Em um texto contundente publicado neste sábado (31), o ex-delegado da Polícia Federal, Benicio Cabral, que atuou por anos à frente de investigações na Delegacia da PF em Divinópolis, não poupou críticas ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). A indignação de Cabral tem como pano de fundo a prisão de Glaycon Ranieri de Oliveira Fernandes, primo de Nikolas, detido em flagrante na última semana pela Polícia Federal em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, com 30 quilos de maconha e quatro gramas de cocaína – Benicio é autor do livro “O Estado no Estado”.
Cabral ironiza o comportamento midiático do parlamentar, que costuma usar as redes sociais para atacar adversários políticos, especialmente ligados ao governo Lula, sempre com vídeos bem produzidos e discursos moralistas. “Estou esperando aqui o encantador de trouxas, deputado Nikolas, fazer um vídeo bonito, cheio de efeitos, com aquela vozinha suave, se autoacusando de traficante”, provocou.
O ex-delegado, conhecido por sua atuação firme e por ser autor do livro polêmico “O Estado no Estado: por que os funcionários públicos são indolentes?”, também cobrou coerência do deputado, lembrando que ele já usou de parentesco distante de políticos para acusá-los de envolvimento com crimes. “O filho do Lula aqui, o irmão do Lula ali, o primo do sobrinho do cunhado do cachorro do sogro… Só que são sempre mentiras. E aí, Nikolas? Vai sair o vídeo sobre o primo traficante?”, disparou.
Além de criticar Nikolas, Cabral direcionou suas farpas a outro personagem do campo conservador mineiro: o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), conhecido por gravar vídeos “denunciando” supostos privilégios e comportamentos de opositores. “Estou esperando o Cleitinho Reboladinha também. Afinal, Nova Serrana é o curral eleitoral dele. Já estamos carecas de ver vídeos mentirosos dessa dupla”, escreveu.
O ex-delegado também relembrou que o pai de Glaycon, Enéas Fernandes – tio de Nikolas –, foi candidato a prefeito de Nova Serrana em 2024, com forte apoio do deputado. Segundo ele, “Nikolas tentou eleger o tio com quase metade das emendas de Minas Gerais destinadas a Nova Serrana — R$ 1,5 milhão em recursos públicos”.
A prisão de Glaycon Fernandes, que continua detido no Presídio Professor Jacy de Assis, repercutiu em todo o país. A Polícia Federal informou que a apreensão da droga foi feita com apoio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado de Minas e do Mato Grosso do Sul (FICCO-MG/MS), além da Delegacia de Tóxicos de Divinópolis. Embora a nota oficial da PF tenha omitido o nome dos detidos, fontes confirmaram que um dos presos é o parente direto de Nikolas, o que acabou levando o nome do parlamentar aos assuntos mais comentados do X (antigo Twitter) na sexta-feira (30).
Silêncio constrangedor e contradições
Benicio Cabral encerra sua crítica com uma ironia pesada: “A propósito, Nikolas, bandido bom é bandido morto? Vai mandar matar o seu primo agora?” — uma referência direta ao discurso de “bandido bom é bandido morto”, que o parlamentar já apoiou em diversas ocasiões, mesmo diante de temas complexos como segurança pública, tráfico e sistema prisional.
A omissão de Nikolas Ferreira sobre o caso — que não emitiu nenhuma nota pública nem comentou o ocorrido nas redes — tem sido apontada por críticos como sintomática de uma postura seletiva: eloquente para atacar o “inimigo político” e silencioso diante dos próprios.
Sobre o livro
É uma obra sobre Administração Pública, especificamente brasileira. Mas não se trata de doutrina de Administração Pública, longe disso. O que faço é demonstrar a verdadeira causa do Serviço Público brasileiro não funcionar, ou seja, ser de péssima qualidade.
Eu provo que existe um Estado de fato, real e efetivo, porém disfarçado, dentro do Estado formal (que existe só no papel). O Estado formal, que deveria se submeter à Constituição, às Leis e às técnicas de administração pública, não existe, nunca existiu, no Brasil. E é de propósito, é para ser assim mesmo, segundo os interesses da Plutocracia brasileira. Em outras palavras, a Plutocracia não permite a existência do Estado formal, legal, justamente porque o Estado no Estado atende perfeitamente aos seus interesses.
Trabalhei 35 anos no Serviço Público Federal, em duas Carreiras Típicas de Estado, Auditor-Fiscal da Receita Federal e Delegado de Polícia Federal. Sou graduado em Economia e Direito. Essa grande experiência no Serviço Público me mostrou claramente como funciona o Estado real, o Estado no Estado. O Estado formal só existe “para inglês ver”. Já o Estado no Estado é concreto, atuante, tem doutrinação própria e se impõe com muita força. A sua existência e manutenção independe da vontade dos Servidores Públicos, mesmo os concursados e independe da vontade do governante.
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