A intensificação dos conflitos internos e externos promovida por Donald Trump recoloca os Estados Unidos em um território político já conhecido por sua própria história. A retórica agressiva contra imigrantes, adversários políticos, instituições internacionais e até aliados tradicionais cria um ambiente de tensão contínua, semelhante a períodos que antecederam episódios trágicos na política americana.
Ao longo do século XX, quatro presidentes dos Estados Unidos foram assassinados enquanto exerciam o mandato, todos em contextos de polarização extrema, conflitos sociais e crises institucionais. Outros sobreviveram a atentados em cenários igualmente marcados por radicalização política. A história demonstra que o acirramento permanente de discursos e a normalização do conflito interno elevam riscos que extrapolam o campo eleitoral.
No atual contexto, Trump amplia frentes de tensão ao mesmo tempo. No plano interno, endurece políticas migratórias, estimula enfrentamentos com movimentos civis e trata opositores como inimigos. No plano externo, adota uma postura beligerante, intervencionista e unilateral, gerando instabilidade diplomática e econômica.
Especialistas em ciência política e segurança institucional alertam que lideranças que concentram conflitos, desprezam consensos mínimos e governam pela confrontação tendem a produzir ambientes politicamente voláteis. Não se trata de previsão, mas de leitura histórica: quando a política abandona freios institucionais, os efeitos costumam ser imprevisíveis e, muitas vezes, irreversíveis.
Ao contrário do discurso romantizado por seus apoiadores mais radicais, a história dos Estados Unidos mostra que presidentes não foram mortos apenas em guerras ou grandes rupturas institucionais, mas muitas vezes em contextos de tensão social intensa, radicalização política e ressentimento interno.
Os presidentes dos EUA assassinados em exercício do mandato
Quatro presidentes americanos foram assassinados enquanto ocupavam a presidência:
• Abraham Lincoln (1865)
Assassinado após a Guerra Civil, em um ambiente de ódio profundo entre vencedores e derrotados. Lincoln simbolizava a reconstrução do país e a derrota dos interesses escravagistas.
• James A. Garfield (1881)
Morto por um atentado cometido por um extremista político frustrado, em um período de disputas internas dentro do próprio partido.
• William McKinley (1901)
Assassinado por um anarquista em meio a fortes críticas ao imperialismo americano e à concentração de poder econômico.
• John F. Kennedy (1963)
Assassinado em Dallas, em um contexto de Guerra Fria, conflitos geopolíticos, tensões raciais e disputas internas de poder.
Além desses, vários presidentes sofreram tentativas de assassinato, como Theodore Roosevelt, Ronald Reagan, Gerald Ford e outros. Um outro membro do clã Kennedy, Robert também foi assassinado, durante as primárias na Califórnia. O motivo foi que o atirador, Sirhan Bishara Sirhan, um imigrante palestino com sentimentos anti-sionistas, confessou o crime, alegando que Kennedy apoiava Israel, segundo a BBC.
Trump eleva o grau de exposição ao conflito
O que diferencia Trump de muitos antecessores é a soma de frentes de conflito abertas simultaneamente.
Internamente, sua política migratória agressiva, marcada por deportações em massa, repressão violenta e ações da polícia de imigração, gerou reações dentro e fora dos EUA. O assassinato recente de uma mulher americana, Renee Nicole Good, de 37 anos, em uma operação migratória do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega), em que um dos seus agentes a matou a tiros. Tal assassinato acendeu alertas inclusive entre setores conservadores.
Externamente, Trump rompeu qualquer verniz diplomático ao invadir a Venezuela, sequestrar seu presidente sob a narrativa de combate ao narcotráfico e, posteriormente, admitir publicamente que o objetivo central era o petróleo venezuelano. A ação ecoa diretamente o precedente do Iraque, invadido sob o falso pretexto de armas de destruição em massa, mas com objetivo real de controle energético.
Trump ainda pressiona a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, sinalizando tutela direta sobre o país e impondo condições comerciais que transformam a soberania venezuelana em moeda de troca.
Lista de inimigos cresce
Além da Venezuela, Trump já tensionou ou ameaçou diretamente:
• Rússia, ao atacar rotas e navios petroleiros
• Países da América Latina, com sanções e intervenções
• Groenlândia, ao sinalizar interesse territorial explícito
• Aliados históricos, tratados como adversários comerciais
• Imigrantes, tratados como inimigos internos
Para completar sua sanha belicista, Trump neste sábado (10), atacou o Estado Islâmico na Síria, como parte de uma operação lançada em dezembro após um ataque a militares americanos. Esse acúmulo de confrontos, internos e externos, amplia exponencialmente os riscos à integridade física do presidente.
Risco maior que o dos presidentes assassinados
Diferente de Lincoln, McKinley ou Kennedy, Trump enfrenta um ambiente global hiperconectado, onde discursos inflamados se espalham em segundos, e ações extremas produzem reações imprevisíveis.
O próprio histórico americano demonstra que presidentes não caem apenas por guerras, mas por radicalizações mal calculadas. E Trump, ao apostar em confrontos permanentes, parece ignorar essa lição histórica.
Alerta que a história já fez
A história dos Estados Unidos ensina que o poder, quando exercido sem freios institucionais, empatia social e diplomacia mínima, cobra seu preço. Trump governa como se estivesse acima dessas lições. E a pergunta que começa a ecoar, inclusive em círculos de segurança, não é se o risco existe. É o quão próximo ele está de se materializar.






