A Polícia Federal desmontou uma fábrica de fuzis que operava no coração de Belo Horizonte sob o disfarce de uma loja de móveis. O galpão, localizado no bairro Calafate, na Região Oeste da capital mineira, mantinha um esquema de produção de armamento pesado que abastecia facções criminosas do Rio de Janeiro, incluindo o Comando Vermelho e grupos de milicianos.
A investigação apontou que o local produzia e montava fuzis em série, com uso de maquinários industriais e técnicas de precisão. Por fora, a fachada exibia letreiros de uma suposta marcenaria. Por dentro, escondia tornos, moldes metálicos e um caderno de anotações repleto de instruções sobre a montagem e calibração das armas. O material recolhido pela PF comprovou a rotina de fabricação e indicou que os fuzis seguiam para o Rio de Janeiro, onde alimentavam o arsenal das facções que controlam o tráfico em comunidades como o Complexo do Alemão, Rocinha e Maré.
Durante as diligências, os agentes encontraram anotações detalhadas sobre remessas de armamento e componentes importados. A Polícia Federal também localizou conexões com uma segunda estrutura semelhante no interior paulista, em Santa Bárbara d’Oeste, capaz de fabricar até 3.500 fuzis por ano. A soma das duas oficinas formava um dos maiores polos clandestinos de produção de armamento pesado do país.
O principal nome identificado pela investigação, Silas Diniz Carvalho, levava uma vida de luxo em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Ele mantinha uma casa de alto padrão no bairro Lourdes, próximo ao DiamondMall, e administrava empresas em endereços estratégicos da Região Metropolitana. De acordo com os investigadores, Silas transformou o comércio de armas ilegais em um negócio milionário e sustentava o estilo de vida com dinheiro vindo diretamente do tráfico.
Em outubro de 2023, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em uma operação que se estendeu por Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Na ocasião, os agentes flagraram Silas em uma mansão da Barra da Tijuca, no Rio, acompanhado de dois comparsas. Dentro da residência, os policiais localizaram 47 fuzis, peças desmontadas, carregadores, munições e três veículos de luxo, entre eles uma Lamborghini avaliada em mais de R$ 1 milhão.
A apreensão fez parte da Operação War Dogs, deflagrada em referência ao filme americano Cães de Guerra, que retrata o tráfico internacional de armas. A ação expôs a engrenagem de um esquema que conectava empresários, armas de fabricação clandestina e facções criminosas. O objetivo dos investigadores era desmontar a rede financeira e produtiva que alimentava o mercado paralelo de armamentos no Brasil.
Os policiais executaram dez mandados de busca e apreensão no Paraná e em Belo Horizonte, com foco em um dos maiores fabricantes de armas do país. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro autorizou o bloqueio de bens, imóveis e contas bancárias ligadas aos investigados.
A Polícia Federal informou que a quadrilha chegou a entregar cerca de mil fuzis para o Comando Vermelho, além de fornecer armamento para milicianos e grupos criminosos na Bahia e no Ceará. As armas, segundo os investigadores, reforçaram o poder de fogo das facções em disputas por território nas comunidades cariocas.
O delegado responsável pela investigação descreveu o cenário encontrado no galpão de Belo Horizonte como um retrato fiel da indústria do crime: “O local parecia uma marcenaria comum, mas cada peça e cada máquina contava uma história de guerra. A fachada enganava, mas o interior funcionava como uma verdadeira linha de produção do tráfico.”
A descoberta colocou Minas Gerais no mapa das investigações sobre o tráfico de armas e revelou que o crime organizado já opera com estrutura empresarial e logística interestadual. O caso acendeu o alerta nas forças de segurança sobre a expansão das fábricas clandestinas e o avanço da criminalidade armada dentro do território mineiro.






