Lula é homenageado na Assembléia Legislativa de Minas em um plenário superlotado- “O povo de Minas sabe por que sua vida melhorou”, afirmou o ex-presidente

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Além do homenageado e dos deputados Dinis Pinheiro, Rogério Correia e Adelmo Carneiro Leão (PT), compuseram a mesa de honra o secretário de Estado de Desenvolvimento Regional e Política Urbana, Bilac Pinto; os ministros da Agricultura, Antônio Andrade; e da Educação, Aloísio Mercadante; o desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, José Afrânio Vilela; o deputado federal Weliton Prado (PT-MG); a defensora pública geral do Estado, Andrea Abritta; o vice-prefeito de Belo Horizonte, Délio Malheiros; o vereador Juninho Paim (PT); os presidentes dos diretórios nacional e estadual do PT, Rui Falcão e Reginaldo Lopes, respectivamente; e a presidente da CUT-MG, Beatriz Cerqueira.

Aberta por Dinis Pinheiro, a Reunião Especial contou com a presença de outras autoridades das esferas federal, estadual e municipal de governo, além de muitos prefeitos e vereadores do interior de Minas. Filiados e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e de outros partidos da base do governo Dilma Rousseff também se fizeram presentes. Primeiro a discursar, Rogério Correia, autor do requerimento para a homenagem, concedida ainda em 2011 mas só agora formalizada, classificou Lula como “eterno presidente da República”. Ele lembrou os principais momentos da trajetória pessoal e política de Lula, destacando a importância da homenagem. “Minas Gerais reconhece agora o papel histórico desse brasileiro. Com esse título de cidadão honorário, ele se torna representante de todo o povo mineiro”, afirmou.

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Lula relembra sua passagem por Minas

O diploma de cidadão honorário de Minas Gerais foi entregue a Lula por Dinis Pinheiro e Rogério Correia. Sorrindo bastante, Lula ergueu a placa para o público, arrancando uma salva de palmas. Depois, foi a vez do ex-presidente discursar. Lula começou seu pronunciamento lembrando sua passagem por Minas Gerais, em julho de 1979, para apoiar a paralisação dos trabalhadores da construção civil, movimento que ficou nacionalmente conhecido como a “Greve dos Pedreiros”. Sempre com referências ao futebol, como fazia quando era presidente, Lula lembrou que os trabalhadores realizavam suas assembleias no antigo estádio do Atlético, perto da Assembleia, onde hoje é um shopping. A mobilização foi duramente reprimida, resultando na morte de um trabalhador de 24 anos, e representou, segundo Lula, uma virada histórica na mobilização dos trabalhadores, que começou em Minas.

“Se tenho tanto carinho e respeito por Minas é porque os mineiros tem muito carinho e respeito por mim. Entre nós, desde aquela época, criou-se uma profunda identidade, formada no mesmo compromisso de vida com a dignidade e a justiça. Não existe uma única região de Minas que eu não conheça profundamente e admire”, afirmou. Entre as várias referências ao Estado, o ex-presidente citou, por exemplo, Araçuaí (Vale do Jequitinhonha), pratos da culinária mineira e os três principais times de futebol do Estado, além do seu vice-presidente, o mineiro José Alencar, já falecido.

Lula lembrou ainda que a presidente Dilma Rousseff é mineira, fazendo outras referências a personalidades mineiras, muitas já falecidas. Até Pelé foi citado. “Muitos se esquecem de que Pelé é mineiro de Três Corações”, apontou. “Tenho orgulho de ter feito muito por Minas. Tenho certeza de que a presidente Dilma já fez e vai fazer muito mais. Por isso, o título de cidadão mineiro é daquelas homenagens que dão sentido à nossa vida. Mas antes de receber esse título, eu já me sentia em casa em Minas Gerais. Sempre me senti mineiro de alma e de coração”, completou Lula, que ganhou de presente dos deputados estaduais as camisas do Atlético, do Cruzeiro e do América.

