Entrevista Divinews: Janete, prefeita de Divinópolis, abre o jogo sobre crises, servidores, lixo, tarifa e corrupção

Primeira mulher a comandar Divinópolis é o centro do debate político em entrevista marcada por respostas assertivas sobre transporte, servidores, corrupção e decisões impopulares

Publicado por: Geraldo Passos

Após mais de 5 anos sem entrevistar um integrante do Executivo municipal, o Divinews voltou a abrir espaço para uma conversa direta com quem hoje ocupa o centro das decisões em Divinópolis. E a entrevista não passou longe dos temas espinhosos. Janete Aparecida Silva, primeira mulher a assumir a Prefeitura da cidade, falou sobre tarifa de ônibus, greve, lixão, reajuste de servidores, ponte, finanças, serviço funerário, mecânica da Prefeitura e combate à corrupção, em uma fala longa, política e carregada de recados.

Janete abriu a entrevista destacando o peso histórico de ter se tornado a primeira mulher prefeita de Divinópolis. Disse que nunca sonhou com o cargo quando criança, mas afirmou que desde cedo carregava o desejo de atuar pela justiça social. Para a prefeita, o fato de entrar para a história como a primeira mulher no posto amplia sua responsabilidade e exige dedicação integral para entregar resultados à cidade.

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Na conversa, Janete também relembrou a passagem pela Câmara e citou projetos que considera marcantes. Entre eles, destacou o Família Acolhedora, voltado ao acolhimento de crianças fora do ambiente familiar, a defesa do Conselho da Mulher e a lei da violência obstétrica, apontada por ela como pioneira ao garantir proteção e dignidade às mulheres no parto. O resgate desse passado serviu para reforçar a imagem que ela tentou sustentar durante toda a entrevista, a de uma gestora com trajetória política própria e atuação anterior ao cargo máximo do município.

Ao recordar como chegou à chapa majoritária, Janete contou que foi recusada por 3 partidos antes de receber apoio de Cleitinho para disputar vaga de vereadora. Depois, segundo relatou, recebeu de Gleidson o convite para ser vice, em uma construção que, segundo ela, teve influência direta da confiança pessoal e política estabelecida naquele momento. O relato serviu de base para um dos pontos mais delicados da entrevista, a tentativa de explicar até onde ia sua participação no governo anterior e onde começava a responsabilidade direta do então prefeito.

Quando o assunto entrou no terreno mais sensível, Janete procurou separar a figura da vice atuante da autoridade final do prefeito. Disse que participou da gestão, acompanhou decisões, deu respostas à imprensa e exerceu funções de governo, mas reforçou que a palavra final sempre foi do então chefe do Executivo. A afirmação teve alvo claro, responder à percepção de parte da população de que ela teria herdado, de si mesma, problemas que já conhecia de perto.

“Eu participei da gestão, mas a decisão final sempre foi do prefeito. Agora, como prefeita, há escolhas que são minhas, difíceis, impopulares e intransferíveis.”

A fala ganhou força quando Janete entrou no tema mais explosivo da entrevista, o reajuste da tarifa do transporte coletivo. Ela assumiu integralmente a decisão de elevar o valor da passagem e afirmou que não jogaria essa escolha nas costas de ninguém. Segundo a prefeita, a Prefeitura não tinha mais capacidade financeira para ampliar o repasse à empresa e a proposta apresentada pela concessionária aumentaria ainda mais o peso sobre os cofres públicos. Janete afirmou que herdou um acordo que previa pagamentos parcelados para sustentar o congelamento tarifário, mas que a nova exigência da empresa tornou a manutenção do modelo inviável.

Na avaliação da prefeita, o congelamento adotado nos últimos anos teve lógica naquele contexto, principalmente para aliviar o impacto econômico sobre empresas e trabalhadores após a pandemia. Mesmo assim, reconheceu que o modelo se esgotou. Ao defender a medida, disse que conseguiu conter a tarifa em R$ 5,50 no cartão, abaixo do valor que poderia ser praticado, e repetiu que ninguém ficou feliz com o reajuste, inclusive ela própria. Ao mesmo tempo, deixou claro que o município não tinha como bancar a diferença sem comprometer outras áreas.

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Janete também tratou da crise no aterro controlado, chamado pela população de lixão, e admitiu que o município enfrenta uma encruzilhada. Disse que a cidade não participará mais de consórcio com recebimento de resíduos de fora e afirmou que, diante da resistência da população, não existe hoje outro local viável além da área atual para receber a futura modelagem de tratamento. Segundo ela, o quilombo está fora de cogitação. A prefeita afirmou que trabalha para retirar a lógica de lixão e implantar uma usina de tratamento, mas reconheceu que isso exigirá diálogo duro com moradores do entorno e soluções que não agradarão a todos.

Na mesma linha, Janete falou sobre o reajuste dos servidores e adotou um discurso de realismo fiscal. Disse que concedeu o índice que considerou possível, 4,56%, e afirmou que dar um aumento maior, embora desejável, seria uma irresponsabilidade diante do impacto nas contas públicas. Ela citou, inclusive, o peso sobre repasses ao Diviprev e sobre o custeio de serviços essenciais. Também sinalizou possibilidade de rever vale-alimentação e diárias de motoristas, desde que encontre espaço financeiro para isso.

