Blogueiro bolsonarista, Allan dos Santos, refugiado nos EUA dispara palavrões e termos homofóbicos contra CNBB

Comunicador alinhado ao bolsonarismo, procurado pela Justiça nacional e residente no território estadunidense, profere agressões verbais a Dom Vicente Ferreira e a outros eclesiásticos depois de sacerdote rebater ilação sobre colaboração de membros da entidade na difusão de desinformação no pleito.

Publicado por: Vinícius Xavier

Uma gravação de Allan dos Santos que passou a circular em plataformas virtuais neste período derradeiro da disputa eleitoral de 2026 acentuou o clima de atrito entre segmentos alinhados ao movimento bolsonarista e autoridades da Igreja Católica. No material veiculado em postagem encaminhada à redação e divulgado por outros portais de notícia nesta quarta-feira (30), o comentarista alinhado à extrema-direita direciona um encadeamento de impropérios, ultrajes de cunho homofóbico e insinuações de caráter erótico contra autoridades eclesiásticas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), direcionando as hostilidades principalmente a Dom Vicente de Paula Ferreira, titular da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, localizada na Bahia.

O acontecimento não se deu de forma isolada. Trata-se de mais um desdobramento de um entrevero deflagrado no momento em que Flávio Bolsonaro (PL), postulante à Presidência da República, imputou a colaboradores da CNBB o auxílio na disseminação de um boato segundo o qual haveria intenção de retirar da imagem de Nossa Senhora Aparecida o patronato oficial do território nacional. O órgão católico desmentiu categoricamente qualquer engajamento na fabricação ou propagação de conteúdos enganosos na corrida das urnas, ressaltando que não possui vínculos com agremiações partidárias, comitês de campanha ou postulantes a cargos públicos.

Continua depois da publicidade

Allan rotula Dom Vicente de “besta” e intensifica investidas contra sacerdotes

No trecho audiovisual, Allan dos Santos inicia a gravação realizando a leitura de uma colocação disponibilizada por Dom Vicente Ferreira em redes digitais. Antes mesmo de avaliar o mérito das palavras, passa a desqualificar o caráter do representante religioso, denominando-o “besta” e empregando outros vocábulos desrespeitosos.

Na sequência, o locutor expressa concordância com reparos feitos anteriormente por Jair Bolsonaro em relação à entidade católica e argumenta que Flávio Bolsonaro estaria correto ao apontar o envolvimento de membros do clero no repasse de fatos inverídicos. No segmento de maior repercussão, contudo, o influenciador não apresenta elementos probatórios que atestem o envolvimento da instituição em qualquer esquema de desinformação.

A manifestação adquire tom consideravelmente mais virulento quando o criador de conteúdo contesta a invocação feita pelo clérigo a Nossa Senhora Aparecida. Allan recorre a insinuações sexuais e emprega vocabulário depreciativo pertinente à orientação sexual para atingir Dom Vicente. Logo adiante, amplia as injúrias aos demais prelatos, valendo-se do termo “viadinho” e de termos de baixo calão para designar os clérigos.

A própria transmissão ao vivo apresentou comentários de espectadores nos quais Dom Vicente era qualificado, entre outros apodos, como “cloaca de Satanás” e “maldito”.

O veículo jornalístico opta por expor estritamente uma parcela do vocabulário e contextualizar o cenário, esquivando-se de dar amplitude desnecessária à mensagem injuriosa, embora mantendo a essência indispensável para que o público compreenda a gravidade dos pronunciamentos feitos em público.

Continua depois da publicidade
O teor das declarações de Dom Vicente

A contmanifestação de Allan ocorreu na esteira de um posicionamento de Dom Vicente Ferreira, que criticou o grupo familiar de Bolsonaro após as imputações feitas por Flávio a colaboradores do colegiado eclesiástico.

Em seu texto, o líder religioso recordou que Jair Bolsonaro já havia classificado a entidade como um “ramo podre” do catolicismo e citou episódios de espionagem contra bispos ocorridos durante o mandato transcorrido. Em seguida, contestou a tese de que membros do episcopado teriam colaborado com desinformação e invocou Nossa Senhora Aparecida na condição de “padroeira e protetora”.

Dom Vicente exerce a liderança da Comissão Episcopal para a Ecologia Integral e Mineração do colegiado e atualmente responde pela Diocese de Livramento de Nossa Senhora, em solo baiano. A própria instituição eclesiástica documenta seu envolvimento em agendas de âmbito nacional.

A manifestação do religioso configurou réplica direta ao clima estabelecido no decorrer da corrida presidencial, período em que o debate acerca de Nossa Senhora Aparecida ganhou centralidade nas discussões políticas travadas no ambiente virtual.

Entidade eclesiástica nega elaboração ou difusão de desinformação

Anteriormente à investida verbal de Allan dos Santos, a conferência de bispos havia tornado pública uma Nota de Esclarecimento, veiculada no domingo (27), para responder às insinuações que circulavam durante o processo das urnas. A organização expressou peremptoriamente que “não concebeu, chancelou ou integrou a produção ou distribuição de narrativas inverídicas ligadas ao presente pleito eleitoral”.

O organismo reiterou igualmente não compor qualquer aparato partidário ou candidatura, ressaltando que seus manifestos públicos no período de sufrágio derivam de preceitos voltados à dignidade do indivíduo, aos valores democráticos, à liberdade de consciência e ao bem-estar coletivo. Conforme a nota, assacar à entidade cumplicidade em redes de propagação de boatos, sem dados concretos e demonstrações cabais, desfavorece a serenidade necessária ao processo democrático.

