Uma disputa antiga envolvendo terras terminou em uma cena de violência e terror na manhã deste último domingo (13), na comunidade rural de Rua Grande, no distrito de Santo Antônio dos Campos, conhecido como Ermida, em Divinópolis. Mauro Lúcio, de 75 anos, e duas filhas, Mariana e Kelly, sofreram agressões que a Polícia Militar registrou inicialmente como lesão corporal. Entretanto, o relato das vítimas ao Divinews descreve um episódio ainda mais grave: além de socos, chutes e puxões de cabelo, elas afirmam que Rildo José Jesuino ameaçou matar a família, buscou um machado em uma caminhonete e ergueu a ferramenta na direção de Mariana. Segundo a família, um vizinho entrou na frente e impediu o golpe. Antes ele jogou seu carro contra o idoso que por pouco não o atingiu.
O boletim de ocorrência nº 2026-042448120-001 identifica Rildo José Jesuino como autor da ocorrência e registra Mauro, Mariana e Kelly como vítimas. Além disso, a Polícia Militar classificou inicialmente o fato como lesão corporal consumada. O documento não registra tentativa de homicídio nem menciona o uso do machado. Portanto, eventual mudança da tipificação criminal dependerá da investigação da Polícia Civil e da análise sobre a intenção do agressor durante o episódio. Segundo advogado da família, ele entrará com denúncia criminal como tentativa de homicidio.
Ainda assim, o próprio histórico policial apresenta uma dinâmica considerada violenta pelas testemunhas. Moradores disseram aos militares que Rildo agrediu Mauro e suas duas filhas com socos, chutes e puxões de cabelo. Segundo essas testemunhas, o agressor começou atacando o idoso e, quando Mariana e Kelly tentaram defender o pai, passou a agredi-las também.
Mauro sofreu fraturas e filhas apresentavam marcas das agressões
Quando os policiais chegaram à comunidade, as vítimas já tinham seguido para o Hospital São Judas Tadeu. Por isso, a equipe foi até a unidade hospitalar e encontrou os três ainda com sinais das agressões. Conforme o BO, Mauro estava emocionalmente abalado, chorava e pedia justiça. Já Mariana apresentava uma marca abdominal compatível, segundo o relato policial, com o local onde teria recebido um chute. Kelly, por sua vez, estava com a boca sangrando depois de receber um soco. As duas também disseram que Rildo as arrastou pelos cabelos.
O boletim informa ainda que a avaliação médica apontou três costelas fraturadas em Mauro. Entretanto, a tomografia computadorizada do tórax disponibilizada ao Divinews registra pequenas fraturas alinhadas no 10º e 11º arcos costais esquerdos, portanto duas costelas identificadas nesse exame específico. O laudo também informa ausência de pneumotórax, hemotórax ou outra lesão traumática intratorácica aguda. Como os documentos apresentam números diferentes, o Divinews mantém exatamente aquilo que cada registro informa, sem ampliar ou reduzir artificialmente a gravidade das lesões.
Além disso, o BO afirma que outro homem acompanhava Rildo na caminhonete. Contudo, conforme o registro policial, esse segundo homem não participou diretamente das agressões e permaneceu no local apenas presenciando os fatos. Portanto, até aqui, o documento policial atribui as agressões exclusivamente a Rildo.
Filha relata que agressor teria tentado jogar caminhonete contra o pai
Em um depoimento gravado e entregue ao Divinews, uma das filhas de Mauro apresenta uma sequência ainda mais detalhada dos acontecimentos. Segundo ela, a família já temia um confronto e havia ligado anteriormente para a polícia em busca de orientação. Por isso, parte dos familiares permaneceu inicialmente em uma propriedade vizinha enquanto aguardava a chegada policial.
De acordo com o relato, uma caminhonete cinza subiu pela estrada rural. Quando identificaram Rildo, as mulheres tentaram conversar sobre a derrubada de uma cerca. A filha afirma que ele respondeu que não havia conversa e teria dito que elas veriam o que faria com a família.
