Depois de anos em que encontrar um relacionamento parecia depender de deslizar o dedo sobre uma tela, parte dos solteiros começa a fazer o caminho de volta ao mundo real. Conversas mecânicas, contatos que desaparecem sem explicação, fotografias que nem sempre correspondem à realidade e a possibilidade de mensagens serem produzidas por inteligência artificial aumentaram a desconfiança. Como resposta, eventos presenciais voltados para quem busca namoro e novas amizades começam a ganhar espaço, diz matéria da Folha.
O movimento não significa o fim completo dos aplicativos de relacionamento, que continuam reunindo milhões de pessoas e também podem gerar encontros verdadeiros. Entretanto, sinais de desgaste ficaram mais visíveis, principalmente entre homens e mulheres com mais de 40 anos, que relatam cansaço diante de interações superficiais, excesso de escolhas e dificuldade para transformar conversas digitais em encontros presenciais.
Em vez de longas trocas de mensagens, avaliações rápidas por fotografia e diálogos que frequentemente terminam sem explicação, cresce a procura por experiências nas quais as pessoas possam se conhecer diante umas das outras, observar gestos, ouvir a voz real e perceber se existe conexão.
Quando a conversa parece seguir um roteiro
Uma das reclamações mais comuns de quem utiliza aplicativos está na repetição. As perguntas mudam pouco, as respostas parecem ensaiadas e o diálogo frequentemente começa com entusiasmo, mas desaparece antes de qualquer encontro.
O resultado é a sensação de estar participando de uma entrevista ou preenchendo um formulário, em vez de construir uma conversa espontânea.
A tecnologia tornou mais fácil conhecer pessoas fora dos círculos de convivência, mas também transformou potenciais parceiros em uma sequência quase infinita de perfis. Sempre existe a sensação de que uma opção aparentemente melhor pode aparecer na próxima tela.
Essa lógica favorece escolhas rápidas e reduz o tempo dedicado a conhecer alguém. Uma foto, uma frase mal interpretada ou uma demora na resposta podem ser suficientes para encerrar um contato que, presencialmente, talvez tivesse outra oportunidade.
O universo dos relacionamentos sempre passou por mudanças. Em outra discussão sobre comportamento, o Divinews já mostrou como aplicativos e novas formas de relacionamento também criaram modelos marcados por interesses, expectativas e acordos diferentes dos namoros tradicionais.
A fotografia pode não corresponder à realidade
Outro fator que provoca frustração está nas imagens. Fotografias antigas, excesso de filtros, enquadramentos calculados e edições podem construir uma aparência bastante diferente daquela encontrada no primeiro encontro.
Nem toda pessoa que escolhe sua melhor foto pretende enganar. O problema surge quando o perfil apresenta uma identidade que não corresponde minimamente à realidade.
Essa diferença ultrapassa a aparência física. Informações sobre profissão, idade, estado civil, estilo de vida e intenções também podem ser omitidas ou inventadas.
Perfis falsos são utilizados inclusive em golpes amorosos. Órgãos de proteção ao consumidor alertam que criminosos criam identidades fictícias, desenvolvem vínculos afetivos e, depois de ganhar confiança, apresentam emergências ou oportunidades financeiras para pedir dinheiro.
A recomendação básica é desconfiar de quem evita encontros e chamadas de vídeo repetidamente, cria justificativas constantes para permanecer distante ou introduz assuntos financeiros na relação.
Agora, até a conversa pode ser produzida por IA
A inteligência artificial acrescentou uma nova camada de incerteza ao namoro pela internet. Ferramentas generativas conseguem escrever mensagens naturais, elaborar respostas sedutoras, manter conversas prolongadas e imitar estilos emocionais.
Isso significa que uma resposta aparentemente sensível, divertida ou romântica pode ter sido preparada com auxílio de uma máquina. A tecnologia também pode ser usada para criar ou modificar fotografias, vozes e vídeos.
O FBI informou que fraudadores já utilizam perfis falsos e roteiros produzidos por geradores de inteligência artificial para tornar conversas mais convincentes. Em 2025, golpes de confiança e romance com provável ligação com IA causaram mais de US$ 19 milhões em perdas relatadas nos Estados Unidos.
A Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos também alertou, em fevereiro de 2026, que a inteligência artificial e outras tecnologias podem tornar golpes amorosos mais difíceis de identificar. A orientação inclui verificar fotografias por meio de busca reversa e observar se a pessoa sempre encontra uma razão para não aparecer pessoalmente.
