Por Laiz Soares: “Um passo para frente, dois para trás: laranjas para cascar, sapos para engolir”


Na última eleição tive muito orgulho de ver tantas candidatas a vereadoras, prefeitas e vice-prefeitas boas e competitivas por todo país. A participação de mulheres dentro da política é uma das causas que levo em minhas prioridades, já que ela é fundamental para o desenvolvimento econômico e social da nossa sociedade e isso é comprovado em estudos com evidências no mundo todo.

Em 2020 fomos 33,3% do total de candidaturas e apesar de ainda ser um número pequeno, já que somos mais da metade do eleitorado, esses dados são um recorde para as eleições municipais. Isso aconteceu pela exigência da lei que “obriga” os partidos a presença de 30% de mulheres candidatas nas chapas de vereadoras e deputadas. Porém, ainda vemos muitas candidatas chamadas “laranjas”, que são colocadas lá só para cumprir a exigência e às vezes não tem o próprio voto, muitas terminam com 0 votos, ou seja, não foram candidatas, estavam ali só para serem usadas pelo partido. Aconteceu aqui, na chapa do PSL, ainda não entendi porque não foi cassada.

Há inclusive casos criminosos por aí onde partidos usam essas mulheres para desviar dinheiro público que seria direito delas para campanhas de homens, o que é duplamente criminoso! O grande problema dessa regra de exigir um número mínimo de candidatas é que no Brasil sempre se dá um jeitinho de se burlar a lei, que foi criada para incentivar os partidos a s esforçar para procurar por mais mulheres, formá-las e ajudá-las na política, que não é nada fácil para nós, pois o ambiente é agressivo, hostil, machista e muito pesado, o que acaba desanimando muitas mulheres. Eu ouvi de um político daqui uma certa vez que as mulheres não têm interesse na política, que é difícil demais formar chapa e a culpa é delas! Mentira! Quem não tem interesse é vocês, que não fazem nenhum esforço para tornar o ambiente atrativo e agradável para as mulheres e não querem ceder espaço nem dedicar tempo, recursos e energia com as mulheres.

Somos vistas como um peso, um fardo, uma obrigação para a maioria dos partidos. Poucos são os partidos que veem nós mulheres como alguém que tem potencial e nos enxergam como lideranças fortes, e posso dizer que graças a Deus tenho o privilégio de estar em um deles. As mulheres tem interesse sim, o que elas não têm é oportunidade! Faltam lideranças políticas influentes que de fato querem apoiá-las e investir tempo e recursos nelas. Por isso sou a favor de reservas de cadeiras no parlamento e também de uma mudança hoje em discussão no Congresso que incentiva financeiramente os partidos premiando os que conseguirem candidatas com mais votos. Assim, os partidos passarão de repente a valorizar, acreditar e trabalhar pelos votos das mulheres levando a candidatura delas a sério, já que eles serão recompensados se conseguirem candidatas com boas votações.

A maioria dos homens da política, principalmente no interior, não acreditam no potencial das mulheres, fazem chacota, subestimam. É só lembrar que fui chamada de aventureira que não tinha chance nenhuma por muitos. Faziam piada. Como disse Zagallo uma certa vez, “tiveram que me engolir”. Agora, acham que minha votação foi sorte, obra do acaso, e que é impossível ela se repetir e muito menos aumentar. Ser mulher na política exige muito estômago, porque a quantidade de sapo que se precisa engolir é absurda, mas a gente sempre mostra nossa força e cala a boca daqueles que acham que não somos capazes, já vi esse filme algumas vezes, e sei que vou ver para o resto da vida.

Já cheguei a ouvir: vem para o nosso partido que a gente te arranja um “João Campos” aqui! Ouvi de um deputado fazendo alusão ao namorado da minha amiga deputada que namora outro político. A gente é sempre subestimada, o tempo inteiro, em diferentes contextos. Reduzida, diminuída, atrelada a um homem, chamada de burra das mais diferentes formas. Fora a sexualização das mulheres, que são vistas e tratadas como objeto.

Nas notícias me deparo cada vez mais com casos como os da Deputada Isa Penna e da Vereadora Bruna Rodrigues que foram assediadas em plena Assembleia e Câmara Municipal por homens que deveriam ser seus colegas, e principalmente que deveriam ser exemplos para a população como representantes do povo. E tem gente que ainda diz que não existe machismo e que as mulheres na política não enfrentam dificuldades (eu ouvi isso no dia da apuração da eleição ano passado pelos comentaristas que estavam na TV Candidés e fiquei horrorizada).

Vejo discursos políticos baseados no ódio e no machismo. E fico triste ao assistir autoridades que deveriam resguardar e promover nossa igualdade ameaçarem cada vez mais os direitos já conquistados depois de muita luta. O direito das mulheres dentro de nosso país sempre foi em um processo de ‘tira casaco, coloca casaco’, um passo pra frente, dois para trás. Somos um país de progressos e retrocessos, até quando? Participar da história eleitoral brasileira e de minha cidade me deu esperança para nosso futuro. Ninguém vai nos parar!

“Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la.”

-Djamila Ribeiro

 

Um comentário em “Por Laiz Soares: “Um passo para frente, dois para trás: laranjas para cascar, sapos para engolir”

  • 14 de setembro de 2021 em 08:35
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    Lais meu candidato pra qualquer cargo publico e o Marquinho Clementino voce e iqual esse Will bueno so Fala bonito e. E bonita

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