Para Dinis Pinheiro, Lula tem papel histórico

Dinis Pinheiro parabenizou Lula pela homenagem e lembrou que ele é figura central no grande processo de transformação histórica que o Brasil vem sofrendo desde o século XX. “Lula foi o primeiro operário eleito para a Presidência da República e agora é nosso conterrâneo. Ele é personagem da grande virada democrática que teve vez na América do Sul, fruto de muitas lutas que sacrificaram toda uma nova geração política. Nesse mesmo contexto, Dilma Rousseff foi a primeira mulher eleita presidente do País”, apontou o presidente, citando ainda outras personalidades políticas mundiais, como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela.

Antes do início da solenidade, cerca de 600 pessoas se aglomeraram fora da ALMG – entre integrantes de movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos, admiradores do ex-presidente ou simplesmente curiosos – para recepcionar Lula, que chegou à sede do Legislativo estadual pelo Hall das Bandeiras. Acenando para a multidão, o homenageado seguiu por um tapete vermelho até o Salão Nobre, onde se encontrou com autoridades. Na sequência, Lula seguiu para o Plenário, onde foi recebido por Dinis Pinheiro.

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Acompanhando a movimentação da chegada do ex-presidente à Assembleia por um telão, os ocupantes das cadeiras no Plenário entoaram músicas em homenagem a Lula, recepcionado logo depois com muitas palmas. Na abertura da Reunião Especial, músicos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais executaram o Hino Nacional. Os Dragões da Inconfidência, guarda de honra da Polícia Militar, também participaram da cerimônia.

Do sertão do Nordeste à Presidência da República

Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns (PE), mas aos sete anos mudou-se, junto com a família, para o Guarujá (SP). Desde cedo começou a trabalhar, desempenhando atividades como as de engraxate, ajudante de tintureiro e office boy.

Após se formar em tornearia mecânica pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Lula começou sua carreira nas Indústrias Villares, no ABC Paulista. Em 1975, foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, sendo reeleito em 1978.

Em 10 de fevereiro de 1980, ajudou a fundar o PT, que representava os movimentos sindicais, as comunidades eclesiais de base da igreja católica, os grupos de esquerda e os intelectuais. Já em 1986, foi eleito deputado federal e teve o maior número de votos do País.

Após três tentativas, Lula foi eleito presidente da República para o período de 2003 a 2006 e reeleito para o segundo mandato, de 2007 a 2010. Seu segundo mandato foi encerrado com 87% de aprovação, um dos mais altos índices já apurados no Brasil.

Desde fevereiro de 2011, Luiz Inácio Lula da Silva é presidente honorário do PT. Em outubro do mesmo ano, foi diagnosticado com um câncer de laringe. Em junho de 2012 foi considerado curado pelos médicos que o trataram.

Leia o discursos de Lula

Amigas e amigos,

Eu quero contar a vocês uma história. Em julho de 1979, eu vim a Minas para atender ao chamado dos trabalhadores da construção civil, que haviam deflagrado o movimento conhecido como “greve dos pedreiros”. Uma greve, na verdade, organizada pelos próprios trabalhadores, sem o apoio da direção do seu sindicato, e que pegou de surpresa a população e as autoridades.

Meses antes já haviam acontecido em Minas duas outras importantes paralisações: a dos metalúrgicos de João Monlevade e a dos professores da rede pública. Desde a famosa greve de Contagem, em 1968, não se viam em Minas assembleias, passeatas e manifestações de rua tão massivas quanto as que foram realizadas por estas categorias.

Tal como em São Bernardo do Campo, as assembleias dos pedreiros de Belo Horizonte lotavam um estádio de futebol – no caso, as arquibancadas e o gramado do antigo campo do Atlético, bem perto daqui. E, da mesma forma que em São Bernardo e outras cidades, também foram duramente reprimidas.

No dia 30 de julho de 1979, milhares de trabalhadores reuniram-se na Praça da Estação e subiram em passeata para participar da assembleia. Quando já estavam próximos ao estádio, a polícia interveio com violência: cerca de 60 pessoas ficaram feridas, outras 100 foram presas e o operário Oracílio Martins Gonçalves foi morto com um tiro, no meio da rua cercada pelos policiais. Oracílio tinha 24 anos, era casado e pai de um filho recém-nascido. A tragédia fez com que o Tribunal Regional do Trabalho, numa decisão corajosa, considerasse a greve legal e determinasse o reajuste salarial e o pagamento dos dias parados.

