Exclusiva: Versão oficial da Sejusp sobre morte no presidio Floramar é contestada por detentos e familiares

Versão oficial aponta ingestão de droga, mas familiares e fontes ligadas a presos relatam suspeita de agressões e cobram investigação independente pela Comissão de Direitos Humanos da ALMG

Publicado por: Geraldo Passos

Familiares de detentos do Presídio Floramar, em Divinópolis, contestam a versão oficial apresentada pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais sobre a morte de um detento dentro da unidade. Enquanto a Sejusp informou que o preso teria passado mal após ingerir droga durante um tumulto, fontes ouvidas pela reportagem relatam outra versão, marcada por suspeitas de agressões, medo, silêncio e cobrança por investigação independente.

O caso reacendeu uma discussão antiga sobre o sistema prisional, especialmente quando a palavra oficial do Estado se impõe diante do medo das famílias, da fragilidade dos presos e da dificuldade de comprovação dentro dos muros. A morte, por si só, exige resposta. Porém, quando surgem relatos de possível violência, a apuração precisa ir além da nota oficial.

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De acordo com informações divulgadas pela Sejusp, a confusão teria começado durante o horário de visitas. Um visitante teria arremessado uma sacola para dentro de uma cela. Em seguida, policiais penais teriam entrado no local e encontrado um preso tentando ingerir material semelhante à cocaína. Ainda conforme a versão oficial, houve tumulto, arremesso de objetos contra servidores, retirada de visitantes e controle da situação pelos agentes.

Depois disso, segundo a secretaria, o detento teria sido levado para uma cela de triagem, onde passou mal. A equipe de saúde da unidade prestou os primeiros atendimentos, o Samu foi acionado, mas o preso morreu ainda dentro do presídio. A Polícia Civil deve apurar as circunstâncias do óbito.

Essa é a versão oficial. No entanto, familiares e fontes ligadas a detentos relatam outra história. Segundo essas pessoas, presos teriam presenciado agressões contra o detento antes da morte. Uma fonte afirmou à reportagem que o preso não recebia visitas havia muito tempo, porque não teria familiares acompanhando sua rotina dentro da unidade, o que, segundo esse relato, fragilizaria ainda mais a capacidade de contestar a narrativa oficial.

“Eles esconderam, e como somos o lado mais fraco, a versão deles prevalece”, afirmou uma fonte ouvida pela reportagem, sob condição de sigilo.

A reportagem também ouviu pessoas que estavam na porta do presídio no momento em que o corpo deixou a unidade. Esses relatos reforçam a indignação das famílias e a cobrança por uma investigação que não se limite à comunicação institucional. O ponto central não é negar, sem perícia, a possibilidade de ingestão de droga, mas exigir que todas as hipóteses sejam apuradas, inclusive a suspeita de violência praticada dentro da unidade.

Posteriormente, a reportagem conversou com um ex-detento que deixou recentemente o regime fechado. Ele pediu para não ser identificado, por medo de represálias contra pessoas que ainda permanecem presas. Segundo esse ex-detento, há uma divisão entre profissionais que cumprem corretamente suas funções e um grupo menor, mas agressivo, que atuaria com truculência contra presos e familiares.

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O relato dele descreve um ambiente marcado por medo. Em áudios encaminhados à reportagem, familiares e pessoas ligadas aos detentos afirmam que muitos não querem aparecer nem se identificar porque temem castigos dentro da unidade. Uma das falas resume esse clima de pavor: “Se isso vazar para eles que nós estamos fazendo isso, eles que são castigados lá dentro”.

Outra pessoa relatou que uma mulher teria saído de visita íntima muito assustada, após encontrar o marido na enfermaria. Segundo o relato, ele teria sido atendido após sofrer agressões. A reportagem preserva a identidade das fontes, porque a exposição poderia colocar presos e familiares em risco.

Os relatos secundários também apontam suposta maquiagem da unidade em dias de visitas institucionais. Segundo uma fonte, quando há previsão de fiscalização, visita de autoridades ou entidades ligadas a direitos humanos, o ambiente seria preparado previamente, com limpeza, orientação aos presos e comportamento mais cordial. Depois da saída dos visitantes, segundo essa versão, a rotina voltaria a ser marcada por pressão, gás, bomba e desrespeito.

