O primeiro grande debate televisionado pela BAND, da corrida pelo Governo de Minas colocou frente a frente, na noite deste domingo (16), cinco candidatos e deixou muito mais do que propostas para o eleitor analisar. Alexandre Kalil (PDT), Cleitinho Azevedo (Republicanos), Flávio Roscoe (PL), Gabriel Azevedo (MDB) e Mateus Simões (PSD) confrontaram ideias e trajetórias em um encontro marcado por ataques, provocações e diferenças evidentes de estratégia. Kalil esteve no centro dos embates mais duros, principalmente contra Gabriel e Mateus; Cleitinho adotou postura mais conciliadora e protagonizou uma interação incomumente cordial com Gabriel; enquanto Roscoe, empresário que chega à disputa sem a experiência eleitoral dos adversários, teve momentos de hesitação diante das câmeras. Patrus Ananias (PT) foi o único entre os convidados que não participou: sua campanha comunicou a ausência à Band, e o petista cumpriu agenda no lançamento da campanha à reeleição do presidente Lula, em São Bernardo do Campo (SP).
O encontro também revelou uma campanha que promete ser dura. Dívida bilionária de Minas com a União, Propag, Cemig, mineração, feminicídio, segurança pública, rodovias, isenções fiscais, corrupção e funcionalismo estiveram entre os assuntos discutidos. Entretanto, em vários momentos, as propostas dividiram espaço com o confronto direto entre os candidatos. Uma análise publicada após o debate pela Folha também identificou Cleitinho em postura conciliadora, Roscoe mais discreto e Mateus, Kalil e Gabriel em posições mais combativas.
Kalil e Gabriel: o confronto que saiu das propostas e chegou ao terreno pessoal
Um dos momentos mais tensos começou quando Gabriel Azevedo questionou Kalil sobre trabalhadores de aplicativos. Gabriel afirmou ter lido os planos de governo dos adversários e perguntou o que o ex-prefeito pretendia fazer para a categoria. A resposta abriu uma sequência de provocações.
“Gabriel, bom que você leu, porque eu não li, não. Eu li o resumo só”, respondeu Kalil, referindo-se ao próprio plano. Em seguida, rejeitou a afirmação de que teria combatido motoristas de aplicativos durante sua administração em Belo Horizonte e acusou Gabriel de adotar um “ar professoral”.
Gabriel reagiu diretamente ao temperamento do adversário: “Calma, Kalil. Todo mundo sabe aqui que você não consegue se controlar”. Depois acrescentou: “Não sou seu inimigo. Sou aqui só seu adversário”. A discussão prosseguiu até Kalil mencionar a evolução patrimonial de Gabriel, dizendo que ele havia entrado na política com “uma bicicleta” e hoje possuía “bar, carro com motorista”. Gabriel pediu direito de resposta, mas a solicitação foi negada pela organização do debate.
O assunto voltou no último bloco. Gabriel transformou a provocação em introdução para outra pergunta: “De fato, Kalil, meu patrimônio evoluiu de uma bicicleta pra quatro em dez anos. E eu também tenho um bar, porque eu não sou herdeiro e tenho que trabalhar”. Em seguida, direcionou o confronto para ferrovias e transporte.
Kalil e Mateus transformam o debate em confronto entre passado e presente
Se Gabriel foi um dos principais alvos de Kalil, Mateus Simões protagonizou outro eixo de confronto. Logo no primeiro bloco, o atual governador questionou uma declaração atribuída a Kalil em 2022 sobre feminicídio. A resposta veio em tom elevado.
“Uai, Matheus, você está em Nárnia?”, disparou Kalil, antes de atacar a política de segurança do governo e afirmar que faltam policiais no Estado. Mateus rebateu dizendo ser “lamentável que o candidato não consiga segurar as suas próprias palavras” e defendeu as ações estaduais de enfrentamento à violência contra a mulher.
Mais tarde, Kalil levou o confronto para as acusações de corrupção envolvendo o governo estadual. Mateus afirmou que, desde 2019, integrantes do governo envolvidos em investigações são afastados e citou como exemplos episódios relacionados às vacinas e à Operação Rejeito.
A rivalidade entre os dois sintetizou uma das principais disputas narrativas da noite. De um lado, Mateus procurou defender o legado da administração iniciada por Romeu Zema e apresentar continuidade com mudanças; de outro, Kalil buscou responsabilizar o atual grupo político pelos problemas de Minas e contestar a situação fiscal e estrutural apresentada pelo governo.
Cleitinho e Gabriel: adversários, mas sem clima de confronto
Em contraste com os momentos mais ásperos da noite, chamou atenção a dinâmica entre Cleitinho e Gabriel Azevedo. Não se trata de aliança formal e o debate não permite concluir qualquer acordo político entre ambos. No palco, porém, os dois demonstraram uma cordialidade pouco vista nas demais duplas.
Cleitinho escolheu Gabriel para responder sobre a privatização da Cemig e antecipou sua própria posição: empresas deficitárias poderiam ter a privatização discutida, mas ele não via razão para vender uma companhia lucrativa. Gabriel começou sua resposta prestando solidariedade a Cleitinho pela morte do irmão e, posteriormente, afirmou que também não privatizaria a estatal.
