Entre momentos de choro, contradições sobre ciúme e acusações contra a polícia, foram interrogados nesta quarta-feira (28) Alexandre Nardoni, 29, e Anna Carolina Jatobá, 24, pai e madrasta da menina Isabella, 5, morta ao cair do 6° andar do edifício em que morava o casal. Os dois respondem criminalmente pelo homicídio, que ocorreu em 29 de março.
Alexandre e Anna Carolina conversaram pouco antes da sessão. Em celas separadas da carceragem do Fórum de Santana (zona norte de São Paulo), eles ficaram frente a frente, de onde se viam pelas grades. Nervosa, a madrasta teria sido acalmada por Alexandre.
Primeira a ser ouvida pelo juiz Maurício Fossen, Anna Carolina tomou três horas e meia para relatar sua versão dos fatos. Durante o depoimento, ela chorou por diversas vezes e reafirmou ser inocente. Em seguida, foi a vez de Alexandre falar por duas horas e meia. Ambos ficaram algemados e usavam roupas de presidiários. Por volta das 23h, eles retornaram a presídios em Tremembé, no interior paulista, onde estão presos.
PRESSÃO – Anna Carolina e Alexandre, pela primeira vez, atacaram uma suposta conduta da polícia no dia do crime. A madrasta disse ter sido pressionado na delegacia, logo após o homicídio, pela delegada Renata Pontes, que regeu as investigações, para incriminar o marido.
“A dra. Renata falava: ‘Vou colocar você em uma temporária, você não tem faculdade, o Alexandre tem. Você tem noção do que é cair em uma prisão?’”. Ainda segundo Jatobá, a delegada teria questionado se ela não estaria encobrindo Alexandre por amor.
Mais tarde, Alexandre Nardoni também alegou inocência e afirmou estar indignado com o comportamento que a polícia teria adotado na noite em que sua filha morreu. Nardoni disse ao juiz que, durante aquela madrugada, ele e a mulher foram colocados em salas separadas tão logo chegaram à delegacia para prestar esclarecimentos. “Já me trataram como se eu fosse culpado.”
O pai de Isabella diz ter sido chamado pela delegada de “assassino”, enquanto o outro delegado do caso, Calixto Calil Filho, o teria taxado de “psicopata frio”, no mesmo momento em que chutava uma lixeira e batia na mesa, em tom ameaçador. “Estou indignado até hoje”, afirmou Alexandre.
CIÚME – O relacionamento entre Anna Carolina Jatobá e a mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, foi o primeiro ponto de contradição do casal. A madrasta revelou que já sentiu muitos ciúmes da mãe de Isabella, mas ressalvou que amadureceu e as brigas com Alexandre cessaram depois que Pietro nasceu. Já Alexandre afirmou que o relacionamento entre as duas era normal e que não havia ciúme.
Outra tese levantada por ambos foi a de que não havia segurança no prédio em que moravam. Segundo Jatobá, houve um desentendimento com o pedreiro, que havia sido contratado para finalizar as obras do local.Nardoni também se disse indignado com o fato de não terem sido investigadas outras pessoas – ele citou o porteiro, um pedreiro e o zelador, entre outros, e argumentou que a chave do apartamento ficou por quatro meses na portaria do prédio para, depois, permanecer na posse do pedreiro que fazia reforma no local.
Na noite do crime, Alexandre disse que chegou a gritar com o porteiro, que não estava na portaria quando ele desceu para ver o corpo da menina, já caído sobre o jardim. E também reclamou com o zelador, que nunca saía muito tarde, mas naquele dia e horário, estava presente no prédio – Isabella caiu da janela por volta das 23h.
Por sua vez, Anna Jabotá trouxe mais uma novidade à versão apresentada em dois depoimentos anteriores: disse ao juiz que perdeu a chave do apartamento dias antes da tragédia. O marido não comentou se seria verdade.
A madrasta completou dizendo que havia uma entrada escondida abaixo da portaria pela qual prestadores de serviços entravam sem serem percebidos, que a cerca elétrica nunca havia sido ligada e que as entradas e saídas de pessoas nem sempre eram registradas. Alexandre disse ainda que chegou a encostar na cerca naquela noite.
AMOR POR ISABELLA – Anna Carolina descreveu com detalhes todos os acontecimentos desde a sexta-feira anterior ao homicídio até a queda da menina. Segundo ela, Isabella estava feliz e brincou com os irmãos. “Se a mãe dela achasse que havia algum maltrato, não deixaria que ela nos visitasse”, afirmou.
Nos últimos minutos em que a madrasta respondeu a perguntas feitas pela defesa, ela chorou todas as vezes em que falou de Isabella. “Tudo era do jeitinho que ela queria. Ela teve o quarto que ela sonhava”, disse Jatobá.
DIA DO CRIME – Ainda conforme a madrasta, ninguém discutiu no caminho do supermercado para a casa. Ela fez questão de ressaltar que não havia sangue no carro, mesmo sem que o juiz lhe questionassse sobre isso.
Quando chegaram ao prédio, na zona norte, ela afirma que Alexandre subiu primeiro com Isabella e, enquanto esperava no carro, entrou uma pick-up com um som alto. Em seguida, Alexandre desceu e eles voltaram a subir juntos. Na entrada, Nardoni tirou a chave do bolso para abrir a porta.
Neste momento, Jatobá afirma que Alexandre perguntou onde estava Isabella. “Deve ter caído da cama”, disse a madrasta. Foi então que eles começaram a procurar por ela. Alexandre foi em direção à janela com o protetor cortado e a madrasta afirma ter visto uma gota de sangue na cama de Pietro, filho mais velho do casal. Desesperados, ambos afirmam terem descido juntos do elevador para encontrar Isabella no jardim.
Alexandre Nardoni contou quase a mesma versão que Anna Carolina, mas acrescentou que, além de sangue na cama, também viu manchas no chão do quarto dos meninos (o casal têm dois filhos) e no protetor de tela cortado que estava na janela. Além disso, voltou a negar que a porta do apartamento tivesse sido arrombada.
PRÓXIMOS PASSOS – A Justiça agora deve ouvir as testemunhas de acusação. De acordo com a assessoria de imprensa do TJ, são 18 testemunhas, com interrogatórios marcados para os dias 17 e 18 de junho.
Os advogados do casal saíram do fórum sem falar com a imprensa. Desde o segundo decreto de prisão, preventiva, foram três as tentativas para libertar o casal. Foram negadas liminares no TJ-SP e no STJ (Superior Tribunal de Justiça). Ontem, a 5ª Turma do tribunal superior também negou o mérito do pedido, por unanimidade, sob um fundamento processual.
Agora, os advogados dos Nardoni mudaram a estratégia e, ao invés de recorrer diretamente ao Supremo, irão aguardar o julgamento do mérito no TJ, que deve ocorrer somente após o dia 4 de junho, quando o desembargador relator, Canguçu de Almeida, retorna da licença-prêmio.
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