Essas denúncias não podem ser tratadas como verdade definitiva sem apuração formal. Porém, também não podem ser ignoradas apenas porque partem de familiares de presos. O Estado tem o dever de custodiar, mas não tem autorização para humilhar, agredir ou transformar a pena em vingança. A Constituição não suspende a dignidade humana na porta do presídio.

A reportagem também conversou com o diretor da unidade, Veloso. Ao ser informado sobre os relatos, ele afirmou não ter conhecimento concreto de maus-tratos praticados dentro do Presídio Floramar. O diretor declarou que, caso receba informações objetivas e comprovadas, tomará providências contra agentes que descumpram normas. Também afirmou que ficará ainda mais atento daqui em diante.

Veloso concordou que as normas do sistema prisional precisam ser cumpridas, mas dentro do regramento legal e administrativo. A reportagem relatou ao diretor não apenas as denúncias envolvendo detentos, mas também reclamações de familiares durante visitas. Segundo esses relatos, alguns agentes, que não representariam a maioria da categoria, agiriam de forma arbitrária ao dificultar visitas quando “cismam” com determinada pessoa.

Essas condutas, caso confirmadas, ultrapassam o limite da disciplina e entram no campo do abuso. Visita familiar não é favor. É parte essencial da manutenção de vínculos, da estabilidade emocional e do processo mínimo de ressocialização. Quando uma família segue as regras e mesmo assim enfrenta barreiras arbitrárias, o sistema pune também mães, esposas, filhos e parentes que não cometeram crime algum.

A denúncia também atinge outro ponto sensível. Quando agentes arbitrários não recebem advertência, orientação ou punição, eles contaminam o ambiente profissional. O bom servidor passa a conviver com a lógica da truculência. A disciplina, então, perde espaço para o medo. E o medo, dentro de um presídio superlotado, vira combustível para conflitos maiores.

É preciso deixar claro que a atividade dos policiais penais também ocorre sob enorme pressão. A superlotação, a falta de estrutura, o déficit de servidores, o risco constante e a obrigação de manter a ordem em ambientes hostis adoecem profissionais. O sistema coloca servidores e presos em uma engrenagem desumana. Muitas vezes, o agente que entrou para cumprir a lei termina esmagado por uma rotina que também o desumaniza.

Ainda assim, nada justifica violência ilegal. O Estado não pode responder ao caos com barbárie. A função do sistema prisional não é produzir vingança social, mas custodiar com segurança e criar condições mínimas para responsabilização, disciplina e retorno à sociedade. A frase “bandido bom é bandido morto” não cabe em uma democracia. Quem comete crime deve responder na forma da lei, mas continua sendo pessoa humana.

O problema é que o sistema raramente oferece caminho real de recuperação. Celas superlotadas, tensão permanente, pouca oportunidade de estudo, trabalho insuficiente, violência interna e ausência de acompanhamento adequado formam um cenário que empurra muitos presos para uma saída pior do que a entrada. Não há ressocialização possível onde a sobrevivência diária já consome tudo.

Por isso, a morte no Floramar precisa servir de marco. A Sejusp apresentou sua versão. Famílias e fontes internas apresentam outra. Cabe agora às autoridades competentes investigar com profundidade, ouvir presos, preservar imagens, analisar laudos, apurar eventuais lesões, verificar prontuários da enfermaria, confrontar horários, identificar os agentes envolvidos na ocorrência e garantir proteção às testemunhas.

A sociedade não precisa escolher entre defender presos ou defender policiais penais. Precisa defender a verdade, a legalidade e a transparência. Bons profissionais do sistema prisional também têm interesse em separar conduta correta de abuso. Quem trabalha direito não pode carregar o peso de práticas arbitrárias cometidas por uma minoria.

A morte de um detento dentro do Estado exige mais do que nota oficial. Exige perícia, investigação, controle externo e resposta pública. Enquanto familiares continuarem com medo de falar, enquanto presos relatarem agressões sem proteção e enquanto versões divergentes morrerem na porta da cadeia, a pergunta permanecerá aberta. O que de fato aconteceu dentro do Presídio Floramar?

 

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