Em seguida, segundo a testemunha, Rildo teria movimentado a caminhonete em direção a Mauro, que precisou sair da trajetória. Logo depois, ele teria descido do veículo, retirado a camisa e iniciado as agressões contra o idoso.
“Começou a pegar meu pai de murro”, relata a filha. Na sequência, ela descreve socos, chutes e golpes na cabeça. Quando as duas mulheres tentaram defender Mauro, Rildo teria passado a atacá-las também.
“Ele levantou o machado para dar na Mariana”, relata filha
O ponto mais grave do relato não aparece no boletim inicial da Polícia Militar, mas consta da gravação entregue ao Divinews. Segundo a filha de Mauro, depois das agressões, Rildo teria afirmado que iria matar os três. Em seguida, ele caminhou em direção à caminhonete e buscou um machado.
Nesse momento, segundo a testemunha, Mariana estava caída no chão e Mauro também não conseguia reagir normalmente. Então, ela afirma que Rildo levantou o machado na direção da irmã.
A mulher começou a gritar por socorro. Além disso, tentou levantar Mariana e o próprio pai para que conseguissem fugir. Foi quando um vizinho identificado como Jorge ouviu os pedidos de ajuda e se aproximou.
Segundo ela, o vizinho entrou na frente de Rildo e impediu que ele atingisse Mariana com o machado. Depois disso, as vítimas conseguiram correr até a casa de outro vizinho, identificado como Adão, entraram no imóvel e fecharam o portão.
A filha afirma que acredita que a intervenção do vizinho evitou uma tragédia. “Se não tivesse, ele tinha matado nós”, declarou na gravação. Ela também descreveu o episódio como uma “cena de terror”.
Essas declarações são relevantes para a investigação porque podem ajudar a Polícia Civil a reconstruir a dinâmica do episódio. Entretanto, até o momento, o boletim apresentado ao Divinews mantém a classificação inicial de lesão corporal. Assim, cabe à autoridade policial avaliar se as ameaças relatadas, a suposta busca do machado e o gesto descrito pelas vítimas justificam outra classificação criminal.
Conflito começou muito antes da agressão de domingo
Por trás do episódio existe uma disputa patrimonial antiga.
Segundo o relato prestado ao Divinews, Mauro já possuía uma propriedade na região e, posteriormente, negociou outra área com Rinaldo Henrique Jesuino e Rildo José Jesuino. A filha afirma que os vendedores ainda não tinham formalizado a escritura e que, por isso, Mauro reteve R$ 50 mil do pagamento até que a documentação passasse pelo cartório.
Ela sustenta que o pai somente pagaria o saldo depois de receber a escritura. Segundo a família, a medida buscava garantir que a transferência do imóvel realmente ocorresse.
A filha relata ainda um conflito anterior envolvendo Rildo e afirma que ele teria ido ao escritório de Mauro armado e feito ameaça de morte em razão do saldo que ainda faltava pagar. Segundo ela, a discussão chegou à Justiça e, posteriormente, os vendedores formalizaram a escritura. Após a formalização, Mauro teria pago os R$ 50 mil restantes. O Divinews, porém, não recebeu nesta apuração o boletim antigo nem o processo judicial mencionado, portanto apresenta esse episódio exclusivamente como relato da família.
Escritura confirma negócio com empresa dos irmãos, mas revela pontos que ainda precisam de esclarecimento
O Divinews teve acesso a uma escritura pública lavrada em 13 de março de 2017, no 1º Ofício de Notas de Divinópolis. O documento identifica como vendedora a Amaro Engenharia e Construções Ltda-ME, representada pelos sócios Rinaldo Henrique Jesuino e Rildo José Jesuino. A escritura identifica Rinaldo como engenheiro e Rildo como motorista. Mauro Lúcio da Rocha aparece como comprador.