Em outro bloco, Cleitinho novamente escolheu Gabriel, desta vez para discutir a apreensão de veículos por falta de pagamento do IPVA. Gabriel respondeu dizendo se identificar com parte do raciocínio apresentado pelo senador e criticou a diferença de tratamento entre grandes empresas beneficiadas por incentivos e pequenos contribuintes.
Mais do que ataques, os encontros entre os dois acabaram permitindo que um desenvolvesse argumentos próximos aos apresentados pelo outro. Jornalisticamente, é possível registrar a sintonia pontual exibida no debate; ir além e classificá-la como parceria política exigiria elementos que o debate, isoladamente, não oferece.
Cleitinho: da mira de Kalil à postura conciliadora
Cleitinho também enfrentou pressão. Kalil questionou diretamente o voto do senador no Propag: “Você aprovou esse Propag. Agora, como é que você está falando? Você não leu? Você aprovou sem ler?”.
Cleitinho respondeu com uma comparação forte: “Eu li, sim, como todos os senadores, mas, infelizmente, o Propag é um mal necessário. É como um câncer que você tem que tomar quimioterapia”. Depois, defendeu diálogo com o governo federal, revisão das isenções fiscais e fiscalização de contratos e da arrecadação estadual.
Na abertura, o senador já havia apresentado a linha que repetiria ao longo da noite: independentemente de quem vencer a eleição presidencial, o futuro governador precisará sentar à mesa para renegociar a dívida mineira. “Qualquer candidato que falar que em quatro anos vai pagar essa dívida vai estar mentindo”, afirmou.
A postura foi significativamente menos agressiva que a de parte dos adversários, justamente em um debate no qual Cleitinho, por sua posição nas pesquisas, poderia ter se transformado no alvo preferencial. A imprensa nacional também registrou esse comportamento mais conciliador do senador.
Roscoe enfrenta o primeiro grande teste diante das câmeras
Flávio Roscoe chegou ao debate em situação diferente. Empresário e presidente da FIEMG, entrou na disputa pelo Palácio Tiradentes sem a experiência eleitoral acumulada por adversários que já exerceram cargos eletivos e participaram de campanhas anteriores.
Sua participação foi mais discreta e, em alguns momentos, marcada por hesitações perceptíveis. Um episódio ocorreu quando Gabriel o questionou sobre mineração e a Serra do Curral. Ao iniciar a resposta olhando para o equipamento errado, Roscoe interrompeu a própria fala: “Desculpa, errei a câmera aqui”, e então retomou o argumento. Defendeu a importância econômica da mineração, disse apoiar a atividade sustentável, condenou empreendimentos irregulares e afirmou que a Serra do Curral deve ser preservada.
É possível descrever esses episódios objetivos de hesitação, mas atribuir a eles “insegurança” ou “nervosismo” como fato seria avançar sobre um estado emocional que não pode ser comprovado apenas pelas imagens. O que ficou visível foi um candidato ainda se adaptando à dinâmica de um debate eleitoral televisionado, mantendo, apesar dos tropeços, o controle das respostas.
Patrus troca debate por palanque com Lula
A cadeira ausente também produziu uma mensagem política. Patrus Ananias foi convidado, representantes do PT participaram das reuniões preparatórias e assinaram as regras, mas sua campanha informou que ele não compareceria. A própria Band lamentou a ausência, afirmando que o candidato deixava de utilizar um espaço para apresentar propostas e discutir Minas.
Patrus optou por estar em São Bernardo do Campo, onde Lula abriu oficialmente sua campanha à reeleição. A decisão associou a largada da candidatura mineira ao principal cabo eleitoral petista, mas teve como contrapartida deixar Patrus fora do primeiro confronto direto entre os principais postulantes ao Governo de Minas.
No fim, cinco estratégias diferentes ficaram expostas
Nas considerações finais, as diferenças permaneceram. Mateus Simões defendeu o legado do governo e prometeu um novo ciclo voltado à renda. Gabriel destacou que compareceu ao debate porque considera esse confronto uma demonstração de respeito ao eleitor e pediu que o público compare planos de governo. Roscoe classificou o debate como “o verdadeiro espetáculo da democracia” e apresentou-se como candidato da direita.
Cleitinho encerrou explorando sua própria biografia. Ao olhar para os adversários, citou professores, empresário, ex-prefeito e resumiu a si mesmo em uma palavra: “verdureiro”. Na sequência, recorreu à frase: “Deus não escolhe o capacitado, ele capacita o escolhido”.
Há, porém, um ponto solicitado pelo Divinews que não aparece na íntegra do debate anexada nem encontrei confirmado nas fontes públicas consultadas até agora: a declaração de Cleitinho, após o programa, de que não participaria de nenhum outro debate. Como se trata de uma afirmação forte e eleitoralmente relevante, eu não a colocaria como fato sem a gravação, entrevista pós-debate ou outra fonte verificável. Se o Divinews possui esse vídeo ou áudio, essa declaração pode inclusive render a manchete principal da matéria, porque muda bastante o peso jornalístico do pós-debate.






