Dez anos antes de ser eleito governador de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo era um vereador recém-eleito em Divinópolis, ainda sem ter tomado posse, tentando explicar à população o que pretendia fazer com os 3.023 votos que acabara de receber. Naquela que, segundo o acervo do Divinews, foi sua primeira entrevista exclusiva como vereador eleito, em 2016, algumas frases já antecipavam características que acompanhariam sua trajetória política nos anos seguintes. “Não entrei para brincar não, entrei para fazer um legado, fazer história”, afirmou.
Revisitar aquela entrevista depois das eleições de 2026 produz um contraste difícil de ignorar. O político que naquele momento dizia estar apenas se preparando para tentar ser “um dos melhores vereadores” que Divinópolis já havia tido acaba de ser eleito governador de Minas Gerais, com 6.321.351 votos e 55,40% dos votos válidos. Entre um ponto e outro existe uma trajetória rápida: vereador em 2016, deputado estadual em 2018, senador em 2022 e agora governador eleito. Mas, olhando para o arquivo histórico Divinews, percebe-se que parte do discurso que o levaria a esses cargos já estava presente antes mesmo de sua primeira sessão na Câmara Municipal.
Os chutes nas placas e a indignação que virou voto
A entrevista começa justamente recordando como Cleitinho havia se tornado conhecido antes de entrar oficialmente na política. O Divinews lembrava que sua atuação na internet, incluindo os vídeos em que aparecia chutando placas de políticos como forma de demonstrar indignação, havia ajudado a transformar uma figura conhecida principalmente pela irreverência nas redes em um candidato com 3.023 votos.
Cleitinho foi o terceiro vereador mais votado de Divinópolis naquele pleito. A própria Câmara Municipal registra a votação e recorda que sua experiência política começou após vídeos que ampliaram sua popularidade e acabaram incentivando a candidatura. O personagem que aparecia nas redes criticando a política havia, naquele momento, passado para o outro lado do balcão: agora teria de ocupar uma cadeira e mostrar o que faria quando tivesse mandato.
E ele parecia consciente dessa cobrança. Logo nos primeiros minutos da conversa, não apresentou o mandato como uma conquista pessoal, mas como algo que precisaria justificar. A preocupação com aquilo que chamava de “legado” aparece antes mesmo de qualquer experiência parlamentar. Era o início de uma trajetória política local que, em apenas dois anos, já deixaria de ser apenas local.
“Estou entrando para quebrar as regras”
Uma das falas mais reveladoras daquela entrevista surgiu quando Cleitinho respondeu sobre como se relacionaria com os outros vereadores. Ele deixava claro que não pretendia transformar adversários em inimigos automaticamente, mas condicionava as alianças àquilo que considerasse benéfico para Divinópolis.
Na conversa, afirmou que poderia ser amigo de qualquer um dos outros 16 vereadores, desde que chegassem com propostas que julgasse positivas para a cidade. Ao mesmo tempo, respondeu às pessoas que diziam que, depois de eleito, acabaria absorvido pela estrutura política tradicional. “Eu estou entrando agora literalmente para quebrar as regras”, afirmou, acrescentando: “eu não vou entrar no sistema”. Cleitinho Azevedo – primeira el…
A frase ganha outro significado quando lida dez anos depois. Combater aquilo que Cleitinho identifica como “sistema” continuaria presente em suas campanhas seguintes, assim como as críticas a privilégios e à estrutura tradicional da política. O vocabulário foi mudando, os cargos foram aumentando, mas aquela construção inicial de alguém que pretendia permanecer fora da lógica tradicional acompanhou sua carreira.
“Minha aliança é com a população”
A entrevista também mostra um Cleitinho disposto, ao menos no discurso daquela estreia, a conversar com políticos de diferentes grupos. Ao comentar episódios envolvendo parlamentares com quem havia tido desentendimentos, ele afirmou que não estava entrando na Câmara para construir inimizades.
“Eu não estou aqui para fazer inimizade”, disse. Em seguida, estabeleceu o critério que dizia pretender usar: se uma iniciativa fosse favorável à população, estaria ao lado; se considerasse algo errado, fiscalizaria e mostraria à população.
A mesma lógica apareceu quando foi questionado sobre as articulações para a Presidência da Câmara. Cleitinho respondeu que sua “aliança é com a população” e disse que, para conquistar seu apoio, não bastaria um vereador procurá-lo pedindo voto na eleição interna da Casa. Queria saber o que esse parlamentar pretendia fazer por Divinópolis, pela saúde e pelos demais problemas da cidade.
Naquele momento, Cleitinho também defendia uma redução no salário dos vereadores, proposta que havia utilizado durante a campanha municipal. O combate aos privilégios políticos se consolidaria mais tarde como uma das bandeiras de sua atuação na Assembleia Legislativa.
Em 2016, Cleitinho dizia não estar preparado nem para ser prefeito
Talvez uma das passagens mais curiosas da entrevista, quando observada do presente, seja justamente a avaliação que Cleitinho fazia sobre sua própria capacidade para assumir um cargo no Executivo.
Divinópolis vivia uma situação de incerteza jurídica envolvendo a posse do prefeito eleito Galileu Machado. Como o presidente da Câmara poderia eventualmente assumir temporariamente a Prefeitura, o Divinews perguntou se Cleitinho poderia entrar na disputa pelo comando do Legislativo e, consequentemente, chegar ao Executivo municipal.