Entretanto, o documento apresenta uma informação que exige atenção. A escritura descreve a empresa como possuidora, em comum com terceiros, de uma área de 50 hectares, 13 ares e 50 centiares, oriunda de área maior de 61,90 hectares, localizada nos lugares denominados Barragem, Rua Grande e Água Santa.
Já o boletim de ocorrência de domingo registra que Mauro contou aos policiais ter comprado dois hectares de Rildo e do irmão. Portanto, os documentos não permitem concluir, apenas com o material disponível, se esses dois hectares correspondem a uma parcela demarcada dentro da área maior, se houve outro ajuste entre as partes ou se o BO resumiu a situação fundiária.
Também existe diferença na narrativa financeira. A escritura registra R$ 50 mil como preço declarado da transação e afirma que a vendedora já havia recebido o valor. A família, contudo, relata que R$ 50 mil representavam o saldo final de um acordo maior e que Mauro somente entregou esse dinheiro depois da escritura.
Essa divergência não permite, por si só, concluir qualquer irregularidade. Porém, caso a disputa imobiliária avance judicialmente, recibos, contratos particulares, comprovantes de pagamento e a matrícula completa poderão esclarecer a composição financeira da negociação.
Diferença de 8 mil metros quadrados reacendeu disputa
Anos depois, surgiu outro problema.
Segundo a filha de Mauro, ela e a irmã procuraram o Sindicato Rural para analisar possibilidades de utilização da propriedade. Durante uma verificação por georreferenciamento, elas afirmam que perceberam uma diferença de aproximadamente 8 mil metros quadrados entre a área que entendiam ter adquirido e aquilo que aparecia fisicamente delimitado no terreno.
Nesse ponto, os relatos divergem sobre a forma exata como a diferença apareceu. A família afirma que percebeu a inconsistência durante a consulta georreferenciada. Já na conversa mantida com o Divinews, Rinaldo fez referência ao registro do imóvel e a um levantamento topográfico realizado posteriormente.
Tecnicamente, o procedimento que mais se aproxima das descrições é o georreferenciamento acompanhado de levantamento topográfico. O Incra explica que esse processo define forma, dimensão e localização exatas de um imóvel rural. Além disso, quando necessário, planta e memorial descritivo podem subsidiar alterações e regularizações no Registro de Imóveis.
Portanto, não há documentação suficiente para afirmar que “o escrivão descobriu” sozinho a diferença. O material disponível sustenta que a inconsistência surgiu durante procedimentos de conferência territorial e topográfica.
Família afirma que Rinaldo entregou croqui com adequação da área
Segundo o depoimento, as filhas procuraram Rinaldo depois que identificaram a diferença. Inicialmente, ele teria contestado a versão apresentada pela família. Posteriormente, contudo, a filha afirma que Rinaldo encontrou Mauro e lhe entregou um croqui que incorporaria a área que faltava.
A família interpretou o documento como reconhecimento de que poderia cercar aquele trecho. Por isso, instalou uma nova cerca na propriedade.
A crise recomeçou no domingo.
Um vizinho telefonou para a família e informou que um trator havia derrubado a cerca. Além disso, segundo o relato, os mourões retirados do local teriam seguido para uma propriedade vinculada a um homem chamado Reni, apontado pela família como responsável pelo trator.
O BO confirma ao menos parte desse contexto. Mauro informou aos policiais que havia construído a cerca cerca de um mês antes e que soube, na manhã do ataque, que o autor havia derrubado a estrutura com um trator. Além disso, Mauro apresentou aos militares uma escritura e um laudo topográfico com croqui, afirmando que não existia divergência quanto aos limites que defendia.
Retirada dos mourões também deverá ser esclarecida
Familiares afirmam que Reni operou ou disponibilizou o trator e que madeira e mourões retirados da cerca acabaram levados do local. Além disso, a família atribui a ordem para derrubar a estrutura a Rinaldo.
Entretanto, o boletim apresentado ao Divinews não individualiza eventual participação de Reni nem registra crime patrimonial relacionado aos mourões. Por isso, não é juridicamente seguro afirmar neste momento que ocorreu apropriação indébita.
