A celebração de Corpus Christi em Brasília trouxe uma reflexão que ultrapassou os limites da fé e alcançou um dos temas mais sensíveis da sociedade brasileira: a polarização política. Durante a Santa Missa realizada na tarde desta quinta-feira (04), o arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar Costa, fez um apelo pela convivência respeitosa entre pessoas com opiniões diferentes e criticou o crescimento do ódio motivado por divergências políticas.
Diante de milhares de fiéis reunidos para uma das mais importantes celebrações da Igreja Católica, o cardeal afirmou que muitos cristãos participam da Eucaristia, mas continuam cultivando sentimentos de hostilidade contra aqueles que possuem posicionamentos políticos diferentes.
Segundo Dom Paulo Cezar, a sociedade brasileira vive um momento marcado pela pluralidade de ideias, opiniões e visões de mundo. No entanto, essa diversidade, que deveria representar riqueza e fortalecimento da democracia, muitas vezes acaba sendo transformada em motivo para conflitos, agressões e rupturas familiares e sociais.
“Estamos vivendo uma sociedade pluralizada, mas comungamos a eucaristia e continuamos a odiar aquele e aquela que pensa diferente de mim ou que tem uma opção política diferente”, afirmou o cardeal durante a homilia.
Fé e política não devem caminhar pelo ódio
Ao longo da celebração, o arcebispo destacou que a fé cristã exige atitudes diferentes das observadas frequentemente nos debates políticos contemporâneos. Para ele, discordar faz parte da vida em sociedade, mas a divergência não pode se transformar em intolerância.
O religioso ressaltou que pensar diferente não representa uma ameaça, mas uma oportunidade de crescimento coletivo. Segundo sua avaliação, o diálogo e o respeito são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e equilibrada.
Dom Paulo Cezar também alertou que a prática religiosa perde sentido quando não produz frutos concretos de fraternidade e respeito ao próximo.
“O homem e a mulher de fé, que vive de eucaristia, não podem ter essas mesmas atitudes, mesmo que seja um político”, declarou.
Mensagem ganha força em meio à polarização nacional
As declarações acontecem em um momento em que o Brasil continua convivendo com um ambiente político marcado por fortes divisões ideológicas. Nos últimos anos, discussões políticas passaram a ocupar espaço cada vez maior nas redes sociais, nos ambientes familiares e até mesmo em comunidades religiosas.
Especialistas apontam que a polarização tem contribuído para o aumento da intolerância, da disseminação de discursos agressivos e da dificuldade de diálogo entre grupos que pensam de forma diferente.
Sem citar partidos ou lideranças específicas, o cardeal direcionou sua mensagem à necessidade de superar o clima de hostilidade que tem marcado parte do debate público.
Corpus Christi e o chamado à comunhão
Ao relacionar a mensagem de Corpus Christi com a realidade atual, Dom Paulo Cezar lembrou que a Eucaristia simboliza comunhão, unidade e fraternidade entre os cristãos.
Para o arcebispo, é possível discordar, defender ideias distintas e participar ativamente da vida política sem transformar adversários em inimigos.
“A eucaristia é mistério de comunhão, onde é possível pensar diferente e discordar. Mas não posso odiar ou desejar o mal para aquele ou aquela que pensa diferente de mim ou que têm posturas políticas diferentes das minhas”, afirmou.
A mensagem repercutiu entre os fiéis presentes e reforçou um apelo recorrente da Igreja Católica para que a política seja instrumento de construção do bem comum, e não motivo para divisão, rancor ou violência entre as pessoas






