O Divinews teve acesso ao relatório bombástico da Polícia Federal, com mais de mil páginas, entregue ao ministro Alexandre de Moraes no âmbito do Inquérito 4781 do Supremo Tribunal Federal, revela a existência de uma estrutura clandestina de inteligência montada dentro da própria Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) durante o governo Bolsonaro. Apelidada de “ABIN paralela”, essa organização criminosa (ORCRIM), segundo a PF, usava recursos públicos, ferramentas de espionagem ilegal e servidores federais para vigiar adversários políticos, atacar instituições e interferir no processo democrático brasileiro.
Sistema First Mile: espionagem sem autorização judicial
No centro do escândalo está a aquisição e uso do sistema “First Mile”, ferramenta intrusiva capaz de rastrear dispositivos móveis com precisão, sem qualquer necessidade de autorização judicial. A PF identificou mais de 60 mil consultas ilegais feitas durante o contrato de R$ 5,7 milhões, assinado em 2018. Oficialmente, o sistema teria sido comprado para auxiliar a segurança durante a intervenção federal no Rio de Janeiro, mas rapidamente foi desviado para espionagem política e perseguições pessoais.
A investigação conclui que a contratação foi deliberadamente mascarada: o caráter intrusivo do sistema foi omitido nos documentos oficiais para burlar a exigência de autorização judicial, violando frontalmente a Constituição Federal e o devido processo legal.
Rede de comando: do Palácio do Planalto à ABIN
De acordo com a PF, a estrutura paralela tinha como líder máximo o então presidente Jair Bolsonaro, com seu filho Carlos Bolsonaro exercendo funções de coordenação política. Alexandre Ramagem, ex-diretor da ABIN e ex-chefe da segurança pessoal de Bolsonaro, aparece como peça-chave no comando técnico e operacional da estrutura.
A operação clandestina contava ainda com oficiais de inteligência, policiais federais cedidos à ABIN e servidores altamente qualificados em tecnologia da informação. Esses agentes operavam fora dos canais institucionais e utilizavam recursos humanos, financeiros e tecnológicos da agência para proteger o chamado “núcleo político” e atacar opositores.
Alvos da espionagem: de ministros do STF a jornalistas
Entre os alvos do esquema estavam:
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O ministro Alexandre de Moraes (STF)
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A juíza Márcia Capanema
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O ex-deputado Jean Wyllys e sua família
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A ministra do TSE Maria Claudia Bucchianeri
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Jornalistas como Leandro Demori, Mônica Bergamo e Luiza Bandeira
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Servidores do IBAMA, Receita Federal e integrantes do Instituto Sou da Paz
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Integrantes do movimento Sleeping Giants Brasil
Além da espionagem, o grupo atuava ativamente na criação de dossiês falsos, disseminação de fake news, ataques ao sistema eleitoral e produção de campanhas difamatórias contra adversários, tudo com objetivo de proteger o bolsonarismo e sabotar instituições democráticas.
Tentativa de obstrução da Justiça e ameaça ao Estado de Direito
O relatório também aponta que, após o início das investigações, houve diversas tentativas de obstrução: formatação de dispositivos eletrônicos, assédio a testemunhas, entrega de dossiês falsos contra investigadores e ações no Congresso para politizar o caso. Parte dos envolvidos ainda ocupava cargos estratégicos na atual gestão da ABIN, o que gerava constrangimento e medo entre os servidores que colaboraram com a PF.
Para a corporação, essas ações integraram um esforço coordenado para abolir o Estado Democrático de Direito — culminando, inclusive, nos eventos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Segundo a PF, a “ABIN paralela” foi instrumental nesse processo, oferecendo blindagem, inteligência clandestina e apoio tático ao núcleo bolsonarista.
Um caso sem precedentes na história republicana
A magnitude das descobertas é inédita. A PF considera que houve desvio sistêmico da função institucional da ABIN, transformando-a, em parte, num aparato de segurança pessoal do presidente e de seus aliados. A chamada “ABIN paralela” operava à margem da legalidade, sem controle institucional, com objetivos político-partidários e autoritários.
Mais de 100 laudos periciais, 250 relatórios de análise e centenas de depoimentos foram reunidos para sustentar a acusação. A Controladoria-Geral da União também colaborou com apurações administrativas, resultando na identificação de dezenas de servidores envolvidos e no encaminhamento de pedidos de responsabilização criminal e administrativa.
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