Por Rodrigo Dias: DIVAGAÇÃO SOBRE NADA

Publicado por: Redação

Vamos falar de nada. Do que não ocupa espaço e nem gera peso. Aquilo que prende o olhar no infinito à procura… De nada. Da ausência de aborrecimento. Nos dias sem rumo, o melhor é falar do nada.

Pode até não parecer, mas o nada é superfície. Delicada, é verdade, mas oferece sustentação. É lugar onde se esvazia. É lugar de construção. O nada é cinza, cor de tempestade. Lá, por vezes, epifania cai como raio.

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Um bem súbito que surge ao acaso. Da despretensiosa mente vazia que por um momento preferiu se ocupar de nada. O ócio criativo é a falta do pensar lógico, em detrimento de outros sentidos. Outras conexões.

O pensar em nada é aquele instante que a cabeça fica fora d’água quando se afoga. Ao parar de se debater no fundo do rio para emergir e respirar. Nesse curto momento se vê a margem, os galhos e o barco. Percebe-se que está tudo à mão.

Com tudo tão conturbado e incerto, nunca foi tão importante pensar no nada. No nada ao redor, no nada que nada somos. E por não ser nada o nada, um nada tudo pode ser.

Como se fosse pintura abstrata, em que cada traço ganha sentido coletivo. Como no dadaísmo, juntar cacos e completar o sentido do que não era nada e agora é obra-prima.

Se refazer no silêncio da contemplação, extasiado com o raio e temendo a voz do trovão. O medo não deve ser ponto de chegada e sim de partida. O estalo da ação.

O nada e suas nuances. Alguns acham esse espaço confortável, seguro. Outros dizem que aperta, à medida que sobra. Mas o nada é feito sob medida. O que cabe em mim, não serve para você. Independente disso, somos solidários na “nadisse”.

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Eu te avisei. Hoje você perdeu seu tempo. Falei de nada. Era necessário falar. Ressignificar essa coisa… Esse lugar. O nada. Ao falar de nada, tenho essa estranha sensação de leveza. De parto cesáreo; indolor. Cirúrgico.

Falar de nada nem sempre é conversa fora. Pode ser uma das formas de compreender este sentido que não se encerra na própria palavra. É algo maior e, por que não, de cada um.

Agora tento um jeito de acabar bem esse texto e não é que Sócrates – filósofo, pensador – me socorre. Roubo dele a expressão “ipse se nihil scire id unum sciat“. Que em bom português quer dizer:

Sei uma coisa: que eu nada sei.

Sentido, quando não se constrói, descobre-se nos vãos. Onde julgava-se nada acontecer. Nas ausências, também se cresce. Fruto para ser entendido só depois que amadurece.

 

 

Por Rodrigo Dias

RODRIGO DIAS é jornalista e web poeta,

Há mais de duas décadas trabalha

No mercado de comunicação.

Formado em Publicidade e Propaganda,

Também atua como assessor de comunicação.

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