O que parecia ser apenas mais uma campanha de arrecadação para ajudar uma criança gravemente doente acabou se transformando em uma investigação complexa que expôs um suposto esquema de falsificação de documentos médicos em Divinópolis. A descoberta partiu de uma denúncia sobre uma vaquinha online e, ao longo dos meses, revelou uma trama que envolve laudos falsos, atestados médicos fraudulentos, possível estelionato e a participação de várias pessoas.
O caso ganhou repercussão após a Polícia Civil de Minas Gerais identificar que a história utilizada para sensibilizar doadores não passava de uma fraude. A criança apresentada na campanha não existia. As fotografias utilizadas para convencer a população foram retiradas de uma reportagem internacional. Além disso, o relatório médico anexado para dar credibilidade ao pedido de ajuda também era falso.
A partir dessa descoberta, os investigadores encontraram indícios de algo muito maior.
Denúncia sobre vaquinha deu início às investigações
Segundo a delegada Adriele, responsável pelo caso, a Polícia Civil tomou conhecimento dos fatos em abril deste ano. Na época, um morador de Divinópolis criou uma campanha na plataforma de arrecadação online e alegou que precisava de ajuda financeira para custear o tratamento de uma suposta filha portadora de uma doença grave.
Conforme a narrativa divulgada na internet, a menina precisava passar por cirurgias e procedimentos médicos de alto custo. Para reforçar a história, o autor da campanha anexou documentos médicos e fotografias da criança.
Inicialmente, o caso poderia passar despercebido. Entretanto, informações recebidas pela Polícia Civil despertaram suspeitas e levaram à abertura de uma investigação.
A partir desse momento, os policiais iniciaram uma série de levantamentos para verificar a autenticidade do material divulgado.
Criança utilizada na campanha nunca existiu
Durante as diligências, os investigadores descobriram que a história apresentada aos possíveis doadores não correspondia à realidade.
De acordo com a delegada, o homem não possuía uma filha com as características descritas na campanha.
Além disso, as fotografias utilizadas para ilustrar a suposta situação de saúde da criança foram retiradas de uma reportagem divulgada nos Estados Unidos.
A fraude, porém, não se limitava às imagens.
Os policiais também identificaram que o relatório médico anexado à campanha continha informações falsas. O documento apresentava nome da criança, diagnóstico clínico, indicação cirúrgica, datas, assinaturas e identificação profissional. Apesar da aparência legítima, a investigação concluiu que o material não possuía autenticidade.
Diante da descoberta, a Polícia Civil ampliou o foco da apuração.
Investigação revelou esquema muito maior
Enquanto aprofundavam as análises, os investigadores perceberam que a falsificação daquele relatório não representava um fato isolado.
Segundo a delegada Adriele, a equipe identificou indícios de que um fisioterapeuta atuava na confecção, comercialização e distribuição de documentos falsificados.
A investigação aponta que ele fornecia documentos médicos utilizados para diferentes finalidades.
Entre elas, a emissão de atestados apresentados por trabalhadores aos empregadores para justificar ausências sem a realização de consultas ou atendimentos médicos.
A descoberta mudou completamente os rumos do inquérito.
Em vez de apenas apurar uma possível fraude relacionada à arrecadação de dinheiro pela internet, a Polícia Civil passou a investigar uma estrutura que pode ter beneficiado diversas pessoas ao longo do tempo.
Prisão preventiva e apreensão de materiais
Com o avanço das investigações, a Justiça autorizou medidas cautelares contra os suspeitos.
Durante a operação realizada em Divinópolis, os policiais cumpriram mandados de busca e apreensão e efetuaram a prisão preventiva do fisioterapeuta investigado.
Além disso, as equipes recolheram materiais que agora passam por análise técnica.
Os investigadores acreditam que o conteúdo apreendido pode ajudar a identificar novos envolvidos, esclarecer a dinâmica do esquema e apontar a quantidade de documentos falsificados produzidos e distribuídos.
Autor da vaquinha segue foragido
Enquanto o fisioterapeuta foi localizado e preso, o homem apontado como responsável pela criação da vaquinha online não foi encontrado.
Segundo a delegada Adriele, quando os policiais chegaram ao endereço vinculado ao investigado para cumprir mandado de busca e apreensão, ele já havia deixado o local.
Atualmente, o suspeito encontra-se em local incerto e não sabido.
Por isso, a Polícia Civil continua realizando diligências para localizá-lo e esclarecer sua participação na fraude.
Outros envolvidos podem ser indiciados
As investigações ainda não chegaram ao fim.
Pelo contrário. A Polícia Civil acredita que outras pessoas podem ter participado do esquema.
Conforme explicou a delegada, os elementos reunidos até o momento apontam para a possível atuação de mais envolvidos, que poderão responder criminalmente pelos fatos após a conclusão do inquérito.
Além da falsificação de documentos, a apuração reúne indícios relacionados ao uso de documentos falsos, falsidade ideológica, estelionato e outros crimes que seguem sob análise.
Dessa forma, novas medidas policiais não estão descartadas.
Trabalho investigativo evitou novas vítimas
A investigação conduzida pela Polícia Civil de Divinópolis não apenas desmontou uma campanha baseada em informações falsas. Ela também impediu que outras pessoas fossem enganadas por documentos que aparentavam legitimidade.
Ao mesmo tempo, o trabalho dos investigadores trouxe à tona uma prática que pode ter provocado prejuízos financeiros, administrativos e trabalhistas.
Agora, os policiais seguem analisando o material apreendido, rastreando possíveis beneficiários dos documentos falsificados e buscando identificar todos os integrantes da suposta rede criminosa.
Enquanto isso, uma certeza já foi estabelecida pela investigação: a criança utilizada para sensibilizar doadores nunca existiu. O que parecia uma história de superação e solidariedade escondia, segundo a Polícia Civil, uma fraude que pode ter ramificações muito maiores do que se imaginava no início das apurações.






