O governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), voltou a defender o fim da escala 6×1 e passou a cobrar publicamente uma mudança de posição do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) sobre o tema durante o segundo turno das eleições de 2026.
A manifestação coloca Cleitinho em uma posição particular dentro do campo político que apoia Flávio. Embora tenha declarado apoio ao candidato do PL na disputa presidencial, o mineiro diverge de integrantes da campanha bolsonarista sobre a proposta que reduz a jornada de trabalho e amplia os dias de descanso dos trabalhadores.
A diferença ficou mais evidente nesta semana, depois que Flávio Bolsonaro criticou a discussão sobre o fim da escala 6×1 e defendeu uma alternativa baseada na liberdade de escolha da jornada pelo trabalhador. Em declaração feita na terça-feira (6), o candidato classificou a discussão como “oportunista” e afirmou que o governo Lula estaria tentando utilizar o tema eleitoralmente.
Cleitinho, por sua vez, mantém posição favorável à redução da jornada. Em entrevista à CNN Brasil, ele afirmou que espera que Flávio escute os argumentos em defesa dos trabalhadores e pediu que o candidato não siga a orientação do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha e um dos principais defensores de uma proposta alternativa à redução da jornada.
“Comece a escutar quem realmente conhece Minas Gerais e quem realmente sabe a dor do povo”, afirmou Cleitinho.
A declaração foi reforçada pelo governador eleito nas discussões sobre a tramitação da proposta no Senado. Cleitinho defende que o Congresso avance com a votação e sustenta que a medida representa uma melhoria nas condições de vida de trabalhadores que enfrentam jornadas de seis dias de trabalho para apenas um dia de descanso.

Senador e candidato a presidente da república pelo PL, Flávio Bolsonaro e o governador eleito por Minas, Cleitinho, do Republicanos. -Foro: Arquivo/Senado Federal
Apoio a Flávio já havia sido declarado
Apesar da divergência sobre a escala de trabalho, Cleitinho já declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno. A manifestação ocorreu após o primeiro turno, quando o mineiro foi eleito governador de Minas Gerais.
Em entrevista à CNN Brasil na última segunda (05), Cleitinho afirmou que já havia manifestado anteriormente sua intenção de apoiar Flávio e reiterou que está à disposição para participar da campanha presidencial no segundo turno.
Na ocasião, ele também disse que ainda não havia sido procurado diretamente pela campanha de Flávio e que pretendia apresentar ao candidato demandas específicas de Minas Gerais.
A relação, portanto, não é de uma troca formal de apoio condicionada à aprovação da escala 6×1. O que se verifica é uma divergência programática dentro do campo político que apoia Flávio, com Cleitinho utilizando sua força eleitoral em Minas Gerais para pressionar o presidenciável a rever sua posição sobre a jornada de trabalho.
A situação ganhou peso político após Cleitinho ser eleito governador no primeiro turno com mais de 6,3 milhões de votos. O resultado consolidou o republicano como uma das principais lideranças políticas de Minas Gerais para a próxima legislatura estadual e para o segundo turno presidencial.
Cleitinho defende fim da 6×1 desde antes do segundo turno
A defesa do fim da escala 6×1 não surgiu apenas durante a atual disputa presidencial. Em junho, ainda no exercício do mandato de senador, Cleitinho utilizou a tribuna do Senado para defender o encerramento do modelo sem redução salarial.
Em pronunciamento oficial, registrado pelo Senado Federal, o parlamentar afirmou que continuaria cobrando a votação da proposta e defendeu que trabalhadores tivessem dois dias de descanso semanal. Na ocasião, também relacionou o tema à necessidade de redução de privilégios e despesas nos três Poderes.
Em agosto, durante entrevista à CNN Brasil, Cleitinho já havia direcionado a cobrança diretamente a Flávio Bolsonaro. O então candidato ao governo de Minas disse que pretendia convencer o presidenciável e os demais senadores a apoiarem o fim da escala 6×1.
Na mesma entrevista, Cleitinho afirmou que a medida deveria beneficiar o trabalhador, independentemente de qual grupo político apresentasse a proposta. Ele também defendeu a redução de impostos e a possibilidade de desoneração da folha das empresas que adotassem uma jornada de cinco dias de trabalho por dois de descanso.
Flávio defende jornada flexível
A posição de Flávio Bolsonaro é diferente da defendida por Cleitinho e pelo governo Lula.