A resposta foi direta. Ele reconheceu que não tinha experiência suficiente e afirmou não se considerar preparado para administrar Divinópolis. “Eu estou entrando agora”, disse, acrescentando que precisava ter humildade para reconhecer suas limitações e que estava se preparando para ser vereador, e não prefeito. Cleitinho Azevedo – primeira el…
Mais adiante, reforçou a posição ao discutir a possibilidade de algum vereador assumir a Prefeitura naquele cenário de instabilidade. Cleitinho voltou a dizer que, naquele momento, não se considerava preparado para o cargo e questionou se os demais vereadores estariam. Cleitinho Azevedo – primeira el…
Dez anos depois, aquele vereador que dizia não estar pronto para comandar uma Prefeitura foi escolhido por mais de seis milhões de mineiros para comandar o Estado.
O boné, a bermuda e a promessa de continuar sendo Cleitinho
Outra pergunta feita pelo Divinews naquele primeiro encontro dizia respeito ao estilo pessoal do recém-eleito. Cleitinho havia construído sua imagem pública usando boné, bermuda e uma comunicação informal, mas entraria em uma instituição que possuía Regimento Interno, regras e ritos próprios.
Ele disse que respeitaria as normas da Câmara. Se não pudesse usar boné ou bermuda dentro do Legislativo, não usaria. Mas fez questão de separar o respeito institucional da própria personalidade. Fora dali, afirmou, continuaria sendo o mesmo Cleitinho.
“Não é o que eu vou vestir que vai mudar minha personalidade”, disse. Cleitinho Azevedo – primeira el… A resposta antecipava uma característica que permaneceria nos cargos seguintes. Cleitinho incorporou as formalidades exigidas pelas instituições, mas manteve uma linguagem menos formal, vídeos feitos diretamente para as redes e uma comunicação que buscava preservar a imagem construída antes do primeiro mandato.
Ele já estabelecia a urna como medida de seu próprio trabalho
No encerramento daquela entrevista, Cleitinho fez uma declaração especialmente simbólica diante de tudo o que aconteceria nos anos seguintes. Ele agradeceu aos 3.023 eleitores, mas disse que teria responsabilidade não apenas com quem havia votado nele, e sim com toda Divinópolis.
E criou uma espécie de avaliação pessoal para o futuro. Disse que, caso disputasse novamente uma eleição, não queria repetir os mesmos 3.023 votos. Queria aumentar a votação porque, em sua leitura naquele momento, crescer eleitoralmente seria a demonstração de que havia trabalhado. Se recebesse menos votos, avaliava, seria sinal de que não havia correspondido.
Também rejeitou a ideia de que o mandato lhe desse poder pessoal. “Quem tem poder é Deus e a população”, afirmou, lembrando que o mesmo eleitor que o colocava no cargo poderia retirá-lo na eleição seguinte. Era outubro de 2016 e Cleitinho ainda nem havia tomado posse.
Dois anos depois, a resposta das urnas seria muito maior do que os 3.023 votos daquela primeira eleição.
Dois anos depois, Divinópolis ficou pequena para sua votação
Em 2018, Cleitinho decidiu não buscar simplesmente uma nova votação para vereador. Subiu um degrau e entrou na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa de Minas Gerais pelo PPS.
O salto foi expressivo. Ele recebeu 115.492 votos e terminou como o quarto deputado estadual mais votado de todo o Estado, atrás somente de Mauro Tramonte, Sargento Rodrigues e Bruno Engler. A eleição estadual seguinte multiplicou por mais de 38 vezes a quantidade de votos obtida por ele apenas dois anos antes em Divinópolis.
A Assembleia registrou, na época, que Cleitinho chegava ao primeiro mandato estadual conhecido por sua atuação como vereador, comerciante no sacolão da família e músico. Também destacava como uma de suas marcas as críticas aos privilégios da classe política. O discurso ouvido pelo Divinews logo depois da eleição municipal de 2016 já antecipava exatamente essa linha de atuação.
A frase que ganhou dimensão dez anos depois
No final daquela primeira entrevista, Cleitinho disse que estava se preparando para ser “um dos melhores vereadores que Divinópolis já teve”. Também prometeu não decepcionar os eleitores e afirmou que pretendia honrar cada voto recebido. Cleitinho Azevedo – primeira el…
Havia ainda uma última curiosidade. Perguntado pelo Divinews sobre o sobrenome, explicou que seu nome era Cleiton Gontijo de Azevedo e que “Cleitinho” era um nome artístico que já carregava havia algum tempo. Cleitinho Azevedo – primeira el… Naquele instante, aquele nome artístico ainda identificava principalmente um músico conhecido em Divinópolis e um vereador recém-eleito.
O que veio depois transformou o apelido numa marca política estadual.
Em 2018, Cleitinho chegou à ALMG. Em 2022, foi eleito senador. Em 2026, venceu a disputa pelo Governo de Minas ainda no primeiro turno. A ascensão política mineira ocorreu em apenas uma década, período em que o personagem cresceu eleitoralmente sem abandonar completamente algumas das ideias apresentadas naquela primeira conversa.
Hoje, ao recuperar a entrevista feita logo depois da eleição municipal de 2016, algumas frases parecem quase uma antecipação do caminho que seria percorrido. Cleitinho dizia que não havia entrado na política para brincar, prometia fiscalizar, falava em romper com o “sistema”, dizia que sua aliança era com a população e colocava nas próprias urnas o julgamento sobre seu desempenho.
Dois anos depois, os 3.023 votos viraram 115.492. Dez anos depois, o vereador que dizia ainda não estar preparado para ser prefeito foi eleito governador de Minas Gerais.






