Votação apertada e resistências internas
A votação ocorreu sob a condução da presidente do partido, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR), e contou com apoio da secretária nacional de juventude, Nadia Garcia. O resultado foi apertado: a mudança foi aprovada por 60 votos a favor, 27 contrários e cinco abstenções. Os opositores do novo estatuto argumentam que a aprovação deveria ter ocorrido com um quórum qualificado de 62 votos, o que pode levar a contestacões na Justiça.
A decisão vai de encontro às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que vinha defendendo a necessidade de renovação nos quadros do partido. No entanto, a mudança permite que deputados concorram à reeleição mesmo após três mandatos consecutivos. No caso dos senadores, que possuem mandatos mais longos, a proibição continua para aqueles que já completaram dois períodos consecutivos.
Bastidores e tensões na reunião
O debate foi tumultuado. Durante a sessão, o deputado federal Jilmar Tatto (SP), secretário de Comunicação do PT, discutiu asperamente com Valter Pomar, representante da Articulação de Esquerda. Questionada sobre a condução do processo, Gleisi Hoffmann rebateu as críticas e afirmou que sabia como liderar uma reunião do partido.
A nova regra suspende a vedação que impedia a reeleição de parlamentares após três mandatos consecutivos. O estatuto anterior dizia: “Não poderá se apresentar como pré-candidato o parlamentar que já tiver sido eleito para três mandatos consecutivos na mesma Casa Legislativa, e, no caso do cargo de senador, aquele que já tiver sido eleito para dois mandatos consecutivos no Senado Federal”.
Essa proibição, que entraria em vigor nas eleições de 2026, foi derrubada, permitindo a reeleição dos parlamentares do PT no próximo pleito.
Impacto e articulações internas
Apelidada internamente de “emenda Gleide Andrade”, em referência à tesoureira do partido, a mudança também garante a permanência dos dirigentes partidários em suas funções, flexibilizando as regras do estatuto original. O texto aprovado estabelece: “O disposto nos artigos 32 e 141 do Estatuto do Partido não se aplicará ao PED [processo eleitoral interno] realizado em 6 de julho de 2025 e às eleições parlamentares de 2026, permitindo que dirigentes e parlamentares possam renovar seus mandatos eletivos”.
Embora essa mudança abra brechas para a reeleição da própria Gleisi Hoffmann como presidente do partido, aliados afirmam que essa possibilidade estaria fora de cogitação.
Eleição direta e rachaduras na esquerda do PT
Outra votação importante foi a decisão de manter as eleições diretas para a direção do PT, incluindo a escolha do presidente da sigla. A proposta de alterar o modelo de seleção para um congresso partidário foi rejeitada por 61 votos a 24.
A medida gerou divisão na esquerda do PT. Enquanto alguns defendiam um modelo híbrido que permitisse debates internos mais aprofundados, a corrente majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB), liderada por Lula, insistiu na eleição direta. O candidato apoiado por Lula para liderar o partido, Edinho Silva, ex-prefeito de Araraquara, enfrenta resistência dentro da CNB, que ainda avalia outras opções.
Repercussão e possíveis desdobramentos
A mudança estatutária acirrou disputas internas e provocou reações imediatas. O Diretório Nacional do PT se prepara para enfrentar desafios legais, já que opositores ameaçam contestar a decisão na Justiça.
Nos bastidores, a resistência a Edinho Silva deve arrefecer após Lula indicar Gleisi Hoffmann para um cargo no governo, possivelmente na Secretaria-Geral da Presidência. A estratégia busca reduzir as disputas internas e facilitar o consenso em torno do candidato de Lula.
A eleição para a presidência do PT está marcada para o dia 6 de julho de 2025, e os próximos meses serão decisivos para definir os rumos do partido diante dessas transformações polêmicas.