Para mim, do ponto de vista existencial e político, aquele chamado dos trabalhadores de Belo Horizonte foi muito marcante, pois eu não conhecia pessoalmente ninguém do movimento. Me chamaram e me receberam como um irmão de classe. Aliás, no apoio aos pedreiros, estive lado a lado com as principais líderes do novo sindicalismo mineiro: os companheiros Dídimo de Paiva, Arlindo Ramos, João Paulo Pires, Wagner Benevides e Luiz Dulci.

Naquele momento, o que acontecia no ABC paulista, em Minas e em outros pontos do país demonstrava que o movimento dos trabalhadores havia adquirido uma nova dimensão histórica. Não era só a oposição à ditadura que assumia um caráter popular, e a percepção de que o monopólio da política pelas elites tinha se rompido. Tudo isso era muito importante, mas havia algo ainda mais significativo:

o fato de que o avanço do movimento dos trabalhadores já não dependia tanto de conquistas materiais imediatas. A compreensão de que derrotas e vitórias faziam parte de um aprendizado coletivo, cuja finalidade, além da resistência econômica, era a auto-afirmação cultural, social e política dos trabalhadores e do conjunto das classes populares.

Compreensão que iria se traduzir, mais adiante, na fundação do PT, na criação da CUT, nas campanhas das diretas-já e da constituinte soberana, e em tantas outras mobilizações que transformariam profundamente a face do país.

Comecei lembrando a “greve dos pedreiros” para dizer a vocês que a minha relação com Minas Gerais já nasceu na luta, em torno de causas libertárias do estado e do país. Surgiu no combate ao autoritarismo e se consolidou nas grandes batalhas pela redemocratização. Mas não parou aí. Desdobrou-se em um vigoroso projeto de mudança social e emancipação de nosso povo, que sairia vitorioso das urnas em 2002, inaugurando uma nova época na vida brasileira, de desenvolvimento e oportunidades para todos. Ao longo desse processo, a contribuição de Minas sempre foi fundamental.

Desde aquela época, foram inúmeras as ocasiões em que voltei a Minas, seja para apoiar as legítimas reinvindicações dos homens e mulheres desse estado, seja para pedir – e obter – o generoso apoio do povo mineiro à construção de um novo Brasil. Nossa relação foi tecida ao longo de mais de 35 anos de intenso convívio.

Se eu tenho tanto respeito e carinho por Minas e – permitam-me dizer – se os mineiros tem tanto respeito e carinho por mim, é porque entre nós criou-se uma profunda identidade, é porque acreditamos nos mesmos valores éticos e políticos, temos a mesma visão humanista da existência, o mesmo compromisso de vida com a dignidade e a justiça.

Não existe uma única região de Minas que eu não tenha visitado e, mais do que isso, que eu não tenha percorrido e conhecido diretamente, sempre em diálogo com os pobres, com os trabalhadores urbanos e rurais, com os intelectuais e artistas, com as pastorais, com os empresários e as lideranças políticas.

Quando me refiro ao Norte de Minas, ao Sul, ao Triângulo, ao Vale do Paranaíba, à Região Metropolitana, ao Rio Doce, ao Vale do Jequitinhonha, ao Oeste, à Zona da Mata, ao Vale do Aço e a qualquer outro rincão de Minas, não estou falando apenas de nomes e classificações geográficas. Falo de terras, de ambientes, de comunidades, de gente de carne e osso – e alma – que tive a alegria de conhecer nas minhas andanças pelas várias Minas e pelos tantos Gerais que integram esse inconfundível e fascinante estado.

Tomo a liberdade de homenagear a cada uma e a todas as regiões de Minas manifestando o meu afeto pelo nosso querido Vale do Jequitinhonha. Muitas vezes estive no Vale, e outras voltarei, se Deus quiser.

