Professora e psicóloga, Thaís Alves contextualiza a saúde mental com a pandemia do Coronavírus


Saúde Mental e Pandemia

A pandemia do Coronavírus nos atingiu e desde então nos deparamos com o real, que nos mostra fragilidades, angústias e medos. Sabemos que antes da pandemia isso já era presente em nossas vidas nos mais diferentes momentos, mas, então, por que estamos falando tanto dos efeitos que a pandemia tem produzido no que nos convencionamos a chamar de saúde mental?

É necessário regressar ao que entendemos por saúde mental para que faça sentido a discussão que pretendemos. A Organização Mundial da Saúde classifica saúde como “um estado de profundo bem-estar biopsicossocial”. Dessa forma, quando partimos desse ponto já trazemos a reflexão de que saúde não se implica apenas com aspectos físicos ou biológicos, mas, num entendimento amplo, que saúde deve levar em conta as formas de vida, às quais somos submetidos e podemos cultivar. Isso está relacionado com alimentação, moradia, segurança, educação, cultura, trabalho, meio ambiente. Portanto, um sujeito pode clinicamente não apresentar nenhum sinal de adoecimento, “exames normais”, mas isso não pode informar que ele esteja saudável, por exemplo, se lhe faltam condições básicas relacionadas ao que listamos anteriormente. Ou seja, condições biopsicossociais.

Quando pensamos em saúde mental, não é raro que haja certas confusões com estar alegre, não se sentir triste, não se sentir frustrado, raivoso. Sabemos que todos esses sentimentos nos são próximos e o mais importante é pensarmos que é impossível passar pela vida sem experimentá-los um bocado de vezes. E isso não quer dizer que se alguém está muito triste só pode estar deprimido. Os processos de adoecimento e sofrimento mental são importantes, persistentes e tem certas características muito particulares em cada sujeito. Desse modo, cada um sofre à sua maneira e neste momento, com incertezas, mortes, perdas, afastamento, é preciso que consideremos acolher estes sentimentos em nosso cotidiano.

Há algo no tempo em que vivemos, na racionalidade em que estamos, que impede que possamos sentir o que seja diferente de bem-estar, euforia, prazer. Os sujeitos são empurrados a todo tempo a trabalharem, consumirem e exibirem o que consomem. Nesse carrossel de excessos sobra mesmo pouco tempo para nos dedicarmos ao que temos de mais precioso: o sentir.

Só é possível curar aquilo que adoece, e saúde é algo que se verifica justamente quando posta a prova, assim só é saudável aquele que pode melhorar de sua enfermidade. Nestes tempos pandêmicos de muitas exigências pelo desempenho, e sujeitos que são algozes de si mesmos em um mundo cada vez mais duro e desigual, é preciso que recuperemos o sentido mais profundo de saúde mental para cada um de nós. Este sentido não significa ser feliz sempre ou o tempo todo, mas encontrar em algum lugar em si mesmo e ao seu redor aquilo que produz saúde e cura.

 

Por Thaís Alves, | Psicóloga, Psicanalista, Especialista em Saúde Mental.

Thaís é professora universitária na Una Bom Despacho e Una Divinópolis

 

Arte da capa: Exame.com | Pikisuperstar/Freepik/Divulgação

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