Em seu primeiro post após a entrevista da Dilma, ele digitou um texto dizendo que os corruptos ficaram insatisfeitos com a entrevista: “Robôs partidários de todos os matizes insatisfeitos! Corruptos insatisfeitos! Blogueiros sujos insatisfeitos! Muito bom! Obrigado mesmo!”
No segundo post Bonner fala que os blogueiros ficam de mimimi: “Tão bonitinho ver robozinho partidário replicar mimimi porque fizeram pergunta difícil pra candidato! Uown! “Jornalista mal-criado e feio!”
Já no terceiro ele pede sugestões aos blogueiros: “ Mas o tio divulga as sugestões dos robozinhos partidários pra quando entrevistar candidato DELES”
No último sábado Bonner usou o twitter para fazer uma defesa do estilo de entrevista do JN: “E ser jornalisticamente incisivo é para todos os candidatos, claro. Gente, fazemos isso desde a eleição de 2002! É só pesquisar”
“Sobre a questão de ser incisivo nas entrevistas, já expliquei que se trata de um imperativo do jornalismo. É o oposto da propaganda. Ponto”
A reação contra Willian Bonner apareceu através de vários blogs que ele atacou pelo seu twitter.
O 247 publicou
Esqueçam o bom moço e galã; William Bonner assumiu que tem outro lado; depois de interromper a presidente Dilma Rousseff 21 vezes em 15 minutos de entrevista, na qual sua primeira pergunta ocupou dez por cento do tempo total, o apresentador do Jornal Nacional garante que sempre foi durão; pelo twitter, chama de “robôs partidários”, “corruptos” e “blogueiros sujos” os que apontaram desequilíbrio, parcialidade e até mesmo grosseria na atuação dele e de Patrícia Poeta diante da presidente; já visto nas redes sociais com a faixa presidencial no peito, Bonner vira o mais novo agente político da praça; isso faz sentido?
William Bonner assumiu. No últimos 18 anos, ele cultivou a imagem de equilíbrio e imparcialidade, de bom moço e de galã, no comando da bancada do Jornal Nacional – a instituição jornalística da Rede Globo que, mesmo perdendo audiência aos borbotões nos últimos, ainda é um dos veículos de mídia mais poderosos do País. Mas agora é diferente.
Pelo twitter, ironizando as críticas sobre a maneira como conduziu a entrevista de 15 minutos com a presidente Dilma Rousseff, anteontem, ele avisa que “sempre” foi durão, que nunca pegou leve com seus entrevistados e que está disposto a novas incursões do mesmo tipo. Cuidado com ele, é como se o próprio avisasse, numa espécie de lançamento de uma candidatura informal a jornalista valentão.
Na verdade, a crítica a Bonner se deu pelo fato de ele ter interrompido, por 21 vezes, a presidente em suas respostas. Pelo fato de sua primeira pergunta ter durado dez por cento do tempo total da entrevista. Por ter conduzido uma entrevista que derivou para dedo em riste na direção da presidente e vozes exaltadas entre os perguntadores.
Em seu trato de “tio” para “sobrinhos” com seus seguidores no twitter, Bonner vem sustentando, com ironia e sarcasmo, que quem não gostou de sua postura foram os “corruptos”, os “robôs partidários” e os “blogueiros sujos”. Dá, neste sentido, uma lista de perguntas que este gostariam que fosse feitas para o candidato “DELES”, tais como “Aceita um cafezinho?”.
Bonner não admite a surpresa dos quem enxergam, no Jornal Nacional, um veículo com múltiplos compromissos, com uma história de sustentação ao regime ditatorial. Os mesmo que veem no próprio Bonner um âncora notadamente acrítico no dia a dia. Seus comentários quase não existem, e quando são pronunciados para marcar alguma notícia, no mais das vezes soam como genéricos.
Com o apoio de seus seguidores, Bonner está dizendo que nunca deixou de ser durão. E que vai continuar. A depender do resultado das eleições presidenciais, é de se acompanhar se essa garantia vai se sustentar.
VIOMUNDO
Publicitário William Bonner, nosso Lou Dobbs, mostra que é bom de marketing
por Luiz Carlos Azenha
Por um tempo Carlos Nascimento alimentou a ideia de que se tornaria âncora do Jornal Nacional. Na minha primeira passagem pela emissora, nos anos 80, acompanhei de perto a trajetória dele.
Boa presença no vídeo, boa voz e, acima de tudo, experiência na rua. É conversando com as pessoas, no dia-a-dia, que nascem os bons entrevistadores. O mesmo aconteceu com Ana Paula Padrão, com quem só tive contato muito mais tarde, na TV Record. Foi correspondente, interagiu com entrevistados mundo afora.
Do casal 20 da Globo se dizia o seguinte, na minha segunda passagem pela Globo, no Rio de Janeiro, a partir de 1999: Fátima Bernardes tinha chacoalhado nas viaturas, amassado barro e subido morro. William Bonner, não. Tive pouco contato com ele. Ao analisar as reportagens que seriam exibidas no Jornal Nacional, aprovadas pessoalmente por ele, Bonner era preciosista, focava nos detalhes.
Havia um toque de masoquismo naquele ritual de espera diário na redação: o imperador diria sim ou não ao seu trabalho!
Escapava-lhe a contextualização. Talvez um mecanismo de defesa. Na Globo o profissional tem autonomia até a página 5. A estrutura é altamente hierarquizada. Até as entradas ao vivo são aprovadas antecipadamente, ou pelo menos eram quando eu estava lá. A margem de manobra dos repórteres é reduzidíssima. Só ascendem os que são de extrema confiança do patrão. Por comparação, em outras emissoras nas quais trabalhei as reclamações sempre foram posteriores: Manchete, SBT e Record. “Ah, o Azenha não deveria ter dito aquilo que disse”, um chefe eventualmente observa. Mas, no frigir dos ovos, quem manda mesmo é o dono. É o patrão — ou seus prepostos.
William Bonner tem a mesma alma matter que eu: a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Formou-se em Publicidade e Propaganda. Outros repórteres da Globo, como Alberto Gaspar e Ernesto Paglia, foram meus contemporâneos na faculdade de Jornalismo.
A ECA era uma boa escola, de professores e estudantes questionadores, que foi se voltando aos poucos para servir “ao mercado”. Acho uma perda. Escrever bem ou aparecer bem na TV a gente pode fazer aos poucos, nas ruas, ganhando experiência. Mas a formação em História, Filosofia, Lógica e Ciências Sociais, dentre outras disciplinas, essa não tem preço. É a alma do Jornalismo. É o espírito crítico.
No caso de Bonner, no entanto, a formação em Publicidade e Propaganda parece ter muita solidez.
Às críticas que recebeu nas últimas horas ele respondeu com uma mensagem de deixar qualquer marqueteiro encantado: no twitter, em uma só frase, juntou robôs (deve ter se inspirado na famosa reportagem de Veja, que ao ser pega em conluio jornalístico com o bicheiro Carlinhos Cachoeira atacou ‘aranhas, robôs e comunistas’), corruptos insatisfeitos e blogueiros sujos (adotando, aqui, designação formulada por um dos grandes amigos dos patrões da Globo, o candidato a senador José Serra).
Como bom marqueteiro, Bonner atribui as críticas que recebeu a gente previamente criminalizada pela mídia.
Abandona o preciosismo que é sua marca, de forma oportunista.
Um preciosismo do qual ele se vale muitas vezes para julgar o trabalho de colegas.
O preciosismo que ele tanto ama e que, nas últimas horas, foi expresso de forma estatística na rede:
Ou, de Ricardo Amaral, no Conversa Afiada:
Dos 16 minutos cronometrados [da entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo], Dilma falou 10 minutos e meio; [o apresentador William] Bonner, 4 e meio, e Patrícia [Poeta, a apresentadora] quase 1 minuto. Dá 65% para ela e 35% para eles. Dilma pronunciou 1.383 palavras, contra 980 da dupla (766 só do Bonner), o que dá 60% x 40%. Isso é escore de debate, não de entrevista. A dupla encaixou 26 acusações ao governo e ao PT; algumas, com ponto de exclamação. Nos quatro blocos temáticos (corrupção, mensalão, saúde e economia) Bonner lançou no ar 13 pontos de interrogação, e Patrícia, dois. A presidenta foi interrompida 19 vezes. Tomou dedo na cara de Bonner e de Patrícia, que reclamou de uma resposta com um soquinho na mesa. Isso não é comportamento de jornalista. Na entrevista com Aécio Neves – que muitos acharam “dura”, embora tenha sido apenas previsível – a dupla fez quatro interrupções e cinco reiterações de perguntas.
Ou, da Márcia Cunha, no Facebook, reproduzindo a Mídia Ninja:
O tom inquisidor de William Bonner na entrevista com Dilma no Jornal Nacional de hoje mostrou, em alguns minutos, como a imprensa brasileira atua há séculos para criar e manipular suas verdades. Na primeira pergunta, com mais de um minuto de duração, o âncora usou sete vezes a frase “Escandalo de Corrupção”. É pela repetição, aquela mesma usada pelo publicitário do nazismo Joseph Goebbels, que se funda a percepção da realidade.
Quando eu, Azenha, era um repórter já maduro na TV, tive o prazer de conviver, na excelente redação doGlobo Repórter — acreditem, a Globo tem excelentes profissionais, de altíssimo nível, que só não nomino para não colocá-los sob risco de demissão — com Ana Helena Gomes.
Uma editora de primeira categoria, uma documentarista sensível, ao mesmo tempo doce e ácida, como acredito que devam ser os jornalistas.
Numa viagem ao Nordeste, para gravar um Globo Repórter, ela me chamou de lado e observou, usando mais ou menos as seguintes palavras: “Azenha, você está muito afoito. Está apertando demais o entrevistado. Querendo arrancar dele tudo na primeira pergunta. Colocado na defensiva, ele não vai revelar nada. Tem de ‘tourear’ o entrevistado. Fazer com que ele se sinta seguro ao seu lado. Uma boa entrevista é quando você envolve o entrevistado de tal forma que ele acabe se entregando”.
Sábias palavras. Obrigado, Ana Helena, pela sabedoria!
Nunca mais fui o mesmo. Obviamente, levei anos para aprender as lições básicas da entrevista. Nunca cheguei lá.
Admiro quem sabe fazê-lo quase que naturalmente, por um dom de nascença: os ex-globais Carlos Dornelles e Arnaldo Duran, por exemplo, ou o Gérson de Souza.
Nós, telejornalistas, somos tratados como repórteres de segunda classe pelo pessoal que trabalha em jornal e revista, que não precisa se preocupar com a captação de imagens e tem a garantia de anonimato para coletar informações. Nosso desafio, o dos telejornalistas, é conseguir arrancar alguma coisa do entrevistado com a presença intimidadora de uma grande equipe, de luzes e microfones.
É tarefa árdua, delicada, ainda mais quando exige que o entrevistador não apareça mais que o entrevistado. Pelo menos eu não confundo jornalismo agressivo com jornalismo agressor.
Barbara Walters, a grande entrevistadora da TV dos Estados Unidos, nunca, jamais, perdeu a linha. Era dura com uma leveza admirável. Tinha o dom.
Porém, em tempos mais recentes, com o desafio da internet, nosso meio mudou.
As emissoras querem telejornalistas que sejam, eles mesmos, personagens. Que sejam mais importantes que a própria notícia.
Nos Estados Unidos, isso não é novidade. Lou Dobbs, da CNN norte-americana, foi um dos primeiros âncoras a abraçar uma causa. Quando eu morava em Nova York, ouvia as diatribes diárias dele contra “the illegal alliens”, os alienígenas ilegais. Era como se todos os problemas sociais dos Estados Unidos fossem causados pela entrada de imigrantes mexicanos ou dominicanos.
Um alvo fácil, a “escória”, da mesma forma que hoje a direita brasileira elegeu “os corruptos” como nosso grande mal, desde que não sejam corruptos privados, como os irmãos Marinho, multados em 600 milhões de reais pela sonegação de impostos na compra dos direitos de TV nas Copas de 2002 e 2006.
Para assumir seu papel de herói da causa, nos Estados Unidos, Dobbs mascarava a realidade. Não contava toda a história.
Assim como Bonner não fala na multa da Globo, Dobbs escondia o contexto:
1. Com o acordo comercial fechado com os Estados Unidos, o NAFTA, o milho norte-americano — e outros produtos agrícolas — começaram a invadir o mercado mexicano, destruindo a agricultura local e acelerando a imigração;
2. Os imigrantes ilegais cumpriam, nos Estados Unidos, o papel de calibrar para baixo o salário dos trabalhadores em geral, especialmente os do campo.
Dobbs cumpriu direitinho o papel que o dono da CNN esperava dele, o de atrair telespectadores de extrema-direita, preocupados com o fato de que os brancos logo deixariam de ser maioria nos Estados Unidos, ameaçados pela demografia.
No Brasil, o compromisso de Bonner é o de “render” credibilidade ao jornalismo de seus patrões. É uma espécie de ‘caçador de marajás’ da própria casa.
Como escrevi anteriormente, Bonner faz isso para mascarar a verdade factual de que a Globo apoiou a ditadura militar, interferiu e interfere no processo eleitoral, atribui a si própria o papel de ‘árbitro’ da política brasileira — apesar de ter conspirado contra a democracia — e exerce um monopólio midiático praticamente desconhecido em qualquer parte do mundo.
Gente do Executivo, do Judiciário e do Legislativo brasileiros já se deram conta de que não poderão viver eternamente sob a ameaça do assassinato de caráter jornalístico praticado pelos Marinho.
Bonner é um biombo dos patrões para evitar que se faça com eles o que uma das mais sólidas democracias liberais do mundo, a do Reino Unido, fez com o magnata Rupert Murdoch. Com apoio da rainha “chavista” Elizabeth, foram colocados limites claros à atuação da mídia eletrônica, com direito dado ao telespectador para abrir investigações e penalidades inclusive para conteúdo falso ou desequilibrado.
No plano profissional, se estamos tratando exclusivamente de técnicas de entrevista, Bonner não deveria se preocupar com o fato de que se formou em Publicidade e Propaganda, não em Jornalismo na ECA.
Não devemos ser preconceituosos quanto a diplomas.
Talvez fosse o caso de Bonner revisitar os arquivos da própria Globo, para rever todas aquelas entrevistas que ele fez como repórter de rua. A partir disso, de forma humilde, o imperador talvez reconhecesse que é possível melhorar.





