Desde tempos remotos, a partir das diversas mitologias, o homem busca uma forma de se haver com o próprio caos, com as questões existenciais, bem como saber de sua origem e de sua terminalidade.
Em tempos antigos o homem lidava com vários sentimentos; medo, angústia, desespero, dentre vários outros; por meio da mitologia grega. A partir do mito de Dionísio, temos o uso de vinho como tentativa de apaziguar a angústia sobre o caos, bem como, posteriormente, o surgimento de religiões como forma de dar um sentido a vida.
Ao longo dos séculos, com o advento de diversos saberes, principalmente da ciência; e esta se apropriando do homem num recorte em que as disciplinas que se preocupariam com o comportamento, saúde mental, saúde física; tomariam um rumo cada vez mais particularizado do ser humano, separando-o entre palavras e coisas.
É nesse contexto que a ciência, instrumentalizada pelos seus métodos e técnicas fundam seus saberes sobre o psiquismo humano. Transitando por esses contextos gostaria de enfatizar sobre os dias atuais em que o ser humano está fadado a ser tratado como um objeto de saberes, de intitulações e de rótulos. Esta querela de nominar o que somos é um vestígio daquele tempo remoto.
Existem questões que nos rodeiam durante vários momentos de nossas vidas, em que procuramos dar um sentido. E diante do imediatismo do dia-dia, da rapidez da informação, da aglutinação de tarefas e de papéis tem momentos em que nos sentimos no limite. Limite em que não estamos mais conseguindo responder ou corresponder.
À esta infinitude de papéis, as nossas emoções vão se manifestar de formas distintas, em que ficamos a mercê do saber do Outro. Ora, seria preciso esbarrar no próprio limite, para que se perceba um imediatismo e automatismo diante da vida cotidiana? Seria necessário a doença aparecer como linguagem querendo dizer algo ?
Aí está colocado a querela de cada um, pois mal conseguimos com-viver com aqueles sentimentos antigos, mas atuais, e que fazem parte de todo um contexto em que estaremos numa morada na qual possamos sentir medo, raiva, angústia, solidão. Esses e vários sentimentos que poderiam ajudar-nos a elaborar e nomear perdas, ganhos, tristezas, rupturas, traumas, a cada dia que passa se extinguem mais, como se em nosso alfabeto as letras fossem sendo extintas de forma gradativa. Desta forma como dizer sem sequer ter os elementos básico para falar, bem como se faltar letras como escrever um texto?
Assim, diante dessa atualidade, acredito que ainda vale a pena sentir tais sentimentos, permitir advir à tona vários afetos, para que possamos ter mais chances de fazer uma releitura e reescrita de nosso cotidiano, da correria, e colocar em questão uma própria implicação de cada um diante da realidade. Por que não privilegiar o próprio saber e sua experiência única, procurando em seus prórios arquivos, em seu próprio alfabeto, formas diversas de saber-dizer.
Thiago Augusto Pinto, psicólogo, especialista em teoria psicanalítica pela UFMG.
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