Entre ataque e oração, Malafaia apanha nas redes por incoerência política e reliosa

Pastor voltou ao centro das críticas após atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro e, pouco depois, aparecer mobilizando oração e apoio ao mesmo nome, reacendendo questionamentos sobre seu papel político, seu discurso religioso e sua retórica agressiva

Publicado por: Geraldo Passos

Silas Malafaia voltou a ser triturado nas redes sociais, especialmente no X, por um motivo que até seus adversários já tratam como marca registrada de sua atuação pública: a dubiedade. Em um momento, o pastor aparece atacando de forma dura a candidatura de Flávio Bolsonaro, afirmando que “não vai engolir” a escolha e criticando o que chamou de “negócio de família” na direita. Pouco depois, surge em culto ao lado do mesmo Flávio, com gesto de apoio, mobilização religiosa e clima de aliança. O resultado era previsível: a internet leu o movimento como contradição escancarada.

A crítica inicial de Malafaia contra Flávio foi pública e pesada. Em dezembro de 2025, ele reagiu à hipótese de Flávio Bolsonaro disputar a Presidência e disse que não aceitaria a imposição do nome apenas por ser filho do ex-presidente. Também questionou o contexto em que Jair Bolsonaro teria tomado a decisão e defendeu outra composição para a direita. Não foi uma divergência discreta. Foi um ataque frontal, com forte repercussão no campo bolsonarista.

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Só que o roteiro mudou. Já em maio de 2026, Flávio Bolsonaro apareceu em culto com Malafaia e recebeu apoio público do pastor, em movimento lido como reconciliação e aceno eleitoral. A imprensa registrou que os dois “selaram parceria” na disputa presidencial e que o líder religioso mobilizou seu espaço de culto para dar visibilidade ao senador. Foi exatamente essa guinada que inflamou as redes: para muita gente, Malafaia saiu de crítico indignado para cabo eleitoral espiritual do mesmo projeto que antes dizia rejeitar.

É esse vaivém que está sendo cobrado nas redes: quando a conveniência política muda mais rápido que o discurso moral, a autoridade pública começa a parecer cálculo, não convicção.

A pancada virtual não se explica só pela relação com Flávio. Ela encontra terreno fértil em um histórico de falas que há tempos incomodam até parte do público evangélico. Em março de 2026, por exemplo, viralizaram declarações do pastor criticando fiéis que, segundo ele, poderiam dar valores maiores de dízimo, mas entregariam menos do que “deveriam”. O episódio repercutiu porque, para muitos internautas, reforçou a imagem de um líder religioso mais preocupado em cobrar contribuição do que em moderar o próprio tom.

Além disso, Malafaia também vem acumulando desgaste por seu vocabulário agressivo e por ofensas públicas em disputas políticas. Reportagens recentes mostraram que o STF analisa caso em que ele chamou generais de “frouxos”, “omissos” e “covardes” em ato pela anistia. O dado importa porque ajuda a explicar por que tanta gente, nas redes, já não enxerga em suas falas mera “veemência pastoral”, mas um padrão de confronto permanente, xingamento e radicalização verbal.

Essa agressividade, combinada com o zigue-zague político, produz um efeito corrosivo. Quando um líder religioso se posiciona como conselheiro moral da sociedade, mas muda de postura conforme a maré eleitoral, a cobrança pública aumenta. E quando esse mesmo líder mistura fé, palanque, pressão sobre adversários, cobrança de dízimo e apoio seletivo a políticos, o debate deixa de ser só religioso e passa a ser também de credibilidade pública.

Malafaia sempre gostou de ocupar o centro do ringue. O problema é que, quando o discurso troca de alvo e de lado sem grande cerimônia, a plateia deixa de aplaudir e começa a vaiar.

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É justamente isso que o X tem refletido. A rede, que costuma reagir com brutalidade a incoerências percebidas, encontrou em Malafaia um alvo perfeito: figura conhecida, retórica inflamável, histórico de polêmicas e, agora, uma contradição fácil de resumir em poucas linhas, ou até em poucos memes. Primeiro rejeita Flávio. Depois ora por Flávio. Primeiro denuncia “negócio de família”. Depois ajuda a legitimar o herdeiro do clã. A síntese viral estava pronta.

No fundo, a crise de imagem do pastor não nasceu apenas de um episódio. Ela resulta do acúmulo. As falas sobre dinheiro, o tom chulo, os xingamentos, a postura beligerante em púlpito e a oscilação política formaram um pacote difícil de defender fora da bolha fiel. O culto pode até absorver isso. A internet, não.

Se há algo que as redes sociais punem com especial prazer, é a sensação de fingimento. E hoje a cobrança em cima de Malafaia vai justamente nessa direção: menos do que discordar dele, muita gente parece convencida de que ele já não consegue sustentar a própria narrativa sem tropeçar nela.

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