Janete fala ao Divinews, denuncia violência política de gênero e poupa Gleidson na crise do Diviprev

Prefeita retornou ao plenarinho após coletiva, falou com exclusividade ao Divinews, afirmou sofrer violência política de gênero e evitou criticar Gleidson Azevedo

Publicado por: Geraldo Passos

A prefeita de Divinópolis, Janete Aparecida, concedeu entrevista exclusiva ao Divinews após o encerramento da audiência pública realizada na Câmara Municipal para discutir as mudanças no Diviprev. A chefe do Executivo já havia falado em coletiva com outros veículos de comunicação, mas, mesmo após se dirigir à sala da Presidência da Câmara, retornou ao plenarinho e aceitou responder ao Divinews, na presença de secretários e assessores.

A entrevista ocorreu em um dos momentos mais tensos da crise previdenciária que envolve o governo municipal, servidores públicos, sindicatos e vereadores. Durante a audiência, servidores cobraram a retirada do projeto, recusaram explicações do superintendente do Diviprev, Agnaldo Lages, e mantiveram a mobilização que pode levar a categoria à greve.

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Na conversa com o Divinews, Janete não se esquivou da pergunta mais delicada feita pelo editor do portal: a responsabilidade solidária do ex-prefeito Gleidson Azevedo no quadro atual do Diviprev, já que a prefeita foi vice durante a gestão dele e assumiu o comando do município apenas após sua saída, no fim de março, para disputar uma vaga na Câmara Federal.

Mesmo diante da provocação, Janete poupou Gleidson de qualquer crítica direta. Disse que não falaria sobre o ex-prefeito e preferiu concentrar sua resposta naquilo que classificou como violência política de gênero sofrida durante a audiência.

Janete diz ter sido alvo de violência política de gênero

Logo no início da entrevista, a prefeita afirmou que o que se viu na Câmara foi uma violência de gênero contra uma mulher na política.

Segundo Janete, parte das manifestações colocou em xeque sua condição legítima de prefeita da cidade. Ela rejeitou expressões que a tratem como “prefeita em exercício” ou como se estivesse ocupando o cargo de forma secundária.

A chefe do Executivo lembrou que ninguém se elege em chapa majoritária sem vice, seja para Prefeitura, Governo do Estado ou Presidência da República. Para Janete, questionar essa condição contribui para a desigualdade e para a violência política contra mulheres.

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A fala abriu uma nova frente no debate. A crise do Diviprev já era previdenciária, administrativa, sindical e política. Agora, com a declaração da prefeita, passa também pelo tratamento dado a uma mulher que assumiu o comando do Executivo e enfrenta, sozinha, a pressão pública sobre um problema herdado de uma gestão da qual participou como vice.

Prefeita poupa Gleidson após pergunta direta

O Divinews perguntou a Janete sobre o fato de os servidores terem concentrado críticas contra ela durante a audiência, enquanto praticamente pouparam o ex-prefeito Gleidson Azevedo.

A pergunta levou em consideração que Gleidson governou Divinópolis por quase 6 anos, período em que o Diviprev também esteve sob a estrutura administrativa municipal. Além disso, secretários e nomes ligados à área financeira e previdenciária permaneceram no governo.

Janete, porém, não atacou o ex-prefeito. Respondeu que não falaria sobre Gleidson e passou a tratar da violência política de gênero, da legitimidade de seu mandato e da necessidade da reforma.

Essa postura chama atenção. Mesmo pressionada pelos servidores e diante de uma pergunta que poderia abrir espaço para transferir parte da responsabilidade ao governo anterior, Janete preferiu não fazer acusação nominal contra seu antecessor.

Na prática, a prefeita assumiu o desgaste político do projeto, ainda que tenha dito que “quem veio atrás” dela não teve coragem de fazer no tempo certo.

“Não estou fazendo por vaidade, estou fazendo por necessidade”

Janete afirmou que não colocou o projeto em discussão por vaidade.

Segundo a prefeita, a medida coloca em risco inclusive seu futuro político, mas, na avaliação dela, tornou-se necessária diante da situação financeira da cidade e do Diviprev.

A chefe do Executivo disse que, se retirar o projeto, não conseguirá pagar salários a partir de setembro.

Para Janete, a decisão é dura, impopular e dolorosa, mas seria indispensável para evitar um problema maior no futuro. Ela também afirmou que, caso a reforma não avance, a greve pode até ser evitada agora, mas o conflito retornaria em outubro, quando, segundo ela, o município poderia não conseguir honrar a folha de pagamento.

Prefeita diferencia dinheiro de obra e dinheiro de folha

Um dos pontos centrais da entrevista foi Janete de diferenciar recursos disponíveis para obras e convênios do dinheiro livre para custeio e folha de pagamento.

A prefeita afirmou que há cerca de R$ 190 milhões vinculados a obras, como postos de saúde, praças esportivas, calçamento, asfalto e empréstimos destinados a finalidades específicas. Segundo ela, esse dinheiro é “carimbado” e não pode ser usado para pagar salários ou cobrir despesas do Diviprev.

Janete disse que ninguém nega a existência desses recursos. O problema, segundo ela, é que eles não resolvem a folha de pagamento, que gira em torno de R$ 34 milhões mensais.

A prefeita sustentou que, mesmo que fosse possível usar todo esse dinheiro em servidores, o valor não garantiria sequer 6 meses de pagamento. Além disso, afirmou que a legislação impede o uso de empréstimo ou recurso vinculado a obras para cobrir folha salarial ou previdência.

Janete afirma que consegue pagar servidores até setembro

A chefe do Executivo foi direta ao tratar do prazo que considera limite.

Segundo Janete, a Prefeitura consegue pagar as contas e manter os salários dos servidores até setembro. Depois disso, sem a reforma, afirmou que não conseguirá.

Essa declaração reforça o argumento central do governo: a proposta do Diviprev seria uma tentativa de evitar colapso financeiro e preservar a capacidade de pagamento do município.

A prefeita também citou impactos em áreas sensíveis da gestão. Disse que não contratou leitos no Complexo de Saúde São João de Deus, como ocorria em outros anos, porque o custo seria de R$ 2 milhões e o município não teria esse recurso disponível.

Janete afirmou ainda que conseguiu R$ 600 mil para ampliar atendimento pediátrico na UPA diante do aumento de casos de síndrome respiratória aguda grave, enquanto aguarda o início do recebimento de pacientes pelo hospital.

Aposentados e desconto acima de R$ 5 mil

Janete também defendeu a regra proposta para aposentados.

Segundo ela, aposentados que recebem até R$ 5 mil não teriam desconto. Quem recebe entre R$ 5 mil e R$ 8,4 mil pagaria contribuição apenas sobre a parte que ultrapassa os R$ 5 mil.

A prefeita argumentou que quem recebe mais deve contribuir mais. Citou que salários mais altos já possuem descontos maiores e afirmou que seu próprio salário também sofre desconto elevado.

Para Janete, a proposta busca justiça ao preservar quem recebe menos e cobrar contribuição maior de quem possui renda mais alta.

Esse ponto, entretanto, é um dos mais rejeitados pelos servidores. Durante a audiência, aposentados e pensionistas afirmaram que já contribuíram durante toda a vida funcional e não aceitam nova cobrança como solução para o déficit previdenciário.

Idade mínima e comparação com o regime geral

A prefeita também defendeu as mudanças relacionadas à idade.

Segundo Janete, a proposta municipal ainda seria mais favorável que regras aplicadas no Estado em alguns casos, especialmente para professores.

Ela afirmou que, no Estado, a professora se aposenta aos 57 anos, enquanto a regra municipal ficaria em 55. Para professores, citou 62 anos no Estado e 60 no município.

Janete também comparou a situação dos servidores municipais com a população em geral, lembrando que a maior parte dos trabalhadores de Divinópolis segue regras do regime geral.

A prefeita afirmou que, se a reforma não ocorrer e o Diviprev quebrar, os próprios servidores poderão ser levados ao regime geral. Segundo ela, nesse cenário, sua gestão seria ainda mais criticada.

História humilde emociona Janete

Ao final da entrevista, Janete se emocionou ao falar da própria trajetória.

Durante a audiência, servidores haviam citado sua origem humilde e questionado se ela conheceria, de fato, a realidade de quem trabalha na ponta. A prefeita reagiu lembrando que trabalhou como babá desde os 11 anos e que seus antigos patrões são conhecidos na cidade.

Janete afirmou que pagou a faculdade com o próprio salário e que tinha apenas 1 sapato. Contou ainda que precisava pegar ônibus às 23h15 e que, se perdesse o horário, teria que voltar a pé.

A prefeita relatou também ter trabalhado como repositora de iogurte e usado boné na faculdade de Direito, porque a marca ficava no cabelo ao retirar o acessório após o expediente.

Ao relembrar essa trajetória, Janete ficou com lágrimas nos olhos. Disse que só ela sabe o quanto a decisão de encaminhar o projeto está doendo e o quanto tem apanhado politicamente por isso.

Entrevista termina com pedido de desculpas pelo tom

No encerramento, Janete agradeceu a oportunidade de falar ao Divinews e pediu desculpas pelo tom.

A prefeita afirmou que seguirá firme, com fé em Deus, e reforçou que pretende agir como gestora séria, mesmo diante de medidas impopulares.

A entrevista terminou com uma imagem humana e politicamente forte: uma prefeita pressionada por servidores, cobrada por sindicatos, questionada sobre o antecessor que preferiu poupar e visivelmente emocionada ao falar da própria história.

Crise do Diviprev isola Janete no centro da pressão

A entrevista exclusiva ao Divinews ajuda a compreender o tamanho da crise.

Janete defende que o projeto é necessário para evitar atraso salarial e colapso do Diviprev. Os servidores afirmam que a proposta retira direitos, foi construída sem diálogo suficiente e impõe sacrifício à categoria. A Câmara tenta administrar pressão de todos os lados. E Gleidson Azevedo, embora tenha comandado o município por quase 6 anos, segue menos exposto nos protestos.

A prefeita poderia ter usado a entrevista para dividir publicamente a responsabilidade com o ex-prefeito. Não fez isso.

Preferiu falar de violência política de gênero, da legitimidade de seu mandato, dos números da Prefeitura e da necessidade da reforma.

Esse silêncio sobre Gleidson talvez diga tanto quanto uma crítica direta. Janete segue tentando sustentar a crise sem romper completamente com o passado político que a levou ao cargo.

Mas, depois da audiência e da entrevista ao Divinews, ficou evidente que o Diviprev virou o maior teste de sua gestão.

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