Conto de Leonardo Junqueira: QUEM TEM MEDO DA PANELA DE PRESSÃO? Eu tenho, caros leitores… E muito!


Na verdade, nunca imaginei que eu poderia criar tanto medo de algo tão presente em todos os lares do planeta. Panela de pressão tem muitas utilidades, além da sua função primária de cozinhar mais rapidamente os alimentos. Ela ainda serve para requentar aquele belo mexidão de “já te vi”, que é uma maravilha e ainda frequenta forno e geladeira sem perder a pose. A panela de pressão é tão especial, que carrega uma espécie de “coroinha”, muitas vezes inquieta e dançante, quando o vapor aquecido quer se ver livre da pressão. É um espetáculo, tecnologia que venceu o tempo e nada se iguala à sua eficiência na cozinha… Não, até que ela resolva mostrar seu lado mau, suas intenções que faz um “schiii…schiii, schiii!”, como uma pessoa autoritária nos manda calar.

Quando ainda casado, tínhamos duas panelas de pressão. Se eu pudesse prever o que ela faria conosco não as chamaria de panelas ou utilidades do lar. Eu as consideraria uma pequena “gang” de terroristas com tendências explosivas em formação.

Certa vez, minha companheira descobriu na literatura nutricional, uma receita que tinha como ingrediente principal a banana verde. Não sei bem ao que servia, mas o trabalho era penoso para transformar a fruta numa massa, que ao final se tornaria alguma coisa deliciosa. O trabalho só era justificado, porque seria usada toda a tecnologia da panela de pressão, que em curto tempo resolveria 80% da missão culinária.

Em nossa casa tínhamos 5 lindos e graciosos cães, que se divertiam com a nossa presença acompanhando ora eu, ora minha companheira. Certo dia ao final da tarde, notei a intensa movimentação na cozinha para a preparação da tal massa de banana verde. E como um bom companheiro, me ofereci para ficar cuidado das “crianças” (nossos cães) enquanto o processo se desenrolava freneticamente.

Em alguns momentos eu me sentava em frente a TV, em outras ficava no quarto (também vendo TV), voltava para a sala, retornava ao quarto e assim o tempo passava. De longe era possível ouvir o “schiii, schiii, schiii” da coroinha da panela avisando que tudo estava correndo bem. Minha companheira dando a tarefa como parcialmente cumprida se encaminhou para o quarto deixando o serviço pesado para a panela, que reinava soberanamente sobre um fogão de 6 bocas.

Os 5 cães correram para se juntarem a ela no conforto da nossa cama (isso mesmo, sobre a nossa cama e mais precisamente sobre o meu travesseiro). Não querendo estar só com uma TV, fui para o quarto me juntar àquela família, onde tudo era pelos, latidos, dengos, conversas bobas e TV ligada.

Passei por minha enteada, que atravessou de seu quarto rumo à cozinha e nem percebemos que o “schiii, schiii, schiii” havia parado. A panela estava muda. Do nosso quarto, vi quando minha enteada regressou da cozinha com uma garrafa d’água fechando a porta, mas deitado eu estava e deitado fiquei. Não notamos o silêncio na cozinha. Não havia mais ruídos, nem o “schiii, schiiii, schiiii” acontecia. Imagino, que a manobra terrorista estava em andamento e o efeito surpresa seria determinante para o sucesso do crime.

“Kaaaa Buuummm!” O estrondo mais pareceu um tiro de obus 105 da artilharia dentro da minha casa! A explosão foi tão forte, que do quarto sentimos o deslocamento de ar. Foi cachorro correndo pra todo lado. Os olhinhos deles quase saíram pra fora e a tremedeira foi geral (inclusive nossa).

Como o macho da casa era eu, levantei e fui caminhando corajosamente para a cozinha em meio a uma fumaceira enorme. Ao entrar na cozinha vi o que aquele ato terrorista da panela de pressão fez principalmente ao nosso belo fogão de 6 bocas. “Aquilo” mais parecia a carcaça de uma Romizzeta depois de atropelada por uma carreta e pior: massa de banana verde até na orelha do retrato da parede. O engraçado é que a panela parecia ainda perfeita, apenas sem a tampa que voou para lugar desconhecido até hoje. Meus amigos, acho que contei essa história para chegar a esse ponto.

Vocês não têm ideia do que a massa de banana verde é capaz de fazer numa cozinha após a explosão de uma panela de pressão. Até parece, que havia cumplicidade entre as partes, ou seja, a panela explodir e a massa de banana espalhar o terror em todo lugar.

Não conseguimos limpar. Nunca conseguimos. Permanecemos na casa em companhia daquela coisa verde amarronzada por toda parte, nos lembrando a todo momento, que é melhor nos submetermos ao “schiii, schiii, schiii” da coroinha da panela do que o seu silêncio confortante.

Aprendi muito com o acontecimento e hoje não há nada que me cause mais respeito do que uma panela de pressão. O problema agora é, como chamar a atenção das pessoas, porque fazer “Psiiiu” para chamar a atenção de alguém perto dos cães é provocar pânico geral na matilha!

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