
A crise que começou no sistema financeiro paraguaio chegou ao centro do poder e colocou o presidente Santiago Peña em uma situação política delicada. Mesmo depois de anunciar que deixaria o cargo na quinta-feira (5), o mandatário continua formalmente na Presidência e terá de responder às acusações que motivaram a abertura do processo de impeachment.
A tentativa de saída não avançou porque o Congresso não conseguiu concluir a votação necessária para formalizar a renúncia. Em vez de encerrar a discussão sobre sua permanência no governo, o episódio abriu espaço para a continuidade do julgamento político, que pode resultar na destituição do presidente.
Além da pressão dos parlamentares, Peña passou a enfrentar três investigações conduzidas pelo Ministério Público paraguaio. As apurações envolvem a fiscalização do Ueno Bank, a destinação de recursos públicos à instituição e a atuação de autoridades responsáveis pelo acompanhamento de suas operações.
Três investigações colocam presidente na mira do Ministério Público
O procurador-geral do Paraguai, Emiliano Rolón Fernández, determinou a abertura de três frentes de investigação sobre a crise bancária. Os procedimentos também alcançam autoridades e ex-integrantes de órgãos públicos que participaram da fiscalização ou autorizaram operações financeiras com a instituição.
Entre os pontos que os investigadores pretendem esclarecer estão os depósitos de dinheiro público no Ueno Bank, possíveis conflitos de interesses e a atuação dos responsáveis pelo controle das operações financeiras.
A situação ganhou ainda mais repercussão por causa da antiga ligação empresarial de Peña com o Grupo Vázquez, que controlava o banco. O presidente manteve participação no grupo até 2025, quando vendeu sua participação acionária.
A oposição questiona se essa relação influenciou decisões administrativas e regulatórias durante o governo. Peña nega irregularidades e afirma que colaborará com as autoridades para esclarecer os fatos.
As investigações ainda precisam determinar se houve responsabilidade criminal do presidente ou de outros agentes públicos. Até o momento, a abertura dos procedimentos não representa uma condenação.
Crise do Ueno Bank atingiu milhões de paraguaios
O problema financeiro ganhou dimensão nacional depois que o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank e iniciou o processo de resolução da instituição.
A autoridade monetária identificou problemas graves nos registros financeiros, operações de crédito consideradas arriscadas e insuficiência de capital. Após os ajustes nos demonstrativos contábeis, o índice de solvência do banco caiu para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.
O Ueno atendia aproximadamente 3 milhões de clientes, em um país com cerca de 6,5 milhões de habitantes. A instituição também administrava cerca de US$ 800 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos de órgãos estatais e fundos ligados à previdência.
Com a intervenção, clientes perderam temporariamente o acesso aos aplicativos, cartões e transferências. A situação provocou filas nas agências, protestos e dificuldades para trabalhadores que dependiam da instituição para receber salários e movimentar suas economias.
O governo e as autoridades financeiras começaram a organizar a devolução dos depósitos por meio do Fundo de Garantia de Depósitos. Segundo o Banco Central, a cobertura prevista poderá alcançar integralmente os saldos de aproximadamente 97% dos clientes.
Processo de impeachment pode definir permanência de Peña
A Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment por unanimidade, ampliando o isolamento político do presidente. A decisão também evidenciou a perda de apoio dentro do Partido Colorado, legenda que sustenta o governo e mantém forte influência na política paraguaia.
No Senado, os parlamentares deram continuidade ao julgamento político, que prevê a análise das acusações e o direito de defesa do presidente. Peña afirmou que comparecerá para apresentar seus argumentos e colaborar com o esclarecimento dos fatos.
A oposição sustenta que o caso envolve conflito de interesses, falhas na fiscalização bancária e possíveis irregularidades na destinação de recursos públicos. O presidente, por sua vez, afirma que a recuperação do dinheiro dos clientes deve avançar independentemente do resultado de seu processo político.
O vice-presidente Pedro Alliana também entrou no centro das discussões sobre a sucessão. Entretanto, a definição do comando do país depende dos desdobramentos institucionais e da conclusão do processo envolvendo Peña.
Crise ultrapassa fronteiras e preocupa mercado financeiro
A turbulência também repercutiu no mercado financeiro. A crise do banco e a instabilidade política pressionaram os títulos da dívida paraguaia e provocaram desvalorização do guarani diante do dólar.
O episódio chama atenção porque o Paraguai vinha sendo visto como uma das economias mais estáveis da América do Sul. Agora, o país precisa lidar simultaneamente com a recuperação dos depósitos, a investigação sobre possíveis irregularidades e uma disputa política que ameaça alterar o comando do governo.
O desfecho dependerá das decisões do Senado e do avanço das investigações. Enquanto isso, a renúncia anunciada por Peña permanece sem produzir uma transição definitiva de poder, e a crise do Ueno Bank continua no centro das atenções no país.



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