Em discurso firme e repleto de críticas na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (23), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou que a ONU enfrenta “a maior ameaça da sua história” e pediu coragem das lideranças globais, a partir dos recentes episódios de conflitos entre paises em uma escalada jamais vista,
Lula afirmou que “o multilateralismo está diante de uma encruzilhada e a autoridade da ONU está em xeque”, ao apontar violações da soberania, dos paises e sanções arbitrárias e intervenções unilaterais como sinais sinalizando um colapso no sistema.
O presidente comparou a crise atual ao enfraquecimento das democracias no mundo. Segundo ele, “forças antidemocráticas tentam subjugar instituições, sufocar liberdades e cercear a imprensa”, enquanto cultuam a violência e espalham ignorância em ambientes físicos e digitais.
Defesa da democracia no Brasil
Ao falar sobre o Brasil, Lula relembrou os 40 anos da redemocratização após duas décadas de ditadura militar. Ele defendeu a independência dos poderes e declarou que “não há pacificação com impunidade”.
Em referência à condenação do ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, Lula destacou: “pela primeira vez em 525 anos de nossa história, um ex-chefe de Estado foi condenado por atentar contra o Estado Democrático de Direito”.
Segundo ele, o processo teve garantias legais e pleno direito de defesa, o que prova a solidez das instituições brasileiras. Lula afirmou que o país deu “um recado a autocratas”: “nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”.
Fome e desigualdade
No campo social, Lula celebrou a saída do Brasil do Mapa da Fome em 2025. Porém, alertou que o planeta ainda convive com 670 milhões de pessoas famintas e 2,3 bilhões em insegurança alimentar. Ele defendeu que a guerra contra a fome é a única em que todos podem sair vencedores.
Lula citou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada no G20 com apoio de 103 países, e cobrou mais investimentos em desenvolvimento, alívio da dívida externa e tributação dos super-ricos.
O presidente ressaltou os riscos das plataformas digitais, usadas para espalhar ódio, misoginia e desinformação. Segundo ele, a internet “não pode ser uma terra sem lei”. Lula defendeu regulação como forma de proteção, e não de censura, lembrando que promulgou “uma das leis mais avançadas do mundo para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital”.
Política internacional e conflitos
Sobre a América Latina, Lula reforçou que a região deve permanecer como zona de paz. Criticou a associação entre criminalidade e terrorismo e afirmou que a cooperação contra lavagem de dinheiro e comércio de armas é a solução para enfrentar o narcotráfico.
Na Ucrânia, o presidente rejeitou uma saída militar e defendeu negociações que considerem as preocupações de todas as partes. Já no Oriente Médio, fez duras críticas à ofensiva israelense em Gaza: “nada justifica o genocídio em curso”, disse. Para ele, a fome vem sendo usada como arma de guerra, e o povo palestino corre risco de desaparecer.
Lula criticou o veto que impede a Palestina de ser reconhecida plenamente pela ONU e lamentou que Mahmoud Abbas tenha sido impedido de ocupar sua cadeira no plenário. “O massacre em Gaza não aconteceria sem a cumplicidade dos que poderiam evitá-lo”, declarou.
Clima e Amazônia
O presidente também reforçou o compromisso brasileiro no combate às mudanças climáticas. Ele lembrou que o Brasil reduziu pela metade o desmatamento na Amazônia nos últimos dois anos e prometeu erradicar a destruição florestal.
Lula anunciou a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que vai remunerar países que preservam suas florestas. Ele destacou que a COP30, em Belém, será “a COP da verdade”, e exigiu que países ricos assumam suas responsabilidades históricas.
Reforma da ONU e comércio global
Lula defendeu a criação de um Conselho da ONU dedicado ao clima e reforçou a necessidade de ampliar o Conselho de Segurança. Para ele, a ONU precisa recuperar sua legitimidade e voltar a representar esperança para os povos.
O presidente também criticou medidas unilaterais que afetam o comércio global e pediu a refundação da OMC em bases modernas e flexíveis.
Lula encerrou homenageando duas figuras que marcaram a história da ONU e que faleceram neste ano: o ex-presidente uruguaio José Mujica e o Papa Francisco. Ele destacou que ambos representavam valores humanistas e lembraria que “o autoritarismo, a degradação ambiental e a desigualdade não são inexoráveis”.
Segundo o presidente, o século 21 será multipolar, mas precisa ser também multilateral. Ele defendeu a voz do Sul Global, o fortalecimento de blocos como BRICS e G20 e concluiu: “nossa missão histórica é tornar a ONU novamente promotora da igualdade, da paz e da diversidade”.





