A deputada estadual Bella Gonçalves decidiu acelerar sua entrada no jogo pesado de 2026. Em entrevista ao Divinews, após a sessão ordinária da ALMG na última quarta-feira (07), a parlamentar confirmou a pré-candidatura a deputada federal, explicou por que deixou o PSOL após 10 anos e revelou que aceitou migrar para o PT depois de convite direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A fala não ficou só na troca partidária. Bella aproveitou o momento para mirar a direita mineira, atacar nomes nacionais do campo conservador e prometer uma campanha frontalmente antibolsonarista.
A mudança de legenda já era um dos assuntos mais comentados nos bastidores da política mineira. Bella deixou o PSOL no fim de março e oficializou a ida para o PT em um movimento tratado por ela como estratégico. Na entrevista, a deputada afirmou que não entrou na política por cargo, salário ou status e sustentou que a decisão foi tomada a partir de uma leitura de conjuntura. Segundo a parlamentar, o Congresso Nacional precisa de renovação e essa renovação, na visão dela, deve passar por mulheres, jovens e nomes de enfrentamento político.
Ao justificar a saída do PSOL, Bella fez questão de reconhecer o papel que o partido teve em sua trajetória. Disse que ajudou a construir a legenda durante uma década e citou pautas que associa ao campo psolista, como tarifa zero e o impulso ao debate sobre o fim da escala 6×1. Mesmo assim, afirmou que a disputa do futuro da esquerda brasileira contra a extrema direita passa, agora, por uma renovação dentro do PT. Na prática, a deputada deixou claro que enxerga o partido de Lula como a principal trincheira eleitoral da esquerda para 2026.
O peso político do gesto aumenta justamente porque Bella não trocou de sigla para buscar abrigo discreto. Ela já se apresenta como pré-candidata a deputada federal e afirmou ao Divinews que aceitou o desafio de ajudar a renovar a bancada do PT em Minas Gerais. A migração, portanto, não foi apenas ideológica. Ela também abriu uma nova frente eleitoral, reposicionando Bella numa disputa mais ampla, nacionalizada e com mais exposição.
Saída do PSOL vira recado sobre o futuro da esquerda
A entrevista mostrou que Bella quer usar a troca de partido como mensagem política. Ao dizer que o PT é o maior partido da América Latina, popular e capilarizado em todo o país, ela indicou que sua chegada não tem tom de acomodação, mas de aposta em musculatura eleitoral. O argumento central foi simples: para enfrentar a extrema direita e o bolsonarismo, o campo progressista precisa se reorganizar com mais força e alcance.
Esse raciocínio também ajuda a explicar o tom da entrevista. Bella falou menos como parlamentar em transição e mais como nome que já começou a ocupar espaço na disputa federal. Ao defender soberania, direitos sociais, mudanças no mundo do trabalho e renovação política, ela tentou apresentar a pré-candidatura como expansão natural do mandato que exerce hoje na Assembleia. Ou seja, a deputada quer vender a ida a Brasília como aumento de potência política, não como simples salto de cargo.
Direita mineira vira alvo direto da deputada
Se a mudança partidária foi o primeiro eixo quente da entrevista, a leitura que Bella fez sobre Minas abriu o segundo. Ao falar da direita no estado, a deputada afirmou que esse campo não tem programa nem para o Brasil nem para Minas Gerais e se move por interesses políticos, não por ideologia. A declaração atingiu em cheio o ambiente de disputa que já se desenha para a sucessão estadual.
Bella mirou o legado do governo Romeu Zema. Na fala ao Divinews, disse que o projeto vendido como outsider terminou, na visão dela, marcado por aumento salarial do governador, isenções fiscais bilionárias sem transparência, carros de luxo e uma dívida pública crescente. Também afirmou que esse modelo não estaria voltado ao bem-estar do povo mineiro, mas ao fortalecimento de bancos e de setores do capital privado, com ênfase especial no setor minerário. A crítica foi ampla e desenhada para atingir o coração do discurso liberal que sustentou a era Zema.
No mesmo bloco, Bella analisou os nomes da direita que orbitam 2026 em Minas. Falou de Cleitinho como figura que tenta repetir o papel de outsider, embora já esteja inserido há anos no jogo institucional. Sobre Mateus Simões, foi ainda mais dura. Disse que ele aposta numa estratégia bolsonarista agressiva que não estaria decolando e chegou a classificá-lo como irrelevante para o estado. O ataque deixou evidente que a deputada pretende transformar a campanha em confronto aberto, não em disputa protocolar.