Outra parte tensa da entrevista surgiu quando Janete respondeu às críticas de alguns servidores sobre seu estilo de liderança. Em vez de suavizar a imagem, ela dobrou a aposta. Disse que não pretende se tornar uma líder permissiva, porque não vai passar a mão na cabeça de quem não entrega resultado. Ao mesmo tempo, elogiou a maior parte do funcionalismo, afirmando que mais de 80% dos servidores a apoiam e que a grande maioria trabalha duro. A crítica, segundo ela, mira uma minoria que resiste a mudanças, busca vantagens indevidas ou não quer contribuir com a melhoria da máquina pública.

“Janete avisou que não será a líder bonzinha. Disse que vai manter diálogo, mas prometeu enfrentar privilégios, corrigir desvios e cobrar resultado de quem não entrega.”

No campo financeiro, a prefeita rebateu diretamente a narrativa de que teria herdado um caixa folgado. Ela explicou que não havia dinheiro livre sobrando na chamada fonte 500, que representa a arrecadação própria do município, como IPTU, ISS e outros tributos correntes. Segundo Janete, o que existia eram recursos vinculados, muitos deles destinados a obras ou provenientes de negociações específicas, como a feita com a Copasa. A prefeita afirmou que não recebeu uma prefeitura com caixa folgado para fazer o que quisesse, mas sim com verbas carimbadas e compromissos já amarrados.

Quando o assunto chegou à sonhada ponte, Janete adotou tom técnico e pé no chão. Explicou que o processo ainda depende da contratação de equipe especializada para elaboração do projeto, depois licitação e, por fim, ordem de serviço. Disse acreditar que a licitação da obra deve começar apenas no fim do ano e projetou que uma entrega, caso tudo corra bem, só seria viável no fim de 2028. A prefeita evitou promessas fáceis e insistiu que não pretende atropelar a burocracia em um projeto que envolve segurança de milhares de pessoas.

A entrevista esquentou ainda mais quando Janete abordou o serviço funerário e o cemitério. Ela negou que tenha falado em terceirização pura e simples do cemitério, mas defendeu mudanças profundas na legislação e no modelo atual. A prefeita criticou o que chamou de reserva de mercado no setor, ao afirmar que hoje apenas 2 estruturas podem prestar determinados serviços em Divinópolis. Disse que a concorrência melhora qualidade e preço, e garantiu que nenhuma mudança ocorrerá para onerar a população pobre ou retirar a gratuidade de quem tem direito.

No entanto, o ponto mais contundente veio logo depois. Janete citou problemas no serviço de luto, falou em histórico de irregularidades, mencionou afastamentos e prisões e afirmou, de forma direta, que a modelagem atual facilita distorções. Sem citar nomes, reforçou que quer alterar estruturas que, segundo sua visão, abrem espaço para corrupção. Em seguida, ampliou o alvo e avisou que a mecânica do município também passará por readequação, porque, segundo afirmou, o formato atual não oferece a segurança necessária sobre peças, serviços e controles.

“A prefeita foi além do discurso administrativo. Ao falar em luto, mecânica e corregedoria, Janete deixou no ar que pretende mexer em áreas onde a suspeita de corrupção ronda a Prefeitura há anos.”

Ao ser questionada diretamente sobre corrupção, Janete procurou fazer uma distinção. Disse que não acusava servidores específicos, mas sim modelos de funcionamento que, na visão dela, facilitam irregularidades. A prefeita afirmou que continuará levando denúncias ao Ministério Público e a outros órgãos de controle sempre que houver indícios, porque a gestão não tem poder de polícia para aprofundar certas investigações. Também anunciou fortalecimento da corregedoria, transferência da estrutura para a controladoria e criação de mecanismos mais robustos de apuração, incluindo práticas de compliance que, segundo ela, já detectaram problemas até em compras da merenda escolar.

No encerramento, Janete reforçou a disposição de manter diálogo com a imprensa e afirmou que vai seguir visitando todos os veículos que abrirem espaço. O gesto teve peso político porque marcou, na prática, a retomada de uma relação institucional com o Executivo após um longo período de distanciamento. A entrevista, portanto, não serviu apenas para atualizar posições da prefeita. Serviu também para reposicionar o debate público em torno de uma gestora que, em poucas semanas, já se viu diante de tarifa em alta, ameaça de greve, crise no lixo, pressão do funcionalismo e discussões sobre moralização administrativa.

Janete saiu da conversa consolidando uma imagem de força, franqueza e disposição para enfrentar desgaste. Se vai convencer toda a cidade, isso ainda depende dos próximos capítulos. Mas uma coisa a entrevista deixou clara, Divinópolis tem hoje uma prefeita que não foge da polêmica e que parece disposta a governar em cima dela.

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  1. Sandro Santos disse:

    Seu Zezinho da horta era meu grande amigo eu trabalhava pra ele tenho aqui comigo até hoje

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