Em 1995, fizemos no Jequitinhonha uma extraordinária caravana da cidadania, que se deteve em 11 cidades, de Diamantina a Almenara, ouvindo e conversando com a população, conhecendo de perto as suas carências e anseios, e debatendo com ela as soluções para os seus problemas. Ali descobri pessoas incríveis, que nunca mais saíram da minha mente e do meu coração, como, por exemplo, o Bispo de Araçuaí, Dom Enzo, o trabalhador rural Vicente Nica e a nossa pequena grande Cacá.

No Vale, a fisionomia de Minas à vezes é seca, dura. Tem cicatrizes deixadas pela miséria e a fome. Com frequência, as mãos e as caras são ásperas, refletindo a injustiça e o sofrimento secular. Mas aquele povo também possui uma beleza delicada e altiva, uma força impressionante para enfrentar as adversidades. É um povo carente, mas insubmisso, que não se rende à prepotência, à desigualdade, à exclusão. Não aceita ser embrutecido.

E o melhor exemplo disso é a esplêndida arte do Jequitinhonha, – a sua música, por exemplo – que transfigura, com enorme talento, o sofrimento em esperança, a carência em abundância compartilhada.

Não tratarei aqui da história rebelde de Minas e do seu insubstituível papel na construção da nacionalidade. Nem da riquíssima cultura mineira, de seus poetas e romancistas, de seus pintores, escultores, artesãos, músicos, cineastas, atores, de seus pensadores e cientistas, dessa inigualável mescla de razão e sentimento que Minas oferece permanentemente ao Brasil. Não vou lembrar as delícias da culinária mineira, para não ficar com água na boca.

Nem citarei as grandes equipes do futebol mineiro, – o Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes, o Atlético de Cerezo e Reinaldo – que encantaram plateias de Minas, do Brasil e do mundo. Da mesma forma, não vou listar os grandes líderes políticos que Minas já deu ao país, a exemplo de nossa querida Presidenta Dilma, cuja presença nessa solenidade me honra e enternece , e também do nosso inesquecível José Alencar.

Só por ter me dado um parceiro magnífico como José Alencar, eu já teria que ser eternamente grato a Minas. E por nos ter presenteado com esta mulher capaz, eficiente e justa, que hoje lidera com tanto êxito os destinos do nosso país, o Brasil inteiro tem que ser eternamente grato a Minas.

Recordo com emoção de alguns companheiros e companheiras que já não estão fisicamente entre nós – o seu exemplo, sim – e que dedicaram o melhor da sua inteligência, sensibilidade e energia à vitória do nosso projeto coletivo e à causa da libertação social. Militantes e seres humanos admiráveis, despojados, fraternos. Penso por exemplo, em Hélio Pellegrino, Betinho e Henfil. Em Helena Greco e Célio de Castro. Em Joaquim de Oliveira e Milton Freitas. No Saudoso Dazinho.

Assumindo a Presidência da República, em 2003, pudemos retribuir ao povo mineiro todo esse apoio e carinho. Orgulho-me de ter valorizado fortemente essa terra e a sua gente. Nesse período, o volume de recursos aplicados em Minas Gerais foi excepcional. Os investimentos produtivos, as obras de infraestrutura e os programas sociais que o governo federal realizou em Minas contribuíram – e muito – para tornar mais digna a vida dos mineiros.

E o meu orgulho é maior ainda quando vejo que a Presidenta Dilma está fazendo por Minas ainda mais e melhor.

Não é o caso de fazer aqui o inventário completo de tudo o que o governo federal fez, na última década, pelo desenvolvimento econômico e social deste estado. O povo de Minas, mais do que ninguém, sabe como e porque a sua vida melhorou.

Por tudo isso, o título de Cidadão Mineiro com que vocês hoje me distinguem é uma grande honra. Honra que implica em seguir fiel aos valores e ideais que compartilhamos e que dão sentido a nossas vidas. E em continuar lutando, até quando Deus me der forças, para fazer avançar a democracia e a igualdade social em nosso país.

Se me permitirem, quero concluir dizendo a vocês, com toda a sinceridade, que, mesmo antes de receber este título tão importante, eu já me sentia em casa em Minas Gerais. Já me sentia em família, entre irmãos.

Muito obrigado.

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