Na semana em que o debate sobre fake news voltou a ganhar força no Brasil, o Rio de Janeiro foi palco da 12ª edição do Global Fact, a principal conferência internacional de checagem de informações. Organizado pela International Fact-Checking Network (IFCN), do Instituto Poynter, o evento reuniu jornalistas, pesquisadores e representantes de plataformas digitais de todo o mundo.
Durante cinco dias, especialistas discutiram os rumos da guerra contra a desinformação, o impacto da inteligência artificial (IA) nas narrativas falsas e o papel das big techs na circulação de conteúdos enganosos.
“As pessoas querem a verdade”
A diretora do IFCN, Angie Drobnic Holan, ressaltou, em entrevista à Agência Brasil, que a checagem de fatos é uma resposta ética e necessária a um cenário onde a mentira virou estratégia política.
“Ninguém quer ser enganado. As pessoas querem liberdade de pensamento, mas também querem informações precisas”, afirmou Holan.
Para ela, o combate às fake news deve envolver toda a sociedade — da mídia tradicional às escolas, passando por autoridades públicas e plataformas digitais.
IA, guerras e manipulação
Entre os principais temas do evento, destacou-se o uso de inteligência artificial na criação e combate à desinformação. A diretora do IFCN reconheceu que o cenário atual traz riscos, mas também oportunidades.
“Estamos desenvolvendo nosso entendimento coletivo sobre como lidar com a IA, especialmente em contextos de guerra, onde a manipulação de dados é intensa”, explicou.
A dificuldade de acesso a informações confiáveis em zonas de conflito como Ucrânia, Irã e Palestina também foi tratada. Segundo Holan, nessas situações, a verificação exige tempo, paciência e cautela.
Big Techs e responsabilidade
Sobre a responsabilidade das grandes plataformas digitais na proliferação de fake news, Angie foi clara: nenhuma empresa pode se isentar do impacto social que provoca.
“Elas dizem que estão promovendo conteúdos confiáveis, mas será que estão mesmo? Cada país precisa avaliar e regular conforme suas leis”, pontuou.
Ela destacou ainda a diminuição de profissionais nas equipes de checagem mantidas por big techs, como a Meta, o que preocupa a comunidade internacional.
Brasil como referência global
O motivo da escolha do Brasil como sede do Global Fact foi a força das agências de checagem nacionais. Holan elogiou o trabalho realizado por organizações como Aos Fatos, Estadão Verifica, Lupa e UOL Confere, mesmo diante de pressões políticas e sociais.
“Essas instituições são modelos globais. Se o público brasileiro ainda não as acompanha, deveria começar agora”, recomendou.
Educação, ética e engajamento
Durante os painéis, foi consenso que educação midiática, ética na produção de conteúdo e o engajamento do público com fontes confiáveis são os caminhos para enfrentar a era da desinformação.
Holan concluiu com uma mensagem de otimismo:
“O jornalismo segue vivo. Talvez com menos poder de distribuição, mas com mais compromisso com os fatos do que nunca.”






