Campanha da secretária nacional de finanças do PT recebe R$ 2,8 milhões e declara R$ 1,75 milhão em despesas; gastos com pessoal concentram quase 60%

Candidata a deputada federal e secretária nacional de Finanças e Planejamento do partido declarou R$ 2,857 milhões em receitas; cerca de 61% dos recursos arrecadados já estavam comprometidos com despesas

Publicado por: Geraldo Passos

A campanha de Gleide Andrade (PT), candidata a  deputada federal por Minas Gerais declarou R$ 2.857.510,00 em receitas e R$ 1.750.244,00 em despesas contratadas no levantamento mais recente disponível na prestação de contas eleitoral consultada pelo Divinews. Do total arrecadado, R$ 2.830.500,00 que vieram da Direção Nacional do Partido dos Trabalhadores, valor equivalente a aproximadamente 99,05% das receitas declaradas. Ao cruzar entrada e saída de recursos, a candidatura havia comprometido cerca de 61,25% de tudo o que arrecadou até hoje, 28/9. 

Os números constam de bases que reproduzem os dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral e devem ser lidos como uma fotografia da campanha em andamento. Novas receitas, despesas, pagamentos ou retificações ainda podem alterar os valores até a prestação definitiva das contas.

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O levantamento ganha outro elemento de interesse público porque, além de candidata, Gleide Andrade ocupa a Secretaria Nacional de Finanças e Planejamento do PT e integra a Comissão Executiva Nacional da legenda. A própria página oficial do partido confirma as funções exercidas pela dirigente.

A função partidária, entretanto, não autoriza concluir que Gleide tenha definido individualmente o valor destinado à própria candidatura. Pelas regras do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, os critérios de distribuição dos recursos precisam ser aprovados pela maioria absoluta do órgão de direção executiva nacional de cada partido.

Receita chega a R$ 2,857 milhões

Até o recorte consultado, a candidatura havia declarado R$ 2.857.510,00 em receitas. A principal origem é a Direção Nacional do PT, responsável por R$ 2.830.500,00. O ranking reproduzido a partir dos registros da Justiça Eleitoral também aponta doações de pessoas físicas de R$ 25 mil, R$ 2 mil e R$ 10, que, somadas ao dinheiro proveniente do partido, fecham exatamente os R$ 2.857.510,00 declarados.

Isso significa que apenas R$ 27.010,00, aproximadamente 0,95% da arrecadação registrada, tiveram origem nas demais entradas identificadas no levantamento.

Os R$ 2,830 milhões provenientes da Direção Nacional representam, portanto, praticamente toda a estrutura financeira disponível à candidatura no período analisado.

Despesas contratadas chegam a R$ 1,75 milhão

Do outro lado da prestação de contas aparecem R$ 1.750.244,00 em despesas contratadas. Quando receita e despesas são colocadas lado a lado, o valor contratado corresponde a aproximadamente 61,25% dos R$ 2,857 milhões arrecadados.

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A diferença aritmética entre as receitas declaradas e as despesas contratadas naquele momento era de R$ 1.107.266,00. Esse número, contudo, não deve ser tratado automaticamente como saldo disponível em conta. Ele representa apenas a diferença matemática entre as duas rubricas divulgadas. Para determinar saldo bancário efetivo seria necessário considerar a movimentação financeira completa da candidatura.

Apenas parte das despesas contratadas havia sido paga

Há ainda uma terceira informação importante para interpretar corretamente as contas. Embora a campanha já tivesse contratado R$ 1.750.244,00, os registros indicavam R$ 310.387,50 em despesas efetivamente pagas no recorte consultado.

Isso significa que aproximadamente 17,7% das despesas contratadas haviam sido pagas até aquele momento. Em relação ao total arrecadado, os pagamentos registrados correspondiam a cerca de 10,9% das receitas.

A diferença entre despesas contratadas e despesas pagas alcançava R$ 1.439.856,50. Também nesse caso a comparação precisa ser interpretada com cautela: uma despesa contratada pode ter vencimento ou pagamento posterior e a prestação de contas permanece sujeita a atualização.

Veja como receita e despesa se encontram
Prestação de contas Valor Comparação com a receita
Receitas declaradas R$ 2.857.510,00 100%
Recursos da Direção Nacional do PT R$ 2.830.500,00 99,05%
Outras receitas identificadas R$ 27.010,00 0,95%
Despesas contratadas R$ 1.750.244,00 61,25%
Despesas já pagas R$ 310.387,50 10,86%
Diferença entre receitas e contratos R$ 1.107.266,00 38,75%
Contratado ainda não registrado como pago R$ 1.439.856,50 —

Os cálculos percentuais foram feitos pelo Divinews a partir dos valores declarados na prestação eleitoral. Os números de receita e despesa têm origem nos registros do TSE reproduzidos pelas bases consultadas.

Pessoal consome a maior parcela das despesas

A maior despesa contratada pela candidatura está na rubrica “despesas com pessoal”, que soma R$ 1.039.522,00. O valor representa aproximadamente 59,4% de todos os R$ 1,75 milhão contratados pela campanha.

Quando comparado com toda a receita declarada pela candidatura, somente o gasto contratado com pessoal equivale a aproximadamente 36,4% de tudo o que entrou na campanha.

Esse cruzamento ajuda a dimensionar o peso da estrutura de pessoal dentro do orçamento eleitoral: de cada R$ 100 arrecadados até aquele momento, cerca de R$ 36,40 estavam comprometidos somente com essa categoria. A existência desses gastos, por si só, não significa irregularidade. Trata-se da classificação declarada pela candidatura à Justiça Eleitoral.

