Trump “adoça” a concorrência: Coca‑Cola pode trocar xarope de milho por açúcar de cana

Ex‑presidente diz que fórmula da Coca‑Cola nos EUA será adoçada com cana debates e impactos no agronegócio brasileiro

Publicado por: Cassia Misael

Donald Trump declarou, nesta quarta-feira (16/7), que a Coca-Cola substituirá o xarope de milho por açúcar de cana nos refrigerantes vendidos nos Estados Unidos. A notícia, publicada na plataforma Truth Social, reacendeu debates sobre saúde alimentar, proteção agrícola e oportunidades comerciais para o Brasil. A multinacional, no entanto, ainda não confirmou oficialmente a mudança.

Em uma postagem feita na plataforma Truth Social, nesta quarta-feira (16/7),  Donald Trump, afirmou que a Coca-Cola mudará a composição de sua fórmula tradicional ao substituir o xarope de milho de alta frutose (HFCS) por açúcar de cana nas bebidas comercializadas no país. O anúncio, ainda não confirmado pela empresa, despertou o interesse do setor sucroenergético brasileiro, que pode ser impactado diretamente caso a alteração se concretize.

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Caso essa reformulação seja realmente implementada, o Brasil  maior produtor e exportador de açúcar de cana do mundo  poderá se beneficiar com o aumento da demanda. No entanto, especialistas alertam que barreiras comerciais e tarifas de importação impostas pelos EUA ainda tornam essa possibilidade limitada.

Segundo Mário Campos, presidente da Associação da Indústria da Bioenergia e do Açúcar de Minas Gerais (SIAMIG Bioenergia), para que o açúcar brasileiro ganhe espaço nos Estados Unidos, seria necessária uma reavaliação da cota tarifária. Atualmente, o Brasil tem direito de exportar 150 mil toneladas isentas de tarifa, dentro de uma cota global de 1,6 milhão. Quantidades superiores são tarifadas em US$ 350 por tonelada, o que praticamente inviabiliza a competitividade.

“O cenário só mudaria com a ampliação dessa cota ou com a redução da tarifa. Com as regras atuais, o custo se torna proibitivo”, explicou Campos. A título de comparação, a tonelada do açúcar custa atualmente US$ 400  somando a tarifa, o produto brasileiro chega a US$ 750, encarecendo o produto no mercado americano.

O Brasil produz anualmente cerca de 44 milhões de toneladas de açúcar, sendo 34 milhões destinadas à exportação. Para que a substituição do HFCS por açúcar de cana tivesse impacto relevante, os Estados Unidos precisariam importar entre 1 milhão e 2 milhões de toneladas do Brasil  cenário ainda distante sem mudanças na política tarifária americana.

Embora a média anual de exportações brasileiras para os EUA seja de aproximadamente 300 mil toneladas, volumes superiores foram registrados nos últimos dois anos devido a problemas de produção interna nos EUA e no México, o que tornou viável, mesmo com tarifas, a entrada do açúcar brasileiro.

Campos ressaltou que essa situação foi excepcional. “Os preços internos estavam altos, e a tarifa, proporcionalmente, ficou mais aceitável. Mas foi algo pontual. Para termos um fluxo constante de exportação, seria preciso negociar com o governo americano”, afirmou.

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No aspecto de consumo, cresce entre os americanos a preferência por bebidas adoçadas com açúcar de cana, considerado mais “natural”. Em supermercados, versões importadas da Coca-Cola mexicana  adoçada com cana  já são vendidas com rótulos diferenciados e, inclusive, com preço mais alto. Isso reforça o apelo de uma possível reformulação da fórmula, defendida por Trump como forma de promover mais saúde à população.

O movimento “Make America Healthy Again”, encabeçado por Robert F. Kennedy Jr., atual secretário de Saúde dos EUA, vem pressionando o setor alimentício a eliminar ingredientes como HFCS, óleos de sementes e corantes artificiais. Para ele, esses elementos estariam associados a uma série de doenças crônicas e à má qualidade nutricional das dietas americanas.

Por outro lado, produtores de milho norte-americanos se mostram preocupados. John Bode, presidente da Associação de Refinadores de Milho, alertou que a substituição do xarope de milho por açúcar de cana pode provocar demissões, redução na renda agrícola e aumento nas importações. “Tudo isso sem qualquer benefício comprovado à saúde”, declarou.

A possível reformulação da Coca-Cola ocorre em um momento de tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos. Trump prometeu, recentemente, impor um tarifaço de até 50% sobre todos os produtos importados do Brasil. Essa medida, se colocada em prática, também atingiria a cota atual de exportação de açúcar e afetaria o envio de etanol brasileiro aos EUA.

Mesmo com o cenário de incerteza, Campos acredita que ainda há espaço para negociações. “Se houver uma agenda de diálogo entre os países, poderíamos ampliar nossa participação no mercado americano, tanto no açúcar quanto no etanol”, concluiu.

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