A retirada do material pode integrar a apuração, porém a Polícia Civil precisará esclarecer quem retirou os mourões, quem determinou o serviço, para onde o material seguiu e quem possuía juridicamente aqueles bens.
Rinaldo admite conflito pela cerca e apresenta versão ao Divinews
Na manhã desta segunda-feira (14), o Divinews entrou em contato com Rinaldo Henrique Jesuino. Durante a conversa, Rinaldo afirmou que não estava presente no momento das agressões. Além disso, concentrou grande parte de sua explicação na controvérsia sobre os limites do terreno e na instalação da cerca.
Rinaldo reconheceu que tomou iniciativa relacionada a retirada da cerca, e que alugou um trator de Reni, que trabalha fazendo carvão naquela região para a derrubada da cerca. Some-se ao fato, que Reni, após a retirada dos mourãos de eucaliptos e arames, ele teria levado para si. Em total apropriação indébita.
Ao falar sobre o irmão, Rinaldo não apresentou ao Divinews uma negativa clara de que Rildo tenha participado das agressões descritas pelas vítimas. Em vez disso, buscou contextualizar o episódio a partir da disputa imobiliária.
Rinaldo também mencionou uma suposta condição pessoal de saúde do irmão. O Divinews não teve acesso a qualquer laudo que permita confirmar essa informação e, por isso, não a utiliza como explicação médica para o comportamento atribuído a Rildo. Ainda que comprovada, uma condição dessa natureza não permite ao jornal concluir, sozinho, qualquer relação entre diagnóstico e violência.
A manifestação de Rinaldo, portanto, estabelece duas questões diferentes. Uma envolve a posse, as medidas, os limites e a cerca. A outra envolve aquilo que ocorreu fisicamente no domingo.
A existência de uma discussão fundiária não transforma agressão física em mecanismo legítimo para solucionar conflito patrimonial.
Polícia procurou Rildo depois das agressões
Depois de atender as vítimas no hospital, policiais pesquisaram os dados de Rildo e seguiram até um endereço no bairro Doutor Dulphe Pinto de Aguiar, em Divinópolis. Entretanto, não encontraram ninguém no imóvel.
Vizinhos disseram aos policiais que Rildo mora no endereço, mas também permanece em uma propriedade rural próxima a Perdigão. Por isso, a Polícia Militar registrou que continuaria as diligências para encontrá-lo e prendê-lo em flagrante nas horas seguintes. No documento consultado pelo Divinews, a ocorrência ainda aparece sem prisão. O registro seguiu para a Delegacia de Polícia Civil de Plantão de Divinópolis, responsável pela continuidade da apuração.
Disputa de terra e agressão precisam seguir caminhos separados
Os documentos mostram que existe uma controvérsia real sobre a propriedade e seus limites. Entretanto, eles também demonstram que Mauro apresentou escritura e levantamento topográfico aos policiais. Portanto, qualquer discordância sobre posse, metragem, cerca ou confrontação deverá seguir pelos meios civis, registrais ou judiciais adequados.
Ao mesmo tempo, a Polícia Civil deverá apurar de maneira independente a violência registrada no domingo.
O boletim confirma agressões contra um homem de 75 anos e suas duas filhas. Além disso, registra lesões físicas nas mulheres e fraturas no idoso. Já os depoimentos entregues ao Divinews acrescentam ameaças de morte, tentativa de usar a caminhonete contra Mauro e, sobretudo, o momento em que Rildo teria buscado um machado e levantado a ferramenta contra Mariana.
Se a investigação confirmar esses elementos, caberá à autoridade policial definir sua relevância criminal e eventual enquadramento além da lesão corporal registrada inicialmente.
Para a família, contudo, uma conclusão já está formada. Segundo a filha de Mauro, a intervenção do vizinho evitou que o conflito terminasse de forma muito mais grave. Depois do ataque, ela afirmou que a família já não discute apenas oito mil metros quadrados, cercas ou divisas.