Semanas antes, em comunicado oficial alusivo à data da Independência, a direção da CNBB havia defendido uma nação “emancipada e soberana, democrática, equânime e fraterna”, pontuando que o exercício do voto deve transcorrer de forma consciente, “imune a manipulações, ilícitos ou instrumentalização do sentimento religioso”.

Religião ganha centralidade no período decisivo da disputa

O episódio relacionado a Allan dos Santos ocorre em um momento no qual o elemento religioso e o pleito presidencial voltam a se entrecruzar com acentuada intensidade. O debate em torno de Nossa Senhora Aparecida mobilizou concorrentes, sacerdotes, lideranças espirituais e apoiadores partidários em uma disputa de narrativas sobre fé, sufrágio e eventual uso político de crenças.

Flávio Bolsonaro sustentou durante agenda pública que indivíduos “pertencentes aos quadros” da CNBB teriam prestado auxílio ao PT na difusão de conteúdo enganoso referente à Padroeira do Brasil. A instituição respondeu rejeitando a ilação, enquanto Dom Vicente emitiu sua própria consideração em redes sociais. Foi precisamente essa mensagem que o comentarista passou a ler e desacreditar na gravação que ganha projeção.

O caso, portanto, transcende uma controvérsia restrita aos quadros da Igreja Católica. Insere-se no cenário político nacional a escassos dias da votação, em um quadro no qual símbolos sagrados são acionados por múltiplos atores da cena pública.

Allan reside nos Estados Unidos e possui mandado de prisão em aberto

Allan dos Santos permanece atualmente em solo norte-americano e figura na condição de foragido perante a Justiça do país. O Supremo Tribunal Federal assinala que sua custódia cautelar foi determinada no ano de 2021 em procedimento investigativo que examina, dentre outros pontos, indícios relativos ao envolvimento em associação criminosa, ilícitos contra a honra, incitamento a práticas delituosas, condutas preconceituosas e ocultação de bens. O investigado nega condutas irregulares e, com o passar dos anos, qualifica os atos judiciais contra sua pessoa como perseguição ideológica.

Em vista desse histórico, revela-se tecnicamente mais adequado jornalisticamente defini-lo como evadido da Justiça brasileira e domiciliado nos Estados Unidos, abstendo-se do emprego da expressão “refugiado”, termo dotado de tipificação jurídica própria e dependente de validação formal por instâncias oficiais.

Mesmo fixado no exterior, Allan preserva constante presença nos meios digitais e prossegue intervindo no cenário político nacional, notadamente em pautas caras ao segmento bolsonarista. Suas contas públicas registram transmissões em tempo real frequentes e envolvimento em conteúdos alinhados ao campo conservador.

Agressões verbais não se equiparam a divergência política ou institucional

O fato traz também ao centro das atenções os limites que separam o contraponto público dos ataques ad hominem. Mostra-se legítimo que agentes políticos, líderes espirituais ou comunicadores divirjam das diretrizes da CNBB, de seus bispos ou de qualquer posicionamento corporativo. Na gravação examinada, todavia, o influenciador não se restringe a combater propostas ou teses partidárias: direciona aos religiosos vocabulário ultrajante relativo à esfera sexual, nomes chulos e insinuações de caráter pessoal.

A enquadramento jurídico de tais declarações, caso venha a ser submetida à apreciação de instâncias legais, demandará avaliação minuciosa por órgãos competentes. O veículo de imprensa não atribui ao evento uma classificação penal específica, restringindo-se a documentar os fatos de acesso público, o ambiente no qual foram gerados e as manifestações das partes envolvidas.

Divergência teve início com controvérsia sobre a Padroeira do Brasil

O estopim imediato dessa escalada reside precipuamente na figura de Nossa Senhora Aparecida, um dos mais expressivos símbolos da fé nacional. A CNBB consagra formalmente Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil e, em manifestações recentes, voltou a rogar proteção ao país sob sua invocação.

Assim que a campanha eleitoral passou a discutir uma suposta articulação para destituir a imagem desse título, o tema religioso converteu-se celeremente em pauta de apelo eleitoral. A entidade católica rechaçou participação na origem do boato; Flávio Bolsonaro acusou figuras vinculadas à instituição; Dom Vicente reagiu; e Allan dos Santos respondeu ao prelado com uma sucessão de investidas pessoais.

Como resultado, na iminência da realização do pleito, uma controvérsia iniciada por meio de uma desinformação acerca da Padroeira do Brasil atingiu diretamente um dos órgãos de maior representatividade da Igreja Católica, um postulante ao cargo máximo do Executivo e um dos nomes mais conhecidos da comunicação ligada ao bolsonarismo.

Direito de resposta

O veículo de imprensa deixa o espaço aberto a Allan dos Santos para prestação de esclarecimentos ou adição de contexto às suas afirmações, estendendo igual prerrogativa a Flávio Bolsonaro, à CNBB e a Dom Vicente Ferreira, caso avaliem ser oportuno manifestar-se sobre o desdobramento dos fatos.

Continua depois da publicidade

comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

🛈 Aviso sobre comentários no Divinews

Os comentários publicados nesta página são de inteira responsabilidade de seus autores. O Divinews Portal de Notícias Ltda não se responsabiliza pelas opiniões, acusações, ofensas ou informações expressas por terceiros.

Comentários que contenham conteúdo difamatório, injurioso, racista, discriminatório, ameaçador ou que incentivem a violência poderão ser removidos sem aviso prévio.

Em caso de requisição judicial, o Divinews fornecerá às autoridades competentes as informações de identificação do usuário, incluindo o endereço de IP da máquina utilizada, conforme prevê a legislação brasileira.

Continua depois da publicidade

artigos  relacionados