A capacidade de criar conteúdos falsos já influencia diferentes áreas. O Divinews acompanha como a inteligência artificial pode produzir conteúdos enganosos, questão que não fica restrita à política e também alcança situações pessoais e afetivas.
Eventos presenciais transformam paquera em experiência
Nesse cenário, eventos destinados exclusivamente a solteiros começam a ocupar bares, restaurantes, espaços culturais e encontros gastronômicos. A proposta é reunir pessoas que compartilham uma intenção clara: conversar, conhecer alguém e observar se existe afinidade sem depender exclusivamente da intermediação de uma tela.
Há formatos variados. Alguns promovem rodadas curtas de conversas, enquanto outros utilizam jantares, aulas, música, passeios e atividades em grupo para facilitar a aproximação.
Entre pessoas com mais de 40 anos, a busca pelo contato presencial também acompanha uma fase de vida diferente. Muitos saíram de casamentos longos, construíram carreiras, tiveram filhos e já não pretendem dedicar meses a conversas que nunca avançam.
A tendência retratada por eventos de paquera offline mostra que parte desse público deseja recuperar elementos básicos do encontro: espontaneidade, tom de voz, contato visual, humor e comportamento diante de outras pessoas.
O corpo fala antes da mensagem
No ambiente presencial, a pessoa não controla completamente a imagem que transmite. A forma de ouvir, interromper, sorrir, tratar trabalhadores do local e reagir a pequenos imprevistos revela aspectos que dificilmente aparecem em um perfil.
O encontro também permite perceber algo que mensagens não mostram com facilidade: se a conversa flui sem esforço.
Nos aplicativos, uma resposta pode ser revisada, reescrita ou produzida com ajuda tecnológica. Presencialmente, pausas, inseguranças e improvisos fazem parte da interação. Em vez de defeitos, esses elementos podem criar autenticidade.
Relacionamentos construídos no mundo real não são garantia de sucesso. Eles também envolvem frustrações, incompatibilidades e términos. A diferença é que o contato presencial reduz algumas camadas de representação e acelera a percepção sobre quem está do outro lado.
A força da convivência pode ser observada em histórias construídas longe da lógica descartável dos aplicativos. O Divinews já contou a trajetória de Geraldo e Sandra Passos, marcada por parceria pessoal e profissional ao longo dos anos.
Aplicativos não desaparecerão, mas precisarão mudar
Declarar o fim do namoro virtual seria exagero. Muitos casais se conhecem pela internet, formam famílias e constroem relações duradouras.
O que parece chegar ao fim é a ideia de que os aplicativos resolveriam sozinhos as dificuldades de encontrar alguém. A tecnologia ampliou as possibilidades, mas não substituiu a disposição de conversar, demonstrar interesse e assumir vulnerabilidades.
As próprias plataformas tentam estimular encontros reais, aperfeiçoar verificações de identidade e criar ferramentas de segurança. Ainda assim, nenhum recurso elimina completamente perfis falsos, comportamentos abusivos ou pessoas que não deixam claras suas intenções.
A mudança de comportamento mostra que o digital talvez deixe de ser o destino final e volte a funcionar como ponte. O aplicativo pode apresentar duas pessoas, mas será o encontro presencial que mostrará se existe algo além da fotografia.
Segurança continua sendo necessária no encontro presencial
Buscar relações fora dos aplicativos não significa abandonar cuidados. O primeiro encontro deve ocorrer em local público, com familiares ou amigos informados sobre o endereço e o horário.
Também é importante evitar o compartilhamento precoce de informações financeiras, documentos, senhas ou fotografias íntimas. Pessoas conhecidas presencialmente também podem agir de maneira desonesta.
No ambiente digital, pedidos de dinheiro devem ser tratados como um grande sinal de alerta. Promessas de investimentos, emergências médicas, viagens que nunca acontecem e dificuldades financeiras repentinas são estratégias frequentes em golpes amorosos.
A volta ao básico
A moda dos eventos presenciais mostra que a novidade pode estar justamente no que sempre existiu: duas pessoas no mesmo lugar, conversando sem filtros e descobrindo aos poucos se desejam continuar.
Depois de tantas ferramentas criadas para aproximar pessoas, parte dos solteiros percebe que o excesso de tecnologia também pode produzir distância.
Não se trata de escolher entre internet e vida real. Trata-se de entender que um relacionamento precisa, em algum momento, ultrapassar a tela.
Quando a fotografia pode ser alterada, a conversa pode ser automatizada e até a voz pode ser artificial, olhar nos olhos volta a parecer uma tecnologia difícil de substituir.






