Todos os dias, reúnem-se cerca de 40 jovens em frente ao costa Rangel. Deslizando no chão de mármore, eles fazem estrelas com o corpo, enquanto as estrelas do céu tornam-se astros secundários.
Welington, Bibboy Gross, como é chamado, faz parte daquele grupo que dava os rodopios no chão. Ele explica que se tratava de uma dança chamada break, um dos quatro elementos do hip-hop. Os outros três são o canto do rap (sigla para rythm-and-poetry), a instrumentação dos DJs e a pintura do grafite.
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O hip-hop é um movimento social que emergiu no final da década de 1960, nos subúrbios negros e latinos de Nova Iorque. Estes subúrbios, verdadeiros guetos, enfrentavam diversos problemas de ordem social como pobreza, violência, racismo, tráfico de drogas, carência de infra-estrutura e de educação, entre outros. Os jovens encontravam na rua o único espaço de lazer, e geralmente entravam num sistema de gangues, as quais se confrontavam de maneira violenta na luta pelo domínio territorial.
Em Divinópolis, e no Brasil em geral, o movimento não é violento, ao contrário, no saguão do Costa Rangel reúnem-se pessoas de todas as tribos no único propósito de mostrarem sua arte. Mesmo quando se fala em grupos, como existem, por exemplo, os beworks, o que se tem são somente parceiros de dança que ensaiam juntos. Até em disputas, os campeonatos de breack, a pessoa que prevalece é o “nós”, “ganhamos o 3º lugar no festival de Araxá e o 2º lugar em Campo Belo, agora, iremos a Betim no próximo final de semana”conta Welington sem fazer distinção dos grupos.
Eles dizem não viver da dança, mas existem campeonatos em São Paulo, Rio em que estão sempre presentes. Quem faz parte da disputa concorre a dinheiro e troféis, porém todos os custos com as viagens são patrocinados por eles próprios. O bibboy Gross conta que existem grandes campeonatos patrocinados por marcas de peso como o energético Redbull ou a Nike e Sony. “É uma pena Divinópolis estar afastada desses pólos mais fortes” lamenta Welington que logo se anima ao contar que “a distancia não se torna problema para os apaixonados pelo ritmo”, eles alugam uma van e pé na estrada.
Sem incentivo, mas com muito amor eles seguem a mais de 15 anos no mesmo local. Pra não serem injustos, fazem uma pausa para agradecer a parte administrativa do Costa Rangel por sederem o espaço “Nós não temos outro espaço em Divinópolis para dançar, se não deixassem aqui não seria em lugar algum”.
Quando perguntado se a sociedade os discrimina Welington responde com outra pergunta “o que a sociedade não descrimina?” Ele parece consciente ao explicar que as pessoas quando não conhecem algo tendem a temê-lo “Se as pessoas se envolverem e virem o que é… mas isso é assim com qualquer coisa” e dá um exemplo já de séculos atrás: “Quando descobriram o Brasil também mataram muitos índios”.
Os dançarinos do Costa Rangel dizem não se incomodarem com os maus olhos “estamos aqui é para dançar, estamos aqui porque gostamos”, e ainda argumentam “enquanto se esta aqui não se está fazendo coisas erradas”.
Quem quiser entrar pra turma, Welington explica “qualquer um pode participar, o ritmo é bem agitado, animado, quem gosta e escuta um batido de break se arrepia”. Os meninos do breack de Divinópolis realizarão um campeonato dia 29 de março, na praça do santuário. A intenção é apresentar os iniciantes para a comunidade. O campeonato contará com jurados de fora da cidade.
O hip-hop
Hip-hop é um movimento cultural iniciado no final da década de 1960, nos Estados Unidos, como forma de reação aos conflitos sociais e à violência sofrida pelas classes menos favorecidas da sociedade urbana. É uma espécie de cultura das ruas, um movimento de reivindicação de espaço e voz das periferias, traduzido nas letras questionadoras e agressivas, no ritmo forte e intenso e nas imagens grafitadas pelos muros das cidades.
As gangues dos Estados Unidos foram encontrando naquelas novas formas de arte uma maneira de canalizar a violência em que viviam submersas, e passaram a freqüentar as festas e dançar break, competir com passos de dança e não mais com armas. Essa foi a proposta de Afrika Bambaataa, considerado hoje o padrinho da cultura hip-hop, o idealizador da junção dos elementos, criador do termo hip-hop e por anos tido como “master of records” (mestre dos discos), por sua vasta coleção de discos de vinil.
No Brasil, o movimento hip-hop foi adotado, sobretudo, pelos jovens negros e pobres de cidades grandes, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre, como forma de discussão e protesto contra o preconceito racial, a miséria e a exclusão. Como movimento cultural, o hip-hop tem servido como ferramenta de integração social e mesmo de re-socialização de jovens das periferias no sentido de romper com essa realidade.