Impressos, serviços e impulsionamento vêm na sequência

Depois de pessoal, a campanha registrava R$ 173.636,50 em publicidade por materiais impressos, o equivalente a aproximadamente 9,9% de todas as despesas contratadas. Os serviços prestados por terceiros somavam R$ 126 mil, enquanto o impulsionamento de conteúdos alcançava R$ 100 mil.

Também constavam R$ 97,2 mil em cessão ou locação de veículos, R$ 71.892 em locação ou cessão de imóveis e R$ 42,9 mil em transporte ou deslocamento.

Os registros ainda incluem despesas com advocacia, contabilidade, produção audiovisual, adesivos, jornais e revistas, correspondências e encargos financeiros.

Como os R$ 1,75 milhão foram distribuídos
Categoria Valor contratado
Despesas com pessoal R$ 1.039.522,00
Publicidade por materiais impressos R$ 173.636,50
Serviços prestados por terceiros R$ 126.000,00
Impulsionamento de conteúdos R$ 100.000,00
Cessão ou locação de veículos R$ 97.200,00
Locação ou cessão de imóveis R$ 71.892,00
Transporte ou deslocamento R$ 42.900,00
Serviços advocatícios R$ 30.000,00
Serviços contábeis R$ 30.000,00
Produção de rádio, TV ou vídeo R$ 25.000,00
Publicidade por adesivos R$ 10.108,00
Publicidade em jornais e revistas R$ 2.780,00
Correspondências e despesas postais R$ 1.186,00
Encargos financeiros e taxas R$ 19,50
TOTAL R$ 1.750.244,00

A distribuição acima corresponde à classificação das despesas declaradas pela campanha e reproduzidas a partir da prestação de contas do TSE.

Dinheiro da direção nacional representa 99% da arrecadação

A comparação entre receita e despesa também evidencia o peso financeiro da estrutura nacional do PT na campanha. Dos R$ 2.857.510 arrecadados, R$ 2.830.500 vieram da Direção Nacional do partido. As demais receitas registradas somavam R$ 27.010.

Assim, praticamente R$ 99 de cada R$ 100 declarados como receita tiveram origem na direção partidária. Esse dado deve ser separado de qualquer juízo sobre eventual favorecimento.

A legislação eleitoral estabelece que os partidos definem internamente seus critérios de distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, e esses critérios devem ser aprovados pelo órgão executivo nacional. O TSE informa ainda que essa definição é uma decisão interna das agremiações, observadas as exigências legais relativas, entre outros aspectos, às destinações constitucionalmente protegidas.

Gleide também ocupa Secretaria Nacional de Finanças

O dado chama atenção para a estrutura partidária porque Gleide Andrade não é apenas candidata. O PT a identifica oficialmente como secretária nacional de Finanças e Planejamento, além de integrante da Comissão Executiva Nacional e do Diretório Nacional.

A Secretaria de Finanças é uma das estruturas nacionais responsáveis pelas questões financeiras e de arrecadação partidária. Mas a existência simultânea da candidatura e da função partidária não é suficiente para afirmar que Gleide tenha determinado, aprovado ou escolhido individualmente o montante de R$ 2,830 milhões destinado à própria campanha.

Pelas normas eleitorais, os critérios para a utilização do FEFC devem ser deliberados pela direção executiva nacional. O TSE informa que os partidos somente têm acesso ao fundo depois de aprovarem e apresentarem formalmente esses critérios.

É justamente por essa razão que a questão jornalisticamente relevante para o contraditório não é sugerir uma conclusão, mas perguntar quais critérios concretos levaram ao repasse de R$ 2.830.500 à candidatura, qual instância definiu o montante e se Gleide participou ou se declarou impedida de participar da deliberação referente à própria campanha.

Campanha ainda poderia registrar novas movimentações

A prestação disponível ainda não representa o fechamento definitivo das contas. No recorte consultado, a campanha havia recebido R$ 2,857 milhões, contratado R$ 1,750 milhão e registrado pagamentos de pouco mais de R$ 310 mil.

Como a eleição ainda estava em andamento, novas contratações, pagamentos, receitas e retificações poderiam ser informados à Justiça Eleitoral. Por isso, o Divinews apresenta os valores acompanhados da referência temporal e evita tratar os R$ 1,75 milhão como o custo final da campanha.

A consulta oficial da candidatura pode ser feita diretamente no DivulgaCandContas do TSE. O leitor também pode acompanhar a cobertura política do Divinews, outras reportagens do Divinews e a cobertura eleitoral do portal.

Divinews abre espaço para candidata e direção nacional do PT

O Divinews mantém espaço aberto para manifestação de Gleide Andrade, de sua coordenação de campanha e da Direção Nacional do Partido dos Trabalhadores.

Entre os esclarecimentos que podem ser apresentados estão os critérios adotados para chegar ao repasse de R$ 2.830.500, a instância partidária responsável pela definição do montante, o procedimento adotado no caso da candidatura de uma integrante da própria direção nacional e eventuais atualizações sobre as despesas já contratadas.

Caso a campanha ou o partido encaminhem manifestação, documentos ou correções dos registros, a reportagem será atualizada. Não há, nos dados analisados, elemento suficiente para afirmar irregularidade simplesmente em razão do volume recebido ou das despesas contratadas. A reportagem apresenta a origem das receitas, a destinação declarada dos recursos e a relação matemática entre arrecadação, contratação e pagamento.

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