A administração do prefeito Demetrius Pereira chega ao fim com um saldo lamentável para os bairros periféricos. Poucos foram os investimentos que chegaram à população, embora o discurso do atual chefe do Executivo tenha sido exatamente o contrário. “Quero fazer de Divinópolis uma cidade boa para se viver não apenas na região central”, foi a afirmação feita por Demetrius Pereira em diversas ocasiões.
Aconteceu exatamente o contrário. A despeito de investimento prático mesmo, fica somente o asfalto nos itinerários do transporte coletivo, porém com várias vias ainda sem o benefício, como por exemplo a ligação dos bairros Dona Rosa e Davanuze, onde o trecho está praticamente intransitável, em razão da grande quantidade de buracos, que tornam o pequeno percurso um risco constante, especialmente para usuários do transporte coletivo.
Para fazer um levantamento do abandono, a reportagem do Divinews.com percorreu 15 bairros periféricos nos últimos 20 dias. Uma vergonha. Única expressão capaz de resumir a situação em que se encontram moradores de regiões que poderiam oferecer uma qualidade de vida capaz de dar aos habitantes da periferia condições de viver com dignidade.
| BAIRROS VALE DO SOL E SANTA LÚCIA | |
| Fotos: Jotha Lee | |
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Em todos os bairros percorridos, inclusive onde há obras do PAC parcialmente em andamento – São Simão, Grajaú, Dona Rosa, Padre Eustáquio, Santa Lúcia, Chácaras Belo Horizonte, Alto São Vicente, Nova Holanda, Jusa Fonseca, Costa Azul, Terra Azul, São João de Deus, Vale do Sol, Quintino e São Caetano – a situação encontrada, em algumas regiões, é de favelização completa. Mesmo nos bairros cortados por linhas asfaltadas, as ruas paralelas estão em completo abandono.
Construções em encostas, esgoto a céu aberto, matagal praticamente entrando nas casas e buracos, muitos buracos, compõem um cenário de total desolação. Os problemas sociais são mais graves. Muitos desses bairros não têm postos de saúde e o Programa de Saúde da Família, segundo os moradores, nunca passou em boa parte deles. Falta escola, trabalho para as famílias, moradias com o mínimo de dignidade e ainda há casas que convivem sem energia elétrica.
A falta de segurança também é visível a olho nu. Construções inacabadas e abandonadas servem de refúgio para ladrões e consumo de drogas. Em alguns bairros, o tráfico já se apossou da região e as drogas são comercializadas livremente no meio da população, que aceita passivamente a ação dos traficantes. “No nosso bairro, os traficantes saem gritando pela rua perguntando quem quer droga”, conta um morador de uma região que não será identificada para garantir a segurança.
Por outro lado, a Polícia Militar não pode fazer um policiamento ostensivo nestas regiões por falta de logística. Há bairros em que a viatura somente aparece quando chamada e, mesmo assim, segundo moradores, ainda leva um bom tempo.
Nestas regiões é comum ver jovens e adolescentes nos barzinhos fazendo uso de bebida alcoólica. As brigas entre grupos rivais também acontecem com freqüência, como a reportagem pôde presenciar no Santa Lúcia. Um grupo do bairro Padre Eustáquio desceu a Rua José Penha Laine (a única asfaltada, as demais estão completamente abandonadas) armado de pedaços de madeira, caçando, literalmente, rivais do bairro Santa Lúcia.
“Situação corriqueira”, contou um morador do Santa Lúcia. Ele convive com o matagal em frente à sua casa, que não pode nem ser totalmente vista, apesar de morar em uma rua onde residem cerca de 50 famílias. Ainda no bairro Santa Lúcia, a prefeitura até iniciou o calçamento de dois quarteirões, porém o serviço vem sendo feito a conta-gotas e montes de pedras estão no meio da via há mais de três meses.
O mais grave nesses bairros acontece exatamente neste período de chuva. As ruas sem infraestrutura tornam-se corredeiras perigosas com grande volume de água, já que não há escoamento. A água, cheia de lama, invade as ruas nas partes mais baixas, colocando residências, pessoas e animais em risco.
O transporte coletivo para estas regiões é totalmente ineficiente. Número reduzido de ônibus, horários com longos intervalos e veículos velhos. Para se ter uma idéia, do Centro até o Bairro Padre Eustáquio, a viagem chega a durar até uma hora. O usuário do transporte coletivo nunca consegue fazer este percurso em menos de 45 minutos, tempo superior a uma viagem a Carmo do Cajuru.
A superlotação coloca em risco permanente os usuários. Não raras vezes os ônibus colocam a vida dos usuários em perigo, já que a empresa não respeita o limite de pessoas. Por várias ocasiões, ônibus que fazem a linha Campina Verde/Padre Eustáquio tiveram dificuldades em subir alguns aclives, conforme contam usuários. Também é comum usuários ficarem pelo caminho por causa de ônibus que quebram no meio do percurso.
CONTRASTE – O contraste dos investimentos nos bairros periféricos é descomunal, comparando-se com o que foi feito na região central. Algumas obras, que poderiam ser adiadas, já que não apresentavam nenhuma urgência, deixam os moradores dos bairros indignados. Eles não aceitam, definitivamente, os gastos com o alargamento dos passeios da Rua Goiás e Avenida 1º de Junho, enquanto não sobra uma máquina sequer para fazer pelo menos uma limpeza nas ruas que escondem todo tipo de perigo.
Agora mesmo a prefeitura está anunciando uma nova obra na Avenida 1º de Junho, onde foi construído o desnecessário pórtico, cuja utilidade é apenas para satisfazer o ego de seu criador. Independente do valor do recurso liberado para o pórtico, a “obra” é o símbolo maior da negligência total e absoluta com a região periférica. Neste final de semana, a prefeitura vai construir a travessia sob o pórtico (leia).
DESAFIO – Cuidar dos bairros periféricos é o maior desafio do futuro prefeito Vladimir Azevedo (PSDB). Em sua campanha, o prefeito eleito usou boa parte do seu discurso para afirmar que sua administração vai cuidar dos bairros da cidade, dando condições mínimas de dignidade para seus moradores. A população, com certeza, espera que a palavra de Vladimir seja honrada, não caindo no vazio como aconteceu com o discurso do prefeito Demetrius Pereira. “Quero fazer de Divinópolis uma cidade boa para se viver não apenas na região central”. Quem mora nos bairros não suporta mais ouvir demagogia semelhante. “O que a gente quer é apenas ter um pouco de atenção”, afirma Maria Olinda de Assis, 79 anos, residente no Bairro Santa Lúcia.











