Nos últimos dias, os vereadores da Câmara de Divinópolis têm sido alvo de várias criticas, e até mesmo pauta jornalística, por que durante as sessões ordinárias, foi apontado que muitos não permanecem sentados, em silêncio e atentos a cada fala proferida no ambiente do plenário, como se estivessem em uma sala de aula, semelhante a “Escolinha do Professor Raimundo”, nem o Nerso da Capitinga ficava. A crítica, no entanto, parte de uma premissa equivocada e desconsidera a própria natureza do trabalho parlamentar, que é parlar, falar, debater, articular quer seja nas sessões, ou fora dela, nos bastidores, de forma republicana.
É preciso compreender que os plenários do Executivo e do Legislativo não são salas de aula da “Escolinha do Professor Raimundo”, em que os alunos permanecem imóveis, concentrados, prestando contas de cada olhar ao mestre. O papel do vereador vai muito além de assistir passivamente a quatro horas de, leitura de ofícios, pronunciamentos, debates e votação de projetos.
Assim como no Congresso Nacional, seja no Senado ou na Câmara dos Deputados, é absolutamente comum que parlamentares circulem pelos corredores, conversem com assessores, atendam telefonemas e realizem despachos enquanto a sessão transcorre. Não é falta de respeito, mas parte da rotina política. A imagem idealizada de um plenário silencioso e disciplinado simplesmente não condiz com a prática legislativa.
A atividade parlamentar é, por natureza, dinâmica. Os vereadores, assim como deputados e senadores mantêm compromissos simultâneos, atendem cidadãos que procuram soluções urgentes e articulam posições para futuras votações. Muitas das decisões que definirão o resultado de uma pauta não são construídas na tribuna, mas nos bastidores, nas conversas de corredor e nos acordos políticos legítimos que garantem o avanço ou a rejeição de projetos.
É ingênuo imaginar que vereadores devam estar o tempo todo de olhos fixos na Mesa Diretora, na Tribuna ou mesmo em seus pares, como se estivessem diante de uma lição de matemática. No mundo real da política, é preciso negociar, articular, atender e decidir — e isso não se faz apenas no microfone.
Além disso, é preciso lembrar que as sessões são longas, cansativas e repletas de etapas técnicas: leitura de expediente, proposições, pareceres, uso da tribuna, às vezes, falas de todos os 17 vereadores e votações sequenciais. Esperar que um parlamentar permaneça ininterruptamente atento a cada fala é desconhecer o funcionamento de qualquer casa legislativa no país.
O debate político requer maturidade e entendimento da sua complexidade. A cobrança por um comportamento “disciplinar” dentro das Câmaras é mais uma tentativa de reduzir a política à aparência, ignorando seu conteúdo. O verdadeiro parâmetro de avaliação de um vereador não deve ser a quantidade de minutos que ele permanece sentado, mas a qualidade do que ele propõe, aprova e representa.
Reforçando a manchete: plenários não são escolinhas do Professor Raimundo. Ninguém está ali para decorar fórmulas de Bhaskara, calcular hipotenusas ou até mesmo fazer “prova dos noves”. Estão, sim, para discutir, representar, decidir e exercer a política em sua forma mais legítima, com debate, divergência e presença ativa, mesmo que fora da cadeira do Chico Anísio.






