O cenário cultural de Divinópolis ganha um contorno mais rústico e reflexivo durante as próximas semanas. O Espaço GTO, localizado nas dependências da Câmara Municipal, está abrigando a exposição “Arte Primitiva”. A mostra reúne o acervo do artista João Batista da Silva, que escolheu o ecossistema do legislativo local para apresentar suas criações ao público. As obras ficam disponíveis para visitação até o dia 16 de junho, proporcionando aos moradores da região uma oportunidade de contemplar a transformação da matéria-prima bruta em representações cotidianas e históricas.
A essência do projeto reside na total dedicação ao fazer manual. Cada detalhe esculpido carrega a identidade de um processo artesanal rigoroso, longe da pressa que caracteriza a produção contemporânea. As peças, confeccionadas individualmente, convidam o espectador a desacelerar e observar os veios, as nuances e as texturas que a própria rocha oferece.
Raízes folclóricas, vivência familiar e a herança indígena
O norte conceitual que guia as mãos de João Batista está fortemente ancorado nas tradições brasileiras e nas conexões humanas. Os visitantes que caminham pelo segundo andar do prédio público encontram esculturas que retratam recortes afetivos de momentos entre famílias, além de figuras que remetem diretamente às lendas do folclore nacional. Outro pilar fundamental da exposição é a valorização e o respeito à cultura indígena no Brasil, elemento que o autor faz questão de destacar como essencial para a construção da identidade do país.
A jornada do escultor no universo das artes plásticas, no entanto, começou de maneira diferente. Em suas primeiras experiências com o artesanato, ele utilizava a madeira como suporte, esculpindo predominantemente imagens sacras. Com o passar do tempo e a busca por novas formas de expressão, o aposentado refinou suas habilidades e migrou para a pedra sabão. Essa transição permitiu o desenvolvimento de um trabalho mais integrado à estética natural, onde as imperfeições e as características intrínsecas do mineral enriquecem o resultado final.
A geologia como paleta de cores e o clamor pela preservação
Um dos aspectos mais marcantes das peças expostas é a variedade cromática. Como a pedra sabão é um elemento natural, extraído diretamente da terra, cada bloco possui uma composição mineralógica própria que determina sua cor. Desse modo, o público pode notar tonalidades que variam sutilmente, conferindo uma assinatura única e irrepetível para cada obra de arte. O artista explica que a própria natureza atua como sua principal fonte de inspiração e que o processo de criação está diretamente ligado ao sentimento de preservação ambiental.
”As peças que eu trouxe para a exposição têm colorações diferentes justamente por serem feitas com pedras sabão, e cada uma tem cor própria. Eu prezo muito pela preservação da natureza e vejo que esse ambiente me inspira muito a criar novas obras.”
— João Batista da Silva, artista plástico.
Mesmo sendo um visitante assíduo de museus e feiras artísticas em diversas cidades de Minas Gerais, João Batista observa que o mercado e o circuito cultural oferecem pouco espaço para trabalhos que preservam essa estética rústica e manual. De acordo com o escultor, o tempo médio de dedicação para concluir uma única escultura gira em torno de 40 dias. Esse longo período de confecção fundamenta seu argumento de que o artesanato e o trabalho manual brasileiro carecem de maior reconhecimento técnico e financeiro por parte da sociedade.
O reconhecimento em vida e o papel social da arte
Esta é a primeira vez que o artista organiza uma exposição individual para exibir suas produções. A decisão de montar a mostra foi impulsionada por um desejo genuíno e urgente: o de compartilhar o fruto do seu trabalho com a comunidade e receber o retorno dos admiradores no tempo presente. Para o criador, o prestígio e a validação de uma trajetória artística ganham um sentido muito mais profundo quando o autor pode testemunhar o impacto de suas criações nos olhos do público.
A escolha da Câmara Municipal de Divinópolis como abrigo para a “Arte Primitiva” também não foi por acaso. O aposentado relata que a recepção calorosa que sempre encontrou no local pesou na decisão, transformando o espaço político também em um ambiente de democratização do acesso à cultura regional.