Durante a campanha, Flávio evitou inicialmente declarar como votaria em uma proposta de encerramento da escala 6×1. Em entrevista concedida em agosto, afirmou que o trabalhador deveria ter liberdade para escolher sua jornada e defendeu uma alternativa ao texto apoiado pelo governo federal.
Já nesta terça-feira (6), durante o segundo turno, Flávio foi mais direto ao criticar a proposta que está em discussão no Senado. Segundo ele, o trabalhador brasileiro deseja mais do que simplesmente o fim da escala 6×1 e a discussão estaria sendo utilizada pelo governo Lula com objetivos eleitorais.
O modelo defendido pelo candidato prevê maior flexibilidade na definição da jornada, com remuneração proporcional às horas trabalhadas. A proposta se diferencia da PEC apoiada pelo governo Lula, que prevê redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso e manutenção dos salários.
Rogério Marinho é alvo das críticas
A divergência também envolve Rogério Marinho, senador pelo PL do Rio Grande do Norte e coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
Marinho é um dos principais defensores de uma proposta de jornada flexível que não estabelece o fim da escala 6×1 como regra geral. O texto prevê a possibilidade de contratos com remuneração e direitos proporcionais às horas trabalhadas.
A proposta apresentada por Marinho funciona como alternativa à PEC aprovada pela Câmara dos Deputados, que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e estabelece dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial.
É justamente nesse ponto que Cleitinho manifesta sua principal divergência com o grupo de Flávio.
O governador eleito argumenta que a discussão deve priorizar a realidade de quem trabalha seis dias por semana e enfrenta longos deslocamentos, baixos salários e poucas oportunidades de descanso. Para ele, a questão deve ser tratada como uma pauta social, e não apenas como uma disputa ideológica entre governo e oposição.
E Lula? Cleitinho já descartou ser aliado do petista
Apesar de defender uma proposta que também é apoiada pelo governo Lula, Cleitinho deixou claro que sua posição sobre a escala 6×1 não significa aproximação política com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Após o primeiro turno, o governador eleito afirmou, em entrevista à GloboNews, que “nunca foi aliado de Lula e nunca será”. Segundo Cleitinho, sua aliança política é com a população e não com o presidente ou qualquer partido.
Ao mesmo tempo, o mineiro fez uma distinção entre apoio político e relação institucional. Ele afirmou que, caso Lula seja reeleito, pretende dialogar com o presidente para defender os interesses de Minas Gerais.
“Sou de direita, mas meu coração é de todos”, afirmou Cleitinho, segundo o UOL. O governador eleito também declarou que ligará para o presidente que vencer a eleição, seja Lula ou Flávio, para tratar das demandas do estado.
Na entrevista à CNN, Cleitinho também afirmou que ainda não havia sido procurado nem pela campanha de Lula nem pela de Flávio e que, independentemente do resultado presidencial, pretende manter uma relação institucional com o Palácio do Planalto.
Apoio a Flávio não significa concordância em todas as pautas
O posicionamento de Cleitinho revela uma estratégia política de apoio eleitoral a Flávio Bolsonaro, mas com autonomia para defender pautas próprias.
O governador eleito mantém discurso de direita e rejeita uma aproximação política com Lula, mas afirma que poderá negociar com qualquer presidente eleito em nome dos interesses de Minas Gerais. Ao mesmo tempo, cobra de Flávio uma posição que considera mais favorável aos trabalhadores.
A questão da escala 6×1, portanto, tornou-se um dos primeiros pontos de divergência pública entre Cleitinho e o grupo político que disputa a Presidência pelo PL.
Enquanto Flávio Bolsonaro acusa o governo Lula de utilizar o tema de forma oportunista no segundo turno e defende uma jornada mais flexível, Cleitinho insiste que a redução da jornada deve avançar e pede que o candidato dê atenção às demandas dos trabalhadores.
Com a votação da proposta em discussão no Senado ocorrendo justamente durante o segundo turno, a pauta ganhou peso eleitoral. Para Cleitinho, porém, o tema deve ultrapassar a disputa entre Lula e Flávio e ser tratado como uma questão diretamente relacionada às condições de trabalho e à qualidade de vida da população.
Assim, embora tenha declarado apoio a Flávio Bolsonaro, Cleitinho não colocou publicamente seu voto ou seu apoio eleitoral como uma condição formal à adesão do candidato ao fim da escala 6×1. O que existe, até o momento, é uma cobrança política explícita para que Flávio reveja sua posição e passe a apoiar a redução da jornada defendida pelo governador eleito de Minas Gerais.