A fala ganhou ainda mais peso porque o cenário mineiro realmente vive forte rearranjo partidário após a janela, com redefinições nas chapas e nas alianças para 2026. Em meio a essa recomposição, o desembarque de Bella do PSOL para o PT foi lido como um movimento relevante no campo progressista.
Lula entra como centro político da entrevista
No plano nacional, Bella adotou discurso de defesa direta da reeleição de Lula. Ao responder sobre o cenário presidencial, afirmou que o presidente conseguiu reconstruir a democracia institucional após tentativa de golpe, ampliar políticas sociais e recolocar o país em rota de crescimento econômico. Em seguida, tentou associar a recuperação econômica à combinação entre acordos internacionais e fortalecimento do mercado interno. A entrevista, nesse trecho, funcionou como uma peça de defesa explícita do lulismo em ano pré-eleitoral.
Quando foi pressionada a comentar outros possíveis nomes da direita, Bella ampliou o confronto. Ronaldo Caiado apareceu como exemplo de entreguismo, segundo a deputada, por querer discutir terras raras com os Estados Unidos. Zema foi tratado como uma figura nacionalmente enfraquecida. Já Flávio Bolsonaro foi definido por Bella como o nome mais perigoso entre os possíveis adversários, por tentar parecer mais moderado do que o pai ao mesmo tempo em que, segundo ela, representaria ameaça concreta à democracia e à soberania brasileira. Tudo isso foi dito em tom de mobilização, como quem já fala para uma campanha em construção.
Nesse ponto, a deputada não escondeu o objetivo político. Ao final da entrevista, prometeu ao público construir “a campanha mais antibolsonarista” que Minas já viu. A frase não foi apenas efeito retórico. Ela ajuda a sintetizar o desenho que Bella quer dar à própria candidatura: um nome de embate ideológico frontal, com presença forte no debate nacional e discurso sem freio contra o bolsonarismo.
Copasa entra na entrevista como outra bomba política
A entrevista não ficou apenas em eleição. Um dos momentos mais pesados veio quando Bella voltou ao tema da privatização da Copasa. Ao lembrar posicionamentos anteriores, a deputada disse que não faltaram denúncias sobre irregularidades nesse processo e citou provocações feitas ao STF, Tribunal de Justiça, CVM, Tribunal de Contas e Ministério Público Federal. Na fala ao Divinews, ela sustentou que o Tribunal de Contas tem sido um dos órgãos mais atuantes nesse caso.
Em seguida, a deputada elevou o nível da acusação política. Bella afirmou que atores do mercado financeiro e da empresa EGEA estariam por trás da modelagem da privatização e associou nomes do processo a escândalos de corrupção e até a apurações como a Operação Carbono Oculto. O trecho foi um dos mais agressivos da entrevista porque deslocou o debate da privatização do campo técnico para o terreno moral e criminal. Na prática, a parlamentar mostrou que sua posição contra a privatização não é uma divergência administrativa, mas um risco entregar o saneamentode Minas a grupos que, segundo ela, carregam histórico tóxico.
Bella ainda disse que a Copasa tem problemas, mas pode impulsionar o desenvolvimento do estado se permanecer pública. E completou afirmando que não pretende descansar enquanto não conseguir reverter esse processo. Ao projetar o tema para as eleições, a deputada deixou claro que a defesa de uma Copasa estatal deverá ser um dos eixos de sua futura campanha. Assim, a entrevista acabou servindo também como ensaio de plataforma.
Pré-candidatura federal sai da entrevista com novo tamanho
O saldo político da conversa é direto. Bella não apenas confirmou a pré-candidatura a deputada federal. Ela a conectou a uma narrativa mais ampla, que mistura renovação da esquerda, lealdade ao campo lulista, combate ao bolsonarismo, crítica ao legado de Zema, ataque à fragmentação da direita mineira e defesa de pautas estruturais como soberania, trabalho e serviços públicos. O resultado é que a pré-candidatura sai maior da entrevista, porque deixa de ser um simples movimento eleitoral e passa a ser vendida como projeto de enfrentamento nacional.
Para o eleitorado mineiro, especialmente o do campo progressista, Bella tenta ocupar um espaço que mistura militância, discurso ideológico nítido e disposição para o confronto. Para os adversários, a entrevista pode funcionar como aviso. A deputada que deixou o PSOL para atender ao chamado do PT não quer fazer uma campanha discreta. Quer entrar no tabuleiro com discurso duro, alvo definido e ambição ampliada.
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