Dr. Gigante alerta: Divinópolis não tem demanda para duas UPA.s

Publicado por: suporte


Divinews: Como Divinópolis não tem demanda para duas UPA.s? A UPA Central só vive cheia e a população reclamando que não é atendida.

Dr. Gigante: Cerca de 75% dos atendimentos realizados na UPA Central são consultas médicas de rotina, que deveriam ser efetuados nos centros de saúde. Como a nossa rede básica (centros de saúde e PSF.s) é ineficiente, só resta à população o recurso de procurar o antigo pronto socorro na busca de atendimento médico. Está realidade não respeita a lógica da assistência pública de saúde.

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Divinews: Mas o senhor concorda que a abertura da UPA Ponte Funda vai desafogar o tumulto existente na UPA Central?

Dr. Gigante: Provavelmente sim, porém irá agravar as discrepâncias do nosso sistema municipal de saúde. O atendimento em uma UPA é emergencial, focado na solução do problema momentaneamente. É um paliativo que não oferece ao usuário uma perspectiva de tratamento global. Isto desorganiza o sistema, que deve priorizar os cuidados voltados à prevenção.

Divinews: O senhor poderia explicar melhor?

Dr. Gigante: Os casos de urgência e emergência existentes em nossa comunidade poderiam ser, tranquilamente, atendidos na UPA Central. Estima que uma UPA bem estruturada consiga dar cobertura a uma população superior a 300.000 habitantes. A grande maioria dos atendimentos hoje realizados (75%) deveria ser efetuada nas unidades básicas, onde seria oferecido ao cidadão um acompanhamento permanente, solucionando o problema daquele momento e investigando causas, efeitos e possíveis fatores de risco associados. Sem isto, o cidadão vai pulando de atendimento a atendimento, enquanto a sua doença está se agravando. Quando eu atendo uma pessoa com uma pressão alta na UPA Central eu soluciono o problema naquele momento. Dado o volume de serviço, eu não tenho como investigar e combater as causas e conseqüências daquele distúrbio, o que deveria ser feito nas unidades básicas. Sem isto, não há como afastar o risco daquela pessoa evoluir para uma insuficiência renal, um ataque cardíaco ou um derrame cerebral. É triste, mas isto preciso ser falado.

Divinews: Então a UPA Ponte Funda deve continuar fechada?

Dr. Gigante: A construção da UPA Ponte Funda foi mais um erro de planejamento da Semusa na gestão passada. Todos sabemos que a prioridade é investir na rede básica (infra-estrutura e recursos humanos). Penso que ela deve assumir a função de porta de entrada para os casos de urgência e emergência de Divinópolis. Foi projetada para este fim e a sua área física é apropriada. Defendo que a UPA Central (antigo pronto socorro), seja transformada em uma unidade de internação clínica, utilizando os 56 leitos disponíveis. Ela já cumpre em parte esta função, mas de forma muito precária devido o acúmulo de outras inúmeras tarefas. Não podemos continuar apáticos, esperando que um milagre aconteça no Hospital São João de Deus ou o Hospital Público seja inaugurado (só Deus sabe quando). Tem gente morrendo por desassistência hospitalar e isto é inaceitável. É desumano!

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Divinews: E Divinópolis tem orçamento para isto?

Dr. Gigante: Lógico que não e nem é sua responsabilidade assumir todas estas obrigações. O tratamento intra-hospitalar é da obrigação da Secretaria do Estado da Saúde e ela assumiria o financiamento da UPA Central, com a sua transformação em unidade de internação clínica. A emissão de guias de internação hospitalar dos doentes tratados viabilizaria recursos do Ministério da Saúde. A UPA Ponte Funda seria financiada pelo Município, que pode contar com a ajuda de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) mensais, já pactuada com o Ministério da Saúde. Desta forma Divinópolis não seria penalizada, pois o funcionamento destas duas unidades interessa a toda a região centro-oeste.
Divinews: E existem profissionais, principalmente médicos, para cumprir a escala nas duas unidades?

Dr. Gigante:
Se a Prefeitura de Divinópolis entender que precisa investir em recursos humanos o problema poderá ser solucionado. Uma escala, quase completa, já existe na UPA Central, faltando contratar os plantonistas diários para o CTI. Este pessoal daria cobertura na UPA Ponte Funda. Para a unidade de internação hospitalar o número de profissionais é bem inferior e, devido a gravidade da situação, momentaneamente seria feita uma extensão de carga horária, até a inauguração do hospital regional.

Divinews: Uma ultima pergunta, o Sr. concorda com a terceirização (OS) para gerenciar a UPA Ponte Funda e o Hospital Público?

Dr. Gigante:
A experiência de terceirização de serviços no Brasil é desaconselhável. Em âmbito público mais ainda, pois virou cabide de emprego e mecanismo de financiar campanha eleitoral através de caixa 2. Acaba acarretando uma precarização no ambiente de trabalho, o que faz cair a qualidade do serviço oferecido. O único argumento que justificava a terceirização -que era o barateamento dos serviços- também já está provado que, no serviço público, isto não acontece. Vale lembrar, ainda, que a terceirização nos serviços de saúde contraria a Constituição Federal e a Súmula 331 do Superior Tribunal do Trabalho. Por isto, o Ministério Público e o Judiciário têm se manifestado contrário a esta iniciativa. O Supremo Tribunal Federal segue na mesma linha de raciocínio. Sou contra e penso que o prefeito Vladimir deve refletir melhor sobre esta questão, pois pode dificultar o funcionamento destas duas unidades. Defendo que a área da saúde seja pensada de forma técnica, afastando dela aqueles que têm interesse político eleitoral. Senão, muita idéia boa acaba não dando certo.

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