Prefeito que não gosta de ser prefeito é caso mais freqüente do que se pensa

Publicado por: suporte

Roberto Pompeu de Toledo
O que esperar dos prefeitos

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 ”Que eles tenham em mente a grandeza e a
complexiade deste invento humano que é a cidade,
anterior, e mais engenhoso, aos da província e do pais” 

 A primeira coisa a esperar dos novos prefeitos, ou dos antigos que conseguiram renovar o mandato, é que gostem de ser prefeitos. Se o leitor estranha tão singelo desejo, pense no infeliz prefeito Cesar Maia, entediado até o fundo da alma, o gabinete de chefe do Executivo municipal a pesar-lhe como cela de prisioneiro, o laptop em que batuca o seu blog a servir-lhe de consolo para o infortúnio como o violão ao menestrel desiludido. Prefeito que não gosta de ser prefeito é caso mais freqüente do que se pensa. Político que ganha uma prefeitura é tentado a pensar que prefeitura é pouco para seus talentos e merecimentos. Seria apenas uma escala na viagem, o purgatório a aturar antes de galgar ao céu do governo estadual, talvez mesmo à Presidência (por que não, para quem acaba de ganhar a eleição numa grande capital?) ou no mínimo às delícias de uma deputação ou uma senatoria.

A segunda coisa a esperar, decorrente da primeira, é que permaneçam no cargo até o fim do mandato. Político está sempre pensando no próximo lance, como se sabe. Aliás, mais do que político, o analista político está sempre pensando no próximo lance. Mais se viu na imprensa artigo sobre o efeito do resultado da eleição municipal no quadro partidário ou na eleição presidencial do que naquilo que interessa, ou seja: na cidade. Muito se fala na febre de previsões que assola os economistas, mas a de que sofrem os comentaristas políticos a supera. O político, açulado pelo analista político, tende a ser tomado pela volúpia de querer mais, e com tal urgência que no meio do mandato já deixa o município para tentar a sorte num âmbito maior.

Ou melhor: supostamente maior. A terceira coisa a esperar dos novos prefeitos é que atentem para a grandeza e a complexidade deste invento humano que é a cidade, anterior, e muito mais engenhoso, aos da província e do país. A cidade surge no momento em que a espécie humana é assaltada pela necessidade de viver em vizinhança e empreender atividades dependentes umas das outras. Não é à toa que da palavra “cidade” derivem “cidadão” e “cidadania”, e que de “civitas”, a ancestral latina de “cidade”, decorram “civilidade” e “civilização”. Um velho documento da história do Brasil, o diário de viagem de Martim Afonso de Sousa, afirma que esse oficial da coroa portuguesa criou duas vilas no que viria a ser o território paulista, de forma que seus habitantes pudessem “viver em comunicação das artes” e usufruir de “uma vida segura e conversável”.

Eis resumidos, na graça da linguagem quinhentista, alguns dos fundamentos da vida em cidades. Por “comunicação das artes”, devem-se entender o inter-relacionamento entre os vários ofícios e o intercâmbio de serviços e mercadorias daí decorrente. Na referência à vida “conversável”, “conversar” equivale a “conviver”, mas não deixa de ter também o sentido que hoje emprestamos a “conversar” quando se tem em conta que conviver é falar com o outro. A cidade, lembra-nos esta palavra “conversável”, tão bonita, ao modo em que está inserida no texto, é o lugar em que as pessoas se falam umas com as outras.

A quarta coisa a esperar dos prefeitos é que se dêem bem com os governadores. Esse item é dedicado em especial (talvez se devesse dizer em exclusividade) aos prefeitos das capitais. Uma capital estadual é lugar pequeno demais para abrigar um prefeito e um governador com turmas e ambições divergentes, e, quanto maior e mais importante for a capital, menor será para esse fim. Os espaços de atuação do prefeito da capital e do governador são tão próximos que às vezes se confundem. Movem-se, um e outro, a um passo do curto-circuito. A hostilidade entre ambos, tão comum na história brasileira, pode resultar fatal para as cidades como o bombardeio por uma força inimiga.

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A quinta coisa talvez seja a mais utópica, mas vá lá: espera-se dos prefeitos que não tenham como horizonte apenas seus quatro (ou oito) anos de mandato. Político gosta é de inaugurar, e se não tem a inauguração ao alcance do mandato tende a pensar duas vezes antes de iniciar a empreitada. Esse é um dos motivos pelos quais as grandes cidades brasileiras estão tão atrasadas na mais crucial das obras para a questão do trânsito – a montagem de uma capilar rede de metrô.

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Este ensaio do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, é bem adequado para os prefeitos eleitos e reeleitos. Mas, se adéqua também, aos prefeitos que não foram reeleitos e até os que sequer disputaram, para que no futuro optem pelo vestibular correto, não errando de profissão. Prefeitos que não gostam de estar no meio do povo, não merecem também representá-los em nenhum outro lugar.  

(Geraldo Passos)



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