A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República passou a enfrentar um novo teste político, agora ligado ao financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo revelações publicadas a partir de mensagens atribuídas ao senador, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, teria pagado R$ 61 milhões para a produção, enquanto Flávio teria pedido novos repasses para concluir o projeto. O episódio adiciona mais uma camada a uma trajetória pública já marcada por controvérsias envolvendo o caso Queiroz, suspeitas de rachadinha, loja de chocolates, transações imobiliárias e, agora, cinema político.
A sucessão presidencial de 2026 ainda se organiza, mas a vida pregressa dos pré-candidatos já entrou no centro do debate público. No caso de Flávio Bolsonaro, o novo episódio não surge em terreno neutro. Ele aparece sobre um histórico político atravessado por investigações, suspeitas, explicações públicas e arquivamentos judiciais que nunca apagaram totalmente o desgaste de imagem.
O senador nega irregularidade. Em manifestação citada pela Associated Press, Flávio afirmou que o caso envolve a busca de patrocínio privado para um filme privado sobre a história do pai, sem uso de dinheiro público, sem oferta de vantagem indevida e sem recebimento pessoal de recursos. A mesma reportagem registrou que o senador havia negado ligação com Vorcaro antes da divulgação das mensagens, embora os áudios indiquem contato direto entre eles.
Filme sobre Jair Bolsonaro vira novo problema político
O caso mais recente envolve o filme “The Dark Horse”, produção internacional sobre Jair Bolsonaro. Segundo reportagem da Associated Press, mensagens de voz divulgadas pelo Intercept Brasil mostram Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar a obra, com valor inicial de R$ 61 milhões e novas cobranças posteriores para concluir o filme.
O Intercept Brasil informou que as mensagens obtidas abrangem o período entre dezembro de 2024 e novembro de 2025 e indicam uma relação que teria evoluído de intermediários para interlocução direta entre Flávio e Vorcaro. A publicação também afirma que cruzou dados dos diálogos com informações públicas e sigilosas para verificar o material.
A dimensão política aumenta porque Daniel Vorcaro se tornou personagem central do escândalo envolvendo o Banco Master. Segundo a Associated Press, a Polícia Federal estima fraude de aproximadamente R$ 12 bilhões no caso, ainda sob investigação. Vorcaro negações e responsabilizações seguem dentro do processo legal, mas sua condição de investigado e preso torna o contato político ainda mais explosivo.
Flávio produtor de filme em plena pré-campanha
A novidade não está apenas no dinheiro. Está também no momento. Flávio Bolsonaro aparece como pré-candidato ao Palácio do Planalto, enquanto articula palanques estaduais e tenta se apresentar como herdeiro político direto do bolsonarismo.
Nesse contexto, a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro, pensado para ganhar visibilidade no ambiente eleitoral, ultrapassa o campo cultural. A obra passa a integrar a disputa de narrativa, memória e propaganda política em torno do ex-presidente.
A Associated Press registrou que Flávio pretendia lançar o filme na reta final da campanha presidencial. Também informou que, em mensagens de voz, o senador mencionou preocupação com pagamentos atrasados e citou nomes do cinema internacional envolvidos no projeto.
O efeito político é inevitável: se antes Flávio carregava apelidos e controvérsias ligados à rachadinha, aos chocolates e aos imóveis, agora também passa a responder ao rótulo público de articulador de um filme milionário sobre o próprio pai.
O fantasma da rachadinha
O caso Queiroz foi o primeiro grande desgaste nacional envolvendo Flávio Bolsonaro. A crise começou após relatório do Coaf apontar movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A partir desse episódio, o termo “rachadinha” passou a acompanhar o senador no debate público. A suspeita envolvia a prática de recolhimento de parte dos salários de assessores parlamentares, modelo investigado em gabinetes legislativos.
É importante registrar que o caso teve desdobramentos judiciais relevantes. A Reuters, em checagem publicada em 2024, lembrou que o STJ anulou decisões de quebra de sigilo bancário de Flávio, que o STF impôs limites a relatórios do Coaf sem investigação formal e que a Justiça fluminense arquivou investigações após tentativa do MP-RJ de reabri-las.
Ou seja, do ponto de vista jurídico, parte relevante das apurações perdeu sustentação processual. Do ponto de vista político, porém, o desgaste permaneceu. Esse é o ponto central: arquivamentos e nulidades podem encerrar caminhos judiciais, mas nem sempre encerram a memória eleitoral.
Flávio do chocolate
Outro capítulo da trajetória pública de Flávio Bolsonaro envolve a franquia da Kopenhagen da qual o senador foi sócio no Rio de Janeiro. O tema ganhou força dentro das suspeitas relacionadas ao caso Queiroz, especialmente por causa de questionamentos sobre depósitos e movimentações financeiras.
Reportagens da época registraram que Flávio era sócio de uma loja de chocolates desde 2015 e que seu patrimônio imobiliário havia sido formado antes de sua atuação empresarial declarada ganhar maior peso.
A referência à loja de chocolates virou marca política dos adversários. Daí surgiu o rótulo “Flávio do Chocolate”, usado de forma crítica para associar o senador a explicações consideradas insuficientes por opositores sobre sua evolução patrimonial.
Aqui também cabe cautela: o uso do apelido pertence ao campo do debate político e da crítica pública, não a uma condenação judicial definitiva. Ainda assim, ele compõe a memória de desgaste que volta à tona sempre que surge uma nova controvérsia envolvendo o senador.
Flávio dos imóveis
As transações imobiliárias também ocupam lugar central no histórico de questionamentos. Reportagens anteriores apontaram que investigações sobre Flávio alcançaram dezenas de imóveis, dentro do contexto de apurações sobre evolução patrimonial e movimentações financeiras.
O tema ganhou força porque imóveis costumam aparecer em investigações financeiras como possível instrumento de ocultação, valorização patrimonial ou circulação de recursos. No caso de Flávio, o assunto se somou à loja de chocolates e ao caso Queiroz na construção de uma narrativa de suspeitas sobre patrimônio.
Reportagem do El País, ainda em 2019, já tratava das transações entre Flávio Bolsonaro e Queiroz, inclusive com referência a pagamento apontado em documentos do Coaf e explicações do senador sobre quitação de imóvel.
Mais uma vez, a questão política se diferencia da questão judicial. O eleitor olha para o conjunto de episódios. A Justiça analisa provas, nulidades, competências e limites processuais. Já a opinião pública costuma somar camadas de desgaste.
Agora, Flávio do filme
Com o novo caso, surge outro elemento narrativo: Flávio como articulador de uma produção audiovisual milionária sobre Jair Bolsonaro.
A reportagem da Associated Press informa que o senador confirmou ter pedido dinheiro a Vorcaro, mas negou irregularidade, afirmando tratar-se de patrocínio privado para filme privado. O problema político está no contraste entre o pedido milionário, o momento eleitoral e o perfil do financiador, ligado ao Banco Master e alvo de investigações.
O Intercept Brasil afirma que as conversas indicam proximidade operacional e cobrança por pagamentos, inclusive com participação de intermediários e referências ao andamento da produção.
Assim, o episódio entra na galeria de controvérsias que cercam Flávio Bolsonaro. Primeiro, o caso Queiroz e a rachadinha. Depois, a loja de chocolates. Em seguida, os imóveis. Agora, o filme milionário sobre o pai, financiado por um banqueiro investigado.
Pré-candidato ao Brasil sob pressão
Flávio Bolsonaro quer disputar a Presidência da República. Essa ambição muda o peso de cada episódio. O que poderia ser tratado como uma controvérsia isolada ganha dimensão nacional porque envolve alguém que pretende comandar o país.
Em uma eleição presidencial, passado, alianças, financiadores, patrimônio, explicações públicas e coerência política entram no debate. O eleitor cobra mais do que discurso. Cobra histórico, transparência e capacidade de resistir ao escrutínio público.
O senador tem direito à defesa, à presunção de inocência e à apresentação de suas versões. Ao mesmo tempo, a imprensa tem o dever de noticiar fatos de interesse público, sobretudo quando envolvem pré-candidatos, cifras milionárias e personagens investigados.
O novo caso não define sozinho o destino político de Flávio. Mas certamente amplia a pressão sobre sua pré-candidatura. A pergunta que fica é direta: alguém que pretende governar o Brasil conseguirá convencer o eleitor de que tantos episódios sucessivos são apenas